Laila Garin encarna Édith Piaf e suas contradições em novo musical biográfico
Uma estação de trem é o avesso do museu -ali ninguém se fixa, os encontros são breves e o apito das partidas abafa as despedidas. É nesse território de transitoriedade e memória que se estabelece a narrativa de " Piaf ? Eu não me arrependo ", superprodução da Aventura em cartaz no Teatro Bradesco . O espetáculo deixa de lado a cronologia comportada para olhar para uma Édith Piaf que viveu em permanente estado de desembarque -acumulando tragédias, acidentes e paixões sem nunca pedir desculpas pelo caos que ela deixava para trás. Leia mais (08/11/2026 - 04h00)

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Laila Garin em 'Piaf, Eu Não Me Arrependo' - André Wanderley / Divulgação Musical

Uma estação de trem é o avesso do museu —ali ninguém se fixa, os encontros são breves e o apito das partidas abafa as despedidas. É nesse território de transitoriedade e memória que se estabelece a narrativa de " Piaf – Eu não me arrependo ", superprodução da Aventura em cartaz no Teatro Bradesco . O espetáculo deixa de lado a cronologia comportada para olhar para uma Édith Piaf que viveu em permanente estado de desembarque —acumulando tragédias, acidentes e paixões sem nunca pedir desculpas pelo caos que ela deixava para trás.
Décadas após a morte da cantora, Laila Garin evita a imitação mecânica do mito para buscar a força de sua presença em cena. O encontro entre a atriz baiana —filha de pai francês e mãe brasileira— e a artista francesa passa longe do mero resumo biográfico.
Sob a direção de Sergio Módena e amparada por uma dramaturgia inédita de Newton Moreno e Alessandro Toller, a montagem investiga o impacto de uma trajetória artística e pessoal guiada pela recusa ao meio-termo.

A vida de Édith Giovanna Gassion (1915-1963) acumula episódios que a historiografia cultural prefere romantizar. Criada entre o chão frio das calçadas de Pigalle, o cotidiano opaco de um bordel gerido por sua avó paterna na Normandia e a poeira das caravanas circenses de seu pai, a menina descoberta por Louis Leplée em 1935 encontrou no canto o seu único instrumento de afirmação.
Foi Leplée quem a tirou das ruas e a levou para o cabaré Le Gerny’s, na Champs-Elysées, batizando-a como "La Môme Piaf" —o pequeno pardal. Mais tarde, Piaf enfrentou perdas marcantes que moldaram sua sensibilidade artística, como a morte trágica do pugilista Marcel Cerdan, campeão mundial dos pesos-médios e o grande amor de sua vida, vítima de um acidente aéreo em 1949 nas Ilhas Açores quando viajava para encontrá-la em Nova York.
Abalada emocionalmente pela perda de Cerdan e sofrendo de dores crônicas causadas por artrite reumatoide, a cantora recorreu ao abuso de álcool e ao uso contínuo de morfina.

Contudo, a nova encenação faz questão de resgatar um aspecto menos explorado da artista, a sua dimensão política e sua autonomia em tempos de opressão. Durante a ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial , Piaf abrigou clandestinos em bordéis e colaborou com a fuga de prisioneiros de guerra para os quais se apresentava em acampamentos alemães, distribuindo documentos falsos e fotos para evasão.
"A Piaf é uma figura muito política", analisa o diretor Sergio Módena. No texto da Pam Gems [dramaturga britânica cuja versão de 1978 foi montada no Brasil por Bibi Ferreira em 1982] isso é pouco citado e no cinema nem se fala. Mas boa parte do nosso espetáculo é dedicada a isso. São relatos de pessoas que viveram com ela. Piaf escondeu gente em casa e ajudou prisioneiros a fugir."
"A dramaturgia não está interessada em fazer apenas uma narrativa informativa ou um biográfico factual sobre o que aconteceu em cada ano", complementa o encenador. Módena partiu dessa premissa para rejeitar uma estrutura cênica que fosse comportada ou estritamente linear. Em vez de uma sequência didática de fatos, o diretor estabeleceu como espaço de cena uma monumental estação de trem, metáfora para um território de passagens, encontros e memórias que reaparecem em cena.

Ali, a trajetória de Piaf é orquestrada em um trânsito constante entre o drama, a comédia, a tragédia, a pantomima e o melodrama, sem concessões à fórmula fácil. A orquestra, sob a direção musical de Claudia Elizeu, abandona o isolamento do fosso tradicional e ganha o palco composta exclusivamente por mulheres.
Nesse ambiente de constante tensão poética, Laila Garin assume a condução do espetáculo em um protagonismo absoluto. Garin projetou-se nacionalmente em 2013 ao encarnar Elis Regina em "Elis, A Musical".
O trabalho lhe rendeu os prêmios Shell e APCA, consolidando sua reputação em montagens exigentes como "Gota d’Água A Seco", pela qual venceu os prêmios Cesgranrio, Bibi Ferreira e Reverência, e "A Hora da Estrela ou O Canto de Macabéa", além de trabalhos no audiovisual em séries como "3%" e "Dom".

Para interpretar a cantora francesa, o trabalho de preparação exigiu meses de dedicação rigorosa ao lado da fonoaudióloga Silvia Pinho e da professora de canto Amélia Gomes para reconfigurar a embocadura e alcançar a ressonância nasal característica do timbre francês.
A atriz detalha que o volume de texto e a responsabilidade de conduzir a narrativa em primeira pessoa impuseram um ritmo intenso de ensaios —com jornadas diárias de até nove horas em um período de dois meses e meio.
Para Laila, o apuro técnico do canto e da fala serve como extensão direta da presença física em cena. "No caso de Piaf, acho que a voz é o que mais existiu ali. É através da voz que ela diz o quanto não quer morrer e o quanto ama desesperadamente a vida."

O percurso coloca Garin inevitavelmente diante do rastro deixado por Bibi Ferreira (1922-2019), intérprete histórica de papéis célebres como Joana em "Gota d’Água" e da própria Piaf no cenário nacional. A atriz baiana, contudo, encara a referência sem sobressaltos ou comparações paralisantes. "Eu não tenho medo, me inspiro", afirma Garin sobre a referência de Bibi.
Se há uma década o público descobria a extensão do trabalho da atriz ao vê-la no papel de Elis Regina, a montagem atual tem como ponto de partida uma relação de maturidade e cumplicidade já estabelecida com a plateia.
Para a direção, a escolha da protagonista foi um passo intuitivo no desenvolvimento do projeto produzido pela Aventura, de Aniela Jordan, Luiz Calainho e Giulia Jordan. "A Laila estava talhada para fazer esse papel", pontua Módena. "Eu costumo dizer para ela: não fui eu quem te escolheu, foi a própria personagem. O que essa mulher faz nos ensaios todos os dias é algo impressionante. Para acompanhar essa força, me atentei em escolher um elenco que tivesse total domínio da palavra e do texto dramático, porque este é um espetáculo focado na densidade da cena", afirma o diretor.

Módena ressalta ainda o papel de Luiza Viana, alternante de Garin no papel principal: "É uma tarefa extremamente desafiadora, porque a protagonista praticamente não sai do palco. E a Luiza arrebenta fazendo também, garantindo o vigor do espetáculo em uma jornada tão exaustiva."
A montagem evita suavizar os momentos difíceis da vida da cantora. Os problemas de saúde, o alcoolismo, o lúpus e a dependência de remédios surgem sem apelo sentimental, integrados à personalidade de uma mulher que retomou a carreira diversas vezes após colapsos físicos.
Da mesma forma com que geria a própria trajetória e orientava novos talentos, Piaf manteve o controle das suas escolhas até os últimos dias na França, falecendo em outubro de 1963 acompanhada de seu último marido, Theo Sarapo. O espetáculo entrega o retrato de uma artista que encarou a solidão sem se resignar.

Em um cenário em que concessões e fórmulas comerciais ditam os rumos da criação teatral, a interpretação de Laila Garin resgata a dimensão de Édith Piaf como o testemunho de uma existência vivida sem pedir licença.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/08/laila-garin-encarna-edith-piaf-e-suas-contradicoes-em-novo-musical-biografico.shtml.

Laila Garin em 'Piaf, Eu Não Me Arrependo' - André Wanderley / Divulgação Musical · André Wanderley / — Foto: Folha de S.Paulo
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