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    Laila Garin encarna Édith Piaf e suas contradições em novo musical biográfico

    Uma estação de trem é o avesso do museu -ali ninguém se fixa, os encontros são breves e o apito das partidas abafa as despedidas. É nesse território de transitoriedade e memória que se estabelece a narrativa de " Piaf ? Eu não me arrependo ", superprodução da Aventura em cartaz no Teatro Bradesco . O espetáculo deixa de lado a cronologia comportada para olhar para uma Édith Piaf que viveu em permanente estado de desembarque -acumulando tragédias, acidentes e paixões sem nunca pedir desculpas pelo caos que ela deixava para trás. Leia mais (08/11/2026 - 04h00)

    Folha de S.Paulo
    11 de agosto de 2026 às 07:00
    Laila Garin encarna Édith Piaf e suas contradições em novo musical biográfico
    Foto: Folha de S.Paulo

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    Laila Garin em 'Piaf, Eu Não Me Arrependo' - André Wanderley / Divulgação Musical

    Laila Garin em 'Piaf, Eu Não Me Arrependo' - André Wanderley / Divulgação Musical · André Wanderley /
    Laila Garin em 'Piaf, Eu Não Me Arrependo' - André Wanderley / Divulgação Musical · André Wanderley / — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Uma estação de trem é o avesso do museu —ali ninguém se fixa, os encontros são breves e o apito das partidas abafa as despedidas. É nesse território de transitoriedade e memória que se estabelece a narrativa de " Piaf – Eu não me arrependo ", superprodução da Aventura em cartaz no Teatro Bradesco . O espetáculo deixa de lado a cronologia comportada para olhar para uma Édith Piaf que viveu em permanente estado de desembarque —acumulando tragédias, acidentes e paixões sem nunca pedir desculpas pelo caos que ela deixava para trás.

    Décadas após a morte da cantora, Laila Garin evita a imitação mecânica do mito para buscar a força de sua presença em cena. O encontro entre a atriz baiana —filha de pai francês e mãe brasileira— e a artista francesa passa longe do mero resumo biográfico.

    Sob a direção de Sergio Módena e amparada por uma dramaturgia inédita de Newton Moreno e Alessandro Toller, a montagem investiga o impacto de uma trajetória artística e pessoal guiada pela recusa ao meio-termo.

    Laila Garin é Édith Piaf em novo musical biográfico sobre a cantora francesa - Jonas Vaz/Divulgação · Jonas Vaz/Divulgação
    Laila Garin é Édith Piaf em novo musical biográfico sobre a cantora francesa - Jonas Vaz/Divulgação · Jonas Vaz/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A vida de Édith Giovanna Gassion (1915-1963) acumula episódios que a historiografia cultural prefere romantizar. Criada entre o chão frio das calçadas de Pigalle, o cotidiano opaco de um bordel gerido por sua avó paterna na Normandia e a poeira das caravanas circenses de seu pai, a menina descoberta por Louis Leplée em 1935 encontrou no canto o seu único instrumento de afirmação.

    Foi Leplée quem a tirou das ruas e a levou para o cabaré Le Gerny’s, na Champs-Elysées, batizando-a como "La Môme Piaf" —o pequeno pardal. Mais tarde, Piaf enfrentou perdas marcantes que moldaram sua sensibilidade artística, como a morte trágica do pugilista Marcel Cerdan, campeão mundial dos pesos-médios e o grande amor de sua vida, vítima de um acidente aéreo em 1949 nas Ilhas Açores quando viajava para encontrá-la em Nova York.

    Abalada emocionalmente pela perda de Cerdan e sofrendo de dores crônicas causadas por artrite reumatoide, a cantora recorreu ao abuso de álcool e ao uso contínuo de morfina.

    Espetáculo teatral 'Piaf, Eu não me arrependo', no Teatro Bradesco
    Espetáculo teatral 'Piaf, Eu não me arrependo', no Teatro Bradesco — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Contudo, a nova encenação faz questão de resgatar um aspecto menos explorado da artista, a sua dimensão política e sua autonomia em tempos de opressão. Durante a ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial , Piaf abrigou clandestinos em bordéis e colaborou com a fuga de prisioneiros de guerra para os quais se apresentava em acampamentos alemães, distribuindo documentos falsos e fotos para evasão.

    "A Piaf é uma figura muito política", analisa o diretor Sergio Módena. No texto da Pam Gems [dramaturga britânica cuja versão de 1978 foi montada no Brasil por Bibi Ferreira em 1982] isso é pouco citado e no cinema nem se fala. Mas boa parte do nosso espetáculo é dedicada a isso. São relatos de pessoas que viveram com ela. Piaf escondeu gente em casa e ajudou prisioneiros a fugir."

    "A dramaturgia não está interessada em fazer apenas uma narrativa informativa ou um biográfico factual sobre o que aconteceu em cada ano", complementa o encenador. Módena partiu dessa premissa para rejeitar uma estrutura cênica que fosse comportada ou estritamente linear. Em vez de uma sequência didática de fatos, o diretor estabeleceu como espaço de cena uma monumental estação de trem, metáfora para um território de passagens, encontros e memórias que reaparecem em cena.

    Sessão especial da peça 'Elis, a Musical'
    Sessão especial da peça 'Elis, a Musical' — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Ali, a trajetória de Piaf é orquestrada em um trânsito constante entre o drama, a comédia, a tragédia, a pantomima e o melodrama, sem concessões à fórmula fácil. A orquestra, sob a direção musical de Claudia Elizeu, abandona o isolamento do fosso tradicional e ganha o palco composta exclusivamente por mulheres.

    Nesse ambiente de constante tensão poética, Laila Garin assume a condução do espetáculo em um protagonismo absoluto. Garin projetou-se nacionalmente em 2013 ao encarnar Elis Regina em "Elis, A Musical".

    O trabalho lhe rendeu os prêmios Shell e APCA, consolidando sua reputação em montagens exigentes como "Gota d’Água A Seco", pela qual venceu os prêmios Cesgranrio, Bibi Ferreira e Reverência, e "A Hora da Estrela ou O Canto de Macabéa", além de trabalhos no audiovisual em séries como "3%" e "Dom".

    Mulher de cabelos curtos e castanhos segura uma rosa vermelha próxima ao rosto com os olhos fechados, vestindo blusa preta, em fundo preto.
    Mulher de cabelos curtos e castanhos segura uma rosa vermelha próxima ao rosto com os olhos fechados, vestindo blusa preta, em fundo preto. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Para interpretar a cantora francesa, o trabalho de preparação exigiu meses de dedicação rigorosa ao lado da fonoaudióloga Silvia Pinho e da professora de canto Amélia Gomes para reconfigurar a embocadura e alcançar a ressonância nasal característica do timbre francês.

    A atriz detalha que o volume de texto e a responsabilidade de conduzir a narrativa em primeira pessoa impuseram um ritmo intenso de ensaios —com jornadas diárias de até nove horas em um período de dois meses e meio.

    Para Laila, o apuro técnico do canto e da fala serve como extensão direta da presença física em cena. "No caso de Piaf, acho que a voz é o que mais existiu ali. É através da voz que ela diz o quanto não quer morrer e o quanto ama desesperadamente a vida."

    Mulher de cabelos cacheados curtos e maquiagem marcante veste vestido preto e levanta o braço direito à testa, com expressão de dor ou tristeza, em fundo preto.
    Mulher de cabelos cacheados curtos e maquiagem marcante veste vestido preto e levanta o braço direito à testa, com expressão de dor ou tristeza, em fundo preto. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O percurso coloca Garin inevitavelmente diante do rastro deixado por Bibi Ferreira (1922-2019), intérprete histórica de papéis célebres como Joana em "Gota d’Água" e da própria Piaf no cenário nacional. A atriz baiana, contudo, encara a referência sem sobressaltos ou comparações paralisantes. "Eu não tenho medo, me inspiro", afirma Garin sobre a referência de Bibi.

    Se há uma década o público descobria a extensão do trabalho da atriz ao vê-la no papel de Elis Regina, a montagem atual tem como ponto de partida uma relação de maturidade e cumplicidade já estabelecida com a plateia.

    Para a direção, a escolha da protagonista foi um passo intuitivo no desenvolvimento do projeto produzido pela Aventura, de Aniela Jordan, Luiz Calainho e Giulia Jordan. "A Laila estava talhada para fazer esse papel", pontua Módena. "Eu costumo dizer para ela: não fui eu quem te escolheu, foi a própria personagem. O que essa mulher faz nos ensaios todos os dias é algo impressionante. Para acompanhar essa força, me atentei em escolher um elenco que tivesse total domínio da palavra e do texto dramático, porque este é um espetáculo focado na densidade da cena", afirma o diretor.

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    Módena ressalta ainda o papel de Luiza Viana, alternante de Garin no papel principal: "É uma tarefa extremamente desafiadora, porque a protagonista praticamente não sai do palco. E a Luiza arrebenta fazendo também, garantindo o vigor do espetáculo em uma jornada tão exaustiva."

    A montagem evita suavizar os momentos difíceis da vida da cantora. Os problemas de saúde, o alcoolismo, o lúpus e a dependência de remédios surgem sem apelo sentimental, integrados à personalidade de uma mulher que retomou a carreira diversas vezes após colapsos físicos.

    Da mesma forma com que geria a própria trajetória e orientava novos talentos, Piaf manteve o controle das suas escolhas até os últimos dias na França, falecendo em outubro de 1963 acompanhada de seu último marido, Theo Sarapo. O espetáculo entrega o retrato de uma artista que encarou a solidão sem se resignar.

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em um cenário em que concessões e fórmulas comerciais ditam os rumos da criação teatral, a interpretação de Laila Garin resgata a dimensão de Édith Piaf como o testemunho de uma existência vivida sem pedir licença.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/08/laila-garin-encarna-edith-piaf-e-suas-contradicoes-em-novo-musical-biografico.shtml.

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    Laila Garin em 'Piaf, Eu Não Me Arrependo' - André Wanderley / Divulgação Musical · André Wanderley / — Foto: Folha de S.Paulo

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