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    Juízas enviam flores e carta a Cármen Lúcia por crise no STF: 'A senhora não está sozinha'

    Coletivos de juízas de tribunais de diferentes estados do país enviaram na manhã desta quarta (16) para a ministra do STF (Supremo Tribunal Federal) Cármen Lúcia 12 buquês de flores e uma carta de apoio pela atuação da magistrada na sessão inédita da corte que avaliaria a abertura de investigação contra Alexandre de Moraes no caso do Banco Master . Leia mais (09/16/2026 - 10h33)

    Folha de S.Paulo
    16 de setembro de 2026 às 13:33
    Juízas enviam flores e carta a Cármen Lúcia por crise no STF: 'A senhora não está sozinha'
    Mulher idosa com cabelos grisalhos e expressão séria sentada em cadeira de couro marrom, vestindo roupa formal branca com detalhes pretos, em ambiente institucional com microfone ao fundo. — Foto: Folha de S.Paulo

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    A ministra Cármen Lúcia na sessão do STF de 15 de setembro - Rosinei Coutinho /AFP · Rosinei Coutinho /AFP
    A ministra Cármen Lúcia na sessão do STF de 15 de setembro - Rosinei Coutinho /AFP · Rosinei Coutinho /AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Coletivos de juízas de tribunais de diferentes estados do país enviaram na manhã desta quarta (16) para a ministra do STF (Supremo Tribunal Federal) Cármen Lúcia 12 buquês de flores e uma carta de apoio pela atuação da magistrada na sessão inédita da corte que avaliaria a abertura de investigação contra Alexandre de Moraes no caso do Banco Master .

    No texto, elas afirmam que a ministra "não está sozinha".

    Última a votar, Cármen Lúcia pediu desculpas ao povo brasileiro e disse que estava em estado de "profunda consternação" e "tristeza" diante da crise no STF.

    Esta é Cármen Lúcia
    Esta é Cármen Lúcia — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Ouvimos ontem sua voz, sua tristeza, sua consternação. E ouvimos quando a senhora buscou em Clarice Lispector as palavras para traduzir um sentimento que talvez já não coubesse inteiramente nas palavras", afirma trecho da carta.

    O texto é assinado por 12 coletivos: Antígona TJPR, Candangas TJDFT, Catarina TJSC, EsperançaR TJRO, Sankofa TJSP TRF3, Nísia Floresta TJMT, Paraibanas TJPB, Teia Trt15, Movimento Nacional pela Paridade no Judiciário, Comitê de Incentivo à Participação Feminina do TJGO, Grupo Maria Firmina TJMA e Cotovia TJRN

    As juízas dizem que tiveram vontade de escrever a carta após ouvirem Cármen se questionar se poderia ter feito mais para a evitar a situação na corte.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Há uma diferença imensa entre sentir responsabilidade e transformar esse sentimento em culpa. Talvez nós, mulheres, conheçamos particularmente bem esse lugar: o de, diante de uma ruptura que não produzimos sozinhas, procurarmos primeiro dentro de nós aquilo que poderíamos ter feito diferente. O de nos perguntarmos se faltou alguma palavra, algum gesto, alguma tentativa a mais", afirmam.

    "Por isso, ministra, estas flores não chegam para lhe pedir explicações ou respostas. Chegam para lhe dizer, com carinho: não transforme em culpa pessoal a tristeza de quem ainda se importa profundamente", acrescentam.

    "Hoje, estas flores chegam de diferentes Tribunais, trazidas por mulheres que quiseram lhe dizer uma coisa muito simples: a senhora não está sozinha.

    Ouvimos ontem sua voz, sua tristeza, sua consternação. E ouvimos quando a senhora buscou em Clarice Lispector as palavras para traduzir um sentimento que talvez já não coubesse inteiramente nas palavras.

    Foi à Clarice de Mineirinho que a senhora recorreu — justamente a Clarice que se inquieta diante da Justiça e que, ao olhar para a dor do outro, também olha para dentro de si:

    'Eu não me perdi, mas experimentei a perdição.'

    Talvez tenha sido justamente nesse instante, quando a Ministra recorreu à literatura para conseguir falar, que muitas de nós enxergamos mais claramente a mulher.

    A mulher que existe antes da toga e para além dela.

    A menina de Minas que cresceu ouvindo da mãe que, para chegar ao mesmo lugar que os homens, as mulheres precisariam trabalhar mais.

    A filha que aprendeu com o pai o tamanho do compromisso de ser juíza.

    A mulher que trabalhou, estudou, persistiu e chegou a um lugar que, antes dela, pouquíssimas mulheres haviam alcançado.

    E talvez por conhecermos um pouco dessa história tenha nos tocado tanto ouvi-la pedir desculpas.

    A senhora se perguntou se poderia ter feito mais. Se poderia ter ajudado mais. Se poderia ter contribuído para devolver serenidade a um momento tão difícil.

    E foi então que sentimos vontade de lhe responder.

    Há uma diferença imensa entre sentir responsabilidade e transformar esse sentimento em culpa.

    Talvez nós, mulheres, conheçamos particularmente bem esse lugar: o de, diante de uma ruptura que não produzimos sozinhas, procurarmos primeiro dentro de nós aquilo que poderíamos ter feito diferente. O de nos perguntarmos se faltou alguma palavra, algum gesto, alguma tentativa a mais.

    Por isso, ministra, estas flores não chegam para lhe pedir explicações ou respostas.

    Chegam para lhe dizer, com carinho: não transforme em culpa pessoal a tristeza de quem ainda se importa profundamente.

    E nós voltamos a ela procurando alguma coisa que pudéssemos lhe devolver.

    Encontramos, em 'A Paixão Segundo G.H'.:

    'Estou tão assustada que só poderei aceitar que me perdi se imaginar que alguém me está dando a mão.'

    Talvez estas flores sejam exatamente isso.

    Mãos de mulheres que também vestem toga.

    Não nos cabe, nesta carta, falar de processos, votos ou divergências. Cabe-nos falar da mulher que, em meio a tudo isso, ainda se permitiu sentir.

    Mulheres de diferentes cidades, diferentes tribunais, diferentes histórias, que reconheceram ontem não apenas a Ministra do Supremo Tribunal Federal, mas uma mulher profundamente tocada pelo peso do lugar que ocupa.

    Mulheres que conhecem, cada uma à sua maneira, o peso de decidir. Que sabem o que é entrar em espaços onde, durante tanto tempo, quase todas as cadeiras foram ocupadas por homens. Que conhecem a cobrança de acertar, de resistir, de manter a serenidade e, tantas vezes, de parecer mais fortes do que realmente se sentem.

    Hoje, porém, não queremos lhe pedir força.

    A senhora já precisou ser forte muitas vezes.

    Não queremos que procure mais uma vez dentro de si aquilo que poderia ter feito.

    Talvez, por algumas horas, a senhora possa simplesmente deixar de ser a Ministra que precisa encontrar a palavra certa, a juíza que precisa solucionar, a mulher que sente que deveria ter conseguido fazer mais.

    A mulher que chegou tão longe e que, depois de tantos anos, ainda conserva algo que nenhuma toga deveria nos retirar: a capacidade de se importar, de se entristecer e de se comover.

    Talvez tenha sido exatamente isso que vimos ontem.

    E foi a essa humanidade que quisemos responder.

    Clarice precisou imaginar que alguém lhe dava a mão para conseguir atravessar a experiência que narrava.

    A senhora, ministra, não precisa imaginar.

    Por trás de cada uma destas flores existe uma mulher estendendo a mão.

    E, se ontem a senhora experimentou a perdição, hoje queremos apenas lhe lembrar que não precisa atravessá-la em solidão.

    Receba estas flores como aquilo que elas pretendem ser: presença.

    E receba, junto delas, o carinho e o abraço de mulheres que, de diferentes lugares do Brasil, quiseram chegar um pouco mais perto da senhora hoje.

    com DIEGO ALEJANDRO, JULLIA GOUVE IA e KARINA MATIAS

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2026/09/juizas-enviam-flores-e-carta-a-carmen-lucia-por-crise-no-stf-a-senhora-nao-esta-sozinha.shtml.

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    A ministra Cármen Lúcia na sessão do STF de 15 de setembro - Rosinei Coutinho /AFP · Rosinei Coutinho /AFP — Foto: Folha de S.Paulo

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