Brasil

    Judiciário precisa de mecanismos de responsabilização mais rigorosos

    Os fatos recentes evidenciados no caso Master colocaram em discussão a isenção do Poder Judiciário em julgamentos que envolvem seus membros e em como devem ser desenhados mecanismos de responsabilização para ilícitos perpetrados pelos guardiões da lei.

    UOL
    8 de setembro de 2026 às 03:00
    Judiciário precisa de mecanismos de responsabilização mais rigorosos
    Homem de cabelos escuros e barba curta veste camisa social branca, posando sentado contra fundo cinza neutro. — Foto: UOL

    Economista-chefe do Banco BoCom BBM e professora do departamento de economia da PUC-Rio

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master - Banco Master/Divulgação · Banco Master/Divulgação
    O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master - Banco Master/Divulgação · Banco Master/Divulgação — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Os fatos recentes evidenciados no caso Master colocaram em discussão a isenção do Poder Judiciário em julgamentos que envolvem seus membros e em como devem ser desenhados mecanismos de responsabilização para ilícitos perpetrados pelos guardiões da lei.

    Um argumento frequentemente utilizado para delegar ao Poder Judiciário um controle externo menos rigoroso se relaciona a um conjunto de garantias que conferem maior independência aos juízes , o que os tornaria imunes à influência econômica e política em suas decisões.

    No caso dos juízes da primeira instância, por exemplo, o ingresso se dá via concurso público e o cargo se torna vitalício após dois anos de estágio probatório, o que garante estabilidade quase absoluta na função.

    As obras de arte de Daniel Vorcaro nos EUA
    As obras de arte de Daniel Vorcaro nos EUA — Foto: UOL · Fonte: UOL

    O juiz não pode ser transferido de comarca contra sua vontade, nem exercer qualquer atividade remunerada além do ensino. A sua promoção ao longo da carreira depende de critérios próprios, sem interferência direta de políticos. Por fim, o salário está entre os mais altos do serviço público brasileiro.

    Assim, não seria preciso investigar ou punir ostensivamente porque as regras já conferem independência substancial aos juízes, tornando implausível qualquer tipo de interferência em suas decisões.

    Entretanto, mesmo para os juízes de primeira instância, há evidência de que a independência "de jure" não garante a independência "de facto", e de que o poder político continua influenciando as decisões dos juízes em favor deles.

    A ligação do STF com o Banco Master
    A ligação do STF com o Banco Master — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Um estudo recente sobre as ações de improbidade administrativa em tribunais estaduais e federais brasileiros mostra que o Judiciário confere alguma vantagem no julgamento dos candidatos a prefeito que são eleitos por uma margem estreita de votos frente aos não eleitos.

    O fato de a vitória se dar quase ao acaso fortalece o argumento de que os casos de improbidade considerados são igualmente relevantes. A taxa de condenação cai de 17% entre os que perdem para 6% entre os que vencem.

    O resultado sugere que, ainda que os prefeitos não tenham nenhum controle formal sobre os juízes, eles exercem alguma influência sobre o julgamento.

    Imagem da matéria
    Foto: UOL · Fonte: UOL

    Entre as explicações possíveis estão as trocas de favores entre os poderes e considerações de carreira. Os prefeitos podem favorecer o juiz através de contratos ou empregos para seus familiares.

    Além disso, os prefeitos estão politicamente conectados a governantes de esferas superiores, que determinam salários e orçamento do Poder Judiciário, além de indicar e nomear ministros para os tribunais superiores.

    Assim, uma reforma na governança do Judiciário precisa reconhecer que a autonomia formal não garante que as decisões sejam protegidas dos interesses políticos e econômicos, especialmente quando os incentivos permitem que a corrupção se dê por meio de troca de favores ou de formas disfarçadas de enriquecimento via parentes e familiares.

    No fundo, a corrupção obedece à mesma lógica de qualquer decisão econômica que pondera benefícios e custos. Expande-se onde o custo de ser descoberto e punido é baixo, ou quando os benefícios recebidos são altos.

    As discussões recentes sobre as relações entre magistrados, agentes privados e políticos deixam claro que casos de corrupção no Judiciário não são uma curiosidade acadêmica.

    Lá, como em qualquer outra esfera, a corrupção responde a incentivos.

    LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.

    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/cecilia-machado/2026/09/judiciario-precisa-de-mecanismos-de-responsabilizacao-mais-rigorosos.shtml.

    Imagem 1
    1 / 4

    O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master - Banco Master/Divulgação · Banco Master/Divulgação — Foto: UOL

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)