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    Jornalista ou blogueiro: será que tanto faz diante do STF?

    Na Folha , Elio Gaspari foi logo dando nome aos bois. Ainda em março, o colunista alertou : "Moraes autoriza busca em equipamentos de jornalista e ameaça proteção de fontes". Tratava da investigação contra Luís Pablo Conceição, autor de reportagem sobre suposto uso irregular de carro do Tribunal de Justiça do Maranhão pela família de Flávio Dino, ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) . Leia mais (08/15/2026 - 22h30)

    Folha de S.Paulo
    16 de agosto de 2026 às 01:30
    Jornalista ou blogueiro: será que tanto faz diante do STF?
    Ilustração mostra vários dispositivos, incluindo computador, tablet, smartphone, rádio e jornal, todos com ícones de cadeado. Os dispositivos estão atrás de barras verticais que simulam uma grade, simbolizando restrição ou bloqueio de acess — Foto: Folha de S.Paulo

    Jornalista e quadrinista, é ombudsman da Folha. Já foi secretária-assistente de Redação, editora de Diversidade e editora-adjunta de Especiais e Ilustrada

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    Ilustração de Carvall para coluna da Ombudsman de 16.ago.2026. - Carvall/Folhapress · Carvall/Folhapress
    Ilustração de Carvall para coluna da Ombudsman de 16.ago.2026. - Carvall/Folhapress · Carvall/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Na Folha , Elio Gaspari foi logo dando nome aos bois. Ainda em março, o colunista alertou : "Moraes autoriza busca em equipamentos de jornalista e ameaça proteção de fontes". Tratava da investigação contra Luís Pablo Conceição, autor de reportagem sobre suposto uso irregular de carro do Tribunal de Justiça do Maranhão pela família de Flávio Dino, ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) .

    Àquela altura, a Folha se referia a Luís Pablo, alvo do ministro Alexandre de Moraes, como "blogueiro", e o tratamento continuou sendo o preferido até meados da última semana. A exceção eram os editoriais , que já o chamavam de jornalista desde a eclosão do caso. Não parece ser novidade o caráter pejorativo de "blogueiro" nesse contexto, e a discreta desqualificação profissional poderia servir à ideia de que a garantia constitucional vale para uns casos e não para outros.

    A natureza jornalística do trabalho de Luís Pablo foi reconhecida por entidades de imprensa, que se manifestaram desde a primeira operação contra ele. Pode haver outras razões para que se questionem seus métodos e eventuais conexões, mas isso nunca foi motivo para cassar a qualificação de quem quer que seja.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Estão querendo me diminuir porque eu tenho um blog de notícias. Tenho meu registro como jornalista profissional", declarou Luís Pablo em entrevista ao Metrópoles na sexta (14). "Se jornalistas de Brasília e da grande imprensa vêm sofrendo isso, imagina um jornalista no Maranhão que tem um site independente."

    De acordo com sua apuração , depois da denúncia o STF teria enviado a solicitação formal do veículo oficial para o uso de Dino. O caso veio na esteira de uma trama mais intrincada e grave na política maranhense. Os processos estão em sigilo, mas, segundo Moraes , a segurança de Dino e de sua família foi colocada em risco por uma organização criminosa.

    Até aqui, porém, as ações tomadas contra o jornalista não podem deixar de suscitar preocupação. O sigilo da fonte, como já escreveram outros autores na última semana, não é privilégio, e sim uma peça-chave para o escrutínio do poder. A Constituição o garante no inciso XIV de seu artigo 5º (aquele do "todos são iguais perante a lei"), que deixa "assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional".

    Isso não impede nenhum jornalista de ser processado nem de ter de "provar a veracidade daquilo que relatou ­—a responsabilidade judicial pela publicação de uma informação ‘off-the-record’ é do jornal ou do jornalista, não da fonte", lembra o Manual da Redação da Folha . O papel do sigilo é tentar garantir o caminho da informação até quem possa entregá-la ao público.

    Foi isso que reconheceu o ministro Gilmar Mendes, em 2019, ao impedir investigação contra o jornalista Glenn Greenwald pelo material publicado no The Intercept Brasil que detonou a Vaza Jato.

    Entre quarta (12) e quinta (13), a Folha conseguiu redirecionar o tratamento dado a Luís Pablo. No dia seguinte à manchete do "blogueiro", a capa registrava: "Decisão de Moraes prejudica imprensa, afirma jornalista". Valia também no texto interno : "Jornalista alvo de inquérito de Moraes nega ter monitorado Dino no MA".

    Um aspecto destacado por Luís Pablo ainda carece de explicação. "Em março, eu fui acusado de estar monitorando o ministro. E agora foi revelado que eu recebi um material sobre isso. Ainda assim, buscam alternativas de condenação. Agora, eles querem dizer que eu recebi dinheiro para falar mal do ministro, e isso não faz o menor sentido", afirma o jornalista. "Eu procurei o gabinete do ministro Flávio Dino antes de publicar a reportagem. Quem persegue faz isso? Eu procurei a presidência do Tribunal de Justiça. Não me responderam. Apurei, vi que era um fato de interesse público e publiquei", afirma Luís Pablo ao Metrópoles.

    É perfeitamente possível questionar a qualidade dessas (e das nossas próprias) publicações, mas daí a negar-lhes de cara o caráter jornalístico vai uma distância grande.

    Vale lembrar que no Brasil cerca de 10% da população vivem nos chamados desertos de notícias. São municípios onde não há registro de veículo de comunicação local, segundo a definição do Atlas da Notícia , que faz um levantamento anual desde 2017 —o próximo deve sair em novembro. Outros 17% estão em quase desertos. Não é o caso de São Luís (MA), mas a atuação de Luís Pablo se insere numa realidade midiática mais atomizada.

    O deserto vem diminuindo justamente com a atuação pessoal nas plataformas online e em circunstâncias mais vulneráveis do que as de grandes veículos. "Embora o ato jornalístico seja um ato coletivo, ao modelo de informação tradicional está sendo adicionado um novo, baseado em indivíduos. E essas iniciativas individuais ajudam a povoar os desertos de notícias", afirma o coordenador-geral do Atlas da Notícia, Sérgio Lüdtke, para quem ainda há "questões a enfrentar" nesse campo.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/alexandra-moraes-ombudsman/2026/08/jornalista-ou-blogueiro-sera-que-tanto-faz-diante-do-stf.shtml.

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    Ilustração de Carvall para coluna da Ombudsman de 16.ago.2026. - Carvall/Folhapress · Carvall/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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