Jason Arday foi vítima do sistema que o incensou
Em 2023, Jason Arday, inglês filho de imigrantes de Gana, se tornou o mais jovem "full professor" negro na Universidade de Cambridge. Ele tinha 37 anos. Três anos depois, ele deixaria o cargo em meio a um furor de acusações -na imprensa e nas redes- de plágio e mentiras na biografia. Dias depois, foi encontrado morto ; provavelmente suicídio. Leia mais (08/17/2026 - 21h20)

Economista, mestre em filosofia pela USP
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Em 2023, Jason Arday, inglês filho de imigrantes de Gana, se tornou o mais jovem "full professor" negro na Universidade de Cambridge. Ele tinha 37 anos. Três anos depois, ele deixaria o cargo em meio a um furor de acusações —na imprensa e nas redes— de plágio e mentiras na biografia. Dias depois, foi encontrado morto ; provavelmente suicídio.
Segundo o próprio Arday, ao longo de sua vida ele sofreu com autismo, epilepsia, dislexia, atentados, tumor cerebral e câncer de testículo. Falou sua primeira palavra aos 11 anos e aprendeu a ler aos 18. Já ficou internado em coma e desenganado; perdeu toda a sua memória pouco antes da defesa do doutorado. Num dado momento de sua vida, correu 30 maratonas em 35 dias; várias delas com uma fratura na perna. Literalmente incrível.
Tudo isso deveria ter acendido alguns alertas. Assim como as alegações de plágio e fabricação de dados em sua tese de doutorado e artigos publicados. Mas nada impediu sua contratação, sua exposição entusiástica pela imprensa e sua defesa pela universidade. Qualquer suspeita, de professores ou jornalistas, tinha como resposta a acusação de racismo e o assédio judicial.

Até que as acusações se avolumaram, com fartas evidências, e não foi mais possível contê-las. A tempestade de artigos e posts nas redes foi brutal. Nessa hora, não duvido que racismo e capacitismo tenham tornado os ataques ainda mais violentos. Mas não foram, nem de longe, o fator principal nessa história.
O grau de achincalhamento público de Arday —mais um caso de linchamento virtual— foi diretamente proporcional ao incensamento público desmedido que ele recebera. Universidade e imprensa se uniram para ostentá-lo ao mundo, o que servia também, é claro, para certificar as virtudes progressistas que elas próprias demonstravam ao elevá-lo.
Fraude e mentiras não resumem quem Arday foi, nem como pessoa nem como profissional. Colegas relatam sua humildade alegre no trato com todos e sua paixão por ajudar os estudantes. Ele deixa dois filhos adolescentes.
Um homem com talentos e com problemas psicológicos, que poderia ter sido bem-sucedido em diversas áreas, mas que fez escolhas más e teve o azar de estar num sistema que premiou suas piores tendências em nome das causas da moda, dando-lhe um cargo e um destaque para o qual ele não era qualificado apenas por causa de sua identidade; e ajudando-o por anos a sustentar a mentira. Surfou uma onda que o afogou.
Em bolhas progressistas, mesmo no Brasil, a lição que se tem tirado dessa história é que Arday foi vítima do racismo. Fora delas essas acusações não colam mais tão fácil. O uso retórico do caso tem sido bem outro: o de mostrar que todo esforço de inclusão é fraudulento e feito apenas para ostentar virtude.
Depois do escândalo, a imprensa e a universidade seguirão; Arday, não. Haverá alguma autocrítica e mudança de conduta? A causa da inclusão se autossabota quando coloca critérios identitários acima da avaliação da qualidade do trabalho. É preciso recolocar qualidade e verdade no topo da escala de valores das instituições. O descrédito que a universidade e a imprensa plantaram e colheram num caso desses só não é pior do que a tragédia do fim precoce de uma vida.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/joel-pinheiro-da-fonseca/2026/08/jason-arday-foi-vitima-do-sistema-que-o-incensou.shtml.

O sociólogo Jason Arday durante evento na Universidade de Cambridge - University of Cambridge Facult · University of Cambridge Facult — Foto: Folha de S.Paulo
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