Jamaica pede a rei Charles que avalie pagamento de reparações pela escravidão
Governo britânico rejeita obrigação legal por passado colonial, enquanto campanha ganha apoio internacional

Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.
O governo da Jamaica pediu formalmente nesta segunda-feira (7) ao rei Charles 3º que avalie se o Reino Unido tem obrigação de pagar reparações financeiras pela escravidão . A ministra da Cultura, Olivia Grange, disse estar "encorajada" pelo envolvimento do Palácio de Buckingham no processo.

Grange lidera uma delegação jamaicana em Londres que apresentou uma petição pedindo que Charles encaminhe três questões sobre a escravidão transatlântica ao Comitê Judicial do Conselho Privado (JCPC, na sigla em inglês).
A Jamaica quer que o JCPC, última instância de apelação para os territórios britânicos ultramarinos e alguns países da Commonwealth, avalie se o transporte de africanos escravizados para a Jamaica e sua escravização foram algum dia legais e se o Reino Unido tem obrigação jurídica de oferecer reparações.
Charles — que continua sendo chefe de Estado da Jamaica, embora o país tenha tomado medidas para retirar o monarca desse papel — afirmou sentir "profunda tristeza" pela escravidão em um discurso a líderes da Commonwealth, em 2022.

O Reino Unido, assim como outras antigas potências coloniais, rejeitou até agora os pedidos de reparação.
Grange, porém, disse ver sinais positivos na forma como o Palácio de Buckingham contribuiu para o processo de apresentação da petição jamaicana. "Não estamos nos antecipando ao processo, mas estamos encorajados", disse ela à Reuters pouco antes da apresentação formal da petição.
Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo

Um porta-voz do Palácio de Buckingham afirmou que Charles "em diversas ocasiões expressou seu compromisso pessoal e integral com a promoção de uma maior compreensão sobre a questão da escravidão e com a busca de formas de enfrentar injustiças históricas em benefício das comunidades atuais".
Um porta-voz do primeiro-ministro Andy Burnham afirmou na segunda (7) que "o Reino Unido não paga e não pagará reparações", embora tenha reconhecido que o comércio transatlântico de escravizados foi "abominável".
Pelo menos 12,5 milhões de africano s foram sequestrados, transportados à força por navios europeus e vendidos como escravizados entre os séculos 15 e 19. Há décadas, defensores das reparações pedem medidas para enfrentar o legado da escravidão, como o subdesenvolvimento econômico e a desigualdade social.

"Há tantas coisas que tiveram um impacto negativo sobre a Jamaica como resultado da escravização de nossos ancestrais", disse Grange. "Consideramos importante que, daqui para frente, haja algum tipo de apoio que nos ajude a reconstruir de forma mais forte."
A petição jamaicana, apoiada pela Comunidade do Caribe (Caricom) e pelo presidente de Gana, John Dramani Mahama, foi apresentada depois de um comitê da ONU afirmar, no mês passado, que os países tinham obrigação jurídica de considerar reparações e adotar outras medidas relacionadas ao comércio transatlântico de escravizados para enfrentar seu legado duradouro.
Muitos líderes europeus, no entanto, se opuseram até mesmo à discussão sobre o tema, enquanto críticos argumentam que os Estados e instituições atuais não deveriam ser responsabilizados pela escravidão.
Também cresceu a reação contrária à ideia de reparações. Em abril, o partido populista de direita britânico Reform UK, liderado por Nigel Farage, propôs negar vistos a pessoas de países que reivindicam reparações, entre eles a Jamaica.
Grange, porém, afirmou que a campanha está ganhando força: "Há uma tendência global de maior apoio à justiça reparatória. Sempre haverá algumas reações negativas, mas continuamos focados".
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Semanalmente, os principais fatos do globo, explicados de forma leve e interessante
Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/09/jamaica-pede-a-rei-charles-que-avalie-pagamento-de-reparacoes-pela-escravidao.shtml.

Manifestante participa de ato em Kingston, na Jamaica, em 2022, para exigir que o Reino Unido pague reparações pela escravidão - Gilbert Bellamy -22.mar.22/Reuters · Gilbert Bellamy -22.mar.22/Reuters — Foto: UOL
Compartilhe
Espalhe essa notícia

