Ironia de Machado de Assis explica disputa eleitoral
"Ao vencedor, as batatas". A célebre ironia de Machado de Assis define com precisão a atual guerra de liminares e o vale-tudo dos candidatos na corrida à Presidência da República. Leia mais (10/14/2026 - 17h00)

Jornalista e escritor, é autor de "Carolina, uma Biografia" e do romance "Toda Fúria"
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"Ao vencedor, as batatas". A célebre ironia de Machado de Assis define com precisão a atual guerra de liminares e o vale-tudo dos candidatos na corrida à Presidência da República.
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A pouco mais de dez dias para o segundo turno, o Brasil assiste de camarote a um dos momentos mais acirrados de sua história política. A disputa pelo Palácio do Planalto opõe o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL), que tenta assegurar a continuidade do projeto iniciado por seu pai, Jair, de 2019 a 2022.

Em meio à intensa troca de acusações, duas dinâmicas sintetizam as contradições deste desfecho: a retórica de "redemocratização" do país e a explosiva judicialização que tensiona as regras do jogo .
Causa profundo estranhamento a declaração recente de Flávio sobre a necessidade de alterar a Constituição para "redemocratizar o país". O candidato do PL parece ignorar, de forma ardilosa, o paradoxo contido em sua própria fala: o pai está preso exatamente por ter tentado romper a ordem democrática, não aceitando os resultados das eleições em que saiu derrotado. Além disso, se o Brasil não vivesse sob plena democracia, o rito eleitoral nem sequer existiria, e ele próprio estaria impedido de concorrer ao cargo máximo da República.
Essa obsessão por refundar a ordem institucional não é inédita entre nós. O argumento remete diretamente ao governo de Floriano Peixoto (1891-1894), que assumiu o poder com a renúncia de Deodoro da Fonseca. Diante das contestações legais sobre a necessidade de novas eleições imediatas, o Marechal de Ferro ignorou o texto constitucional da época e utilizou o pretexto de "salvar a República" e consolidar o regime para centralizar o poder. O candidato do PL parece empunhar o espadim da retórica de salvação nacional, embora, no fundo, sua fala sirva, muitas vezes, para contornar freios e contrapesos.

O que se vê nas ruas é um cenário de alta rejeição recíproca. Embora a oposição tente capitalizar o antilulismo como motor absoluto, enfrenta a resistência de parcelas expressivas da população que rebatem seus discursos. O pragmatismo econômico esbarra nos limites de uma campanha que prioriza o confronto moral e o revisionismo histórico sob os efeitos da polarização.
Enquanto o palanque flerta com a reescrita conceitual da democracia, a realidade da disputa é ditada pelos tribunais. A recente guerra de liminares no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) expõe o nível de conflagração. O presidente da corte, ministro Kassio Nunes Marques, atendeu ao pedido do PL e suspendeu o canal "Exército do Lula" no WhatsApp, alegando desinformação. Horas depois, o corregedor-geral eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, derrubou a decisão por falta de provas técnicas e risco de censura prévia.
Esse vaivém jurídico evidencia que a corte eleitoral também tem suas tensões internas. Kassio, ao tomar decisões que flertam com a parcialidade, comporta-se quase como cabo eleitoral do candidato da oposição, ferindo os princípios da magistratura. Ao proibir temporariamente o canal de apoio ao atual chefe de governo, a corte faz com que o pleito deixe de se decidir apenas no voto, passando pela tentativa de asfixia do adversário.
A fúria regulatória e os conflitos de interesse revelam que o Brasil grita pela estabilidade de suas instituições. Utilizar a exceção para justificar a regra é o caminho mais curto para reviver velhos fantasmas autoritários.
Neste ponto, a frase de Machado de Assis, proferida por Quincas Borba, é lapidar e enigmática: ao vencido, "ódio ou compaixão"; ao vencedor, "as batatas". E ponto final.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/tom-farias/2026/10/ironia-de-machado-de-assis-explica-disputa-eleitoral.shtml.

Montagem mostra Lula e Flávio Bolsonaro durante campanha eleitoral - Bruno Santos e Douglas Shineidr/Folhapress e AFP · Bruno Santos e Douglas Shineidr/Folhapress e AFP — Foto: Folha de S.Paulo
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