Iphan tem o desafio de garantir metrô com preservação de terreiro histórico no Bixiga
VÁRIOS AUTORES (nomes ao final do texto) Leia mais (08/19/2026 - 12h25)

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Às vésperas de completar 90 anos de fundação, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) tem o desafio de consolidar os esforços coletivos das últimas décadas para ressignificação do patrimônio histórico-cultural do país. Preservar, para que seja incorporado à arquitetura da futura estação de metrô no bairro do Bixiga, o casario revelado no Sítio Arqueológico Saracura Vai-Vai e apontado pela equipe de arqueologia como o que pode ser o terreiro mais antigo da cidade de São Paulo .
A descoberta abre amplo caminho para pesquisas e reconhecimento do patrimônio afro-diaspórico no país, e a oportunidade de aliar preservação e mobilidade urbana. Combinação possível e em funcionamento em países como Grécia, Itália ou México.

Desde o início deste processo, na primeira etapa de escavação e resgate arqueológico, além de casas e objetos de uso cotidiano, diversos conjuntos religiosos expressivos já foram encontrados e ganharam destaque na mídia: assentamentos, um fio de contas preservado e ferramentas associadas pelas equipes de campo a divindades religiosas, tais como Exu, Ogum, Iroko, Ibejis e Oxaguian.
Graças à mobilização popular, em 28 de fevereiro de 2025, o Iphan determinou a preservação (desmontagem e remontagem) de parte desses imóveis, já interpretadas consensualmente como espaço de cultos afrodiaspóricos por oito autoridades religiosas de diferentes vertentes em visita ao sítio.
Agora, confirmando o alerta dado pelo Mobiliza Saracura Vai-Vai , sacerdotisas e sacerdotes, em nova etapa de escavação, a continuidade daqueles imóveis se revelou com achados ainda mais contundentes. O novo conjunto construtivo foi reconhecido em relatório de antropóloga especialista contratada pela empresa de arqueologia como o fundamento de um terreiro.

Os achados religiosos estão fixados ao solo e associados diretamente a determinados cômodos, portanto indissociáveis do conjunto construtivo, que apresenta interesse sem precedentes. Cabe ao Iphan, portanto, a tarefa de garantir a preservação integral do novo casario encontrado.
Além da relevância cultural, essas edificações podem revelar também como viviam as pessoas que, no mínimo desde o século 19, se aquilombaram às margens do córrego, cultivando laços de sociabilidade, costumes, práticas e modos de vida, em um território de matriz africana que diz respeito não só à história de São Paulo mas do país, e sobre direitos de um povo, para além da religiosidade.
Esse conjunto poderá ser exposto ao público na primeira estação de metrô musealizada no Brasil com uma arqueologia de grande porte, reconhecendo seu patrimônio histórico, fazendo ver as construções de seus antepassados, e contribuindo para pensar as urgências da cidade atual. Entre elas, a permanência da população negra nas áreas centrais, como o Bixiga, e da quase centenária escola de samba Vai-Vai no chão onde nasceu, a Bela Vista.

Raquel Rolnik Professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e coordenadora do LabCidade
Iyalodê Marisa d'Oyá Sacerdotisa do Ilê Asé Oyá Siná
Luciana Araújo Jornalista, yawô de Yemanjá e filha da Yalodê Marisa d'Oyá

José Adão de Oliveira Educador e cofundador do Movimento Negro Unificado (MNU)
Victor Próspero Professor da FAU-USP TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/08/iphan-tem-o-desafio-de-garantir-metro-com-preservacao-de-terreiro-historico-no-bixiga.shtml.

Funcionários da Linha Uni fazem escavação manual na área 4, a última com vestígios arqueológicos a ser liberadas para obras da futura estação da linha 6-laranja do metrô - Linha Uni · Linha Uni — Foto: Folha de S.Paulo
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