IPCA + 7% em reais ou CPI + 3% em dólar; o que é melhor?
Imagine que você tenha de escolher hoje entre duas aplicações para os próximos 20 anos. A primeira rende IPCA mais 7% ao ano. A segunda paga CPI, a inflação americana, mais 3% ao ano, em dólares. Qual delas você escolheria? Leia mais (08/11/2026 - 18h00)

Michael Viriato escreve sobre como cuidar do seu dinheiro, poupar e planejar o futuro
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Imagine que você tenha de escolher hoje entre duas aplicações para os próximos 20 anos. A primeira rende IPCA mais 7% ao ano. A segunda paga CPI, a inflação americana, mais 3% ao ano, em dólares. Qual delas você escolheria?
À primeira vista, a segunda alternativa tem uma vantagem que parece poderosa: além dos juros e da inflação americana, o investidor brasileiro ainda ganha com uma eventual valorização do dólar . Soma-se isso o fato de esse juro real americano atual ser o maior dos últimos 20 anos. Entretanto, a decisão não é tão simples como comparar 7% com 3% ao ano.
Parte da valorização esperada do dólar pode simplesmente compensar a diferença entre as inflações dos dois países. Se os preços subirem 4% ao ano no Brasil e 2% nos Estados Unidos, por exemplo, seria razoável esperar que, no longo prazo, parte dessa diferença aparecesse na desvalorização do real.
Essa é a lógica da paridade do poder de compra. Embora essa paridade esteja longe de funcionar perfeitamente, principalmente em períodos curtos, ela oferece uma referência útil para uma comparação de 20 anos.
Se o câmbio apenas compensasse a diferença entre IPCA e CPI, a disputa entre nossos dois investimentos voltaria essencialmente ao ponto de partida: 7% de juro real no Brasil contra 3% nos Estados Unidos.
E quatro pontos percentuais fazem uma diferença enorme quando se acumulam durante duas décadas. Por exemplo, desconsiderando-se a inflação, R$ 100 aplicados a 7% ao ano se transformariam em aproximadamente R$ 387 após 20 anos.
Crescendo 3% ao ano, chegariam a apenas R$ 181. Ou seja, o primeiro investimento produziria mais que o dobro do patrimônio real do segundo.
Então, quanto o dólar precisaria ajudar para eliminar essa diferença?
Mesmo depois de compensar integralmente a maior inflação brasileira, ele ainda precisaria se valorizar outros 3,9% ao ano, em termos reais, frente ao real. A conta vem da relação entre 7% e 3%: ao longo de 20 anos, esse efeito cambial adicional precisaria multiplicar por cerca de 2,14 vezes o valor do investimento americano.
É uma exigência bastante relevante. Para termos uma referência, há 20 anos o dólar valia pouco mais de R$ 2. Hoje está ao redor de R$ 5. Parece uma valorização extraordinária e, nominalmente, foi.
Mas não podemos esquecer que, durante esse mesmo período, a inflação brasileira também foi maior que a americana. Parte da alta do dólar simplesmente compensou essa diferença.
Essa talvez seja a principal armadilha dessa comparação. Quando alguém observa que o dólar mais que dobrou em 20 anos, pode concluir que essa valorização deve ser acrescentada integralmente ao retorno do investimento americano. Não deve. O que interessa é quanto o dólar valorizou além da diferença de inflação entre os dois países.
Isso também permite olhar para os próximos 20 anos de outra forma. Não precisamos adivinhar qual será a cotação do dólar em 2046. Basta perguntar se acreditamos que o real se depreciará não apenas o suficiente para compensar nossa inflação maior, mas quase 4% ao ano além disso.
Por exemplo, se estimarmos a inflação brasileira para os próximos 20 anos em 5% ao ano e a americana em 2,5% ao ano. O real precisaria se desvalorizar uma média de 6,5% ao ano só para equilibrar as duas aplicações.
Pode acontecer. O câmbio é influenciado por produtividade, situação fiscal, fluxos de capitais, termos de troca, risco político e inúmeras outras variáveis. Por isso, a paridade do poder de compra não é uma lei capaz de prever a cotação futura de uma moeda.
Da mesma forma, nada disso significa que investir nos Estados Unidos seja uma decisão ruim. Manter patrimônio em dólares pode reduzir a concentração no Brasil, proteger despesas futuras em moeda estrangeira e diversificar riscos. Esses benefícios possuem valor.
Mas diversificação e expectativa de retorno são coisas diferentes. Escolher CPI mais 3% ao ano em vez de IPCA mais 7% a.a. significa aceitar uma diferença muito relevante de juros reais e contar com o câmbio para compensar pelo menos parte dela. Isso pode fazer sentido dentro de uma carteira diversificada, mas precisa ser uma decisão consciente.
Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor .
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/blogs/de-grao-em-grao/2026/08/ipca-7-em-reais-ou-cpi-3-em-dolar-o-que-e-melhor.shtml.

O dólar precisaria subir além do diferencial de inflação para compensar os juros menores nos Estados Unidos. - Jeenah Moon/Reuters · Jeenah Moon/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo
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