Brasil

    Investimento na maturidade requer ainda mais planejamento; saiba o que considerar

    Os brasileiros estão vivendo mais e precisam planejar por mais tempo como vão financiar essa etapa da vida. Para quem está perto da aposentadoria ou já deixou o mercado de trabalho, diversificar as fontes de renda pode ajudar a reduzir o risco de depender de uma única fonte em meio à longevidade. Leia mais (08/09/2026 - 11h00)

    Folha de S.Paulo
    9 de agosto de 2026 às 14:00
    Investimento na maturidade requer ainda mais planejamento; saiba o que considerar
    Mulher idosa com cabelo grisalho e roupa branca sentada à mesa de madeira, apoiando a cabeça na mão direita e sorrindo. Ela está lendo um livro aberto sobre a mesa em uma sala com decoração simples, incluindo quadros na parede e móveis ao f — Foto: Folha de S.Paulo

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Os brasileiros estão vivendo mais e precisam planejar por mais tempo como vão financiar essa etapa da vida. Para quem está perto da aposentadoria ou já deixou o mercado de trabalho, diversificar as fontes de renda pode ajudar a reduzir o risco de depender de uma única fonte em meio à longevidade.

    A aposentada Neide Saraceni Hahn, 82, que trabalhou para o Estado de São Paulo por 40 anos e hoje recebe uma previdência complementar de R$ 20 mil pela Prevcom, além da aposentadoria do INSS - Zanone Fraissat/Folhapress · Zanone Fraissat/Fo
    A aposentada Neide Saraceni Hahn, 82, que trabalhou para o Estado de São Paulo por 40 anos e hoje recebe uma previdência complementar de R$ 20 mil pela Prevcom, além da aposentadoria do INSS - Zanone Fraissat/Folhapress · Zanone Fraissat/Fo — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A escolha depende de fatores como idade, patrimônio, renda esperada, necessidade de liquidez, tolerância a risco e objetivo —que pode ser complementar a aposentadoria, preservar o patrimônio ou deixá-lo para os herdeiros.

    Especialistas ouvidos pela Folha afirmam que a escolha do investimento deve ser a última etapa do planejamento. Antes de decidir entre renda fixa, ações, imóveis, previdência privada ou outras aplicações, é preciso calcular quanto será necessário para manter o padrão de vida e quanto da renda deverá vir de cada fonte.

    O estudo Tsunami Prateado, realizado pela data8, empresa especializada em pesquisas para o público 50+, mostra que a participação de investimentos financeiros na composição da renda dos brasileiros a partir dos 50 anos saltou de 3% para 16% em cinco anos.

    Ex-funcionária do Governo do Estado de São Paulo manteve a renda na aposentadoria com previdência complementar
    Ex-funcionária do Governo do Estado de São Paulo manteve a renda na aposentadoria com previdência complementar — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A previdência privada quadruplicou, passando de 3% para 12%, enquanto a renda proveniente de imóveis cresceu de 8% para 13%. Ao mesmo tempo, o salário fixo e a aposentadoria seguem relevantes, indicando um modelo de renda mais distribuído e menos dependente de uma única fonte.

    "A aposentadoria deixa de ser o eixo central e passa a operar como uma camada dentro de um portfólio mais amplo de renda. O que se observa é a combinação de diferentes fontes, em resposta tanto ao aumento da longevidade quanto às pressões financeiras dessa fase da vida", afirma Lívia Hollerbach, coordenadora da pesquisa.

    Apesar da maior diversificação, o cenário ainda é de dificuldade para uma parcela significativa dos brasileiros. Dados do INSS mostram que 70% dos aposentados têm renda de até dois salários mínimos, o equivalente a R$ 3.242 neste ano. Mais da metade dos brasileiros com 50 anos ou mais afirma não poder parar de trabalhar, e 27% dizem se sentir excluídos do mercado de trabalho.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Para a planejadora financeira Nayra Sombra, da Planejar, o primeiro passo é entender quanto será necessário para manter a qualidade de vida no futuro. "O investimento é uma ferramenta. Antes eu tenho todo um passo a passo", afirma.

    O cálculo deve partir do custo de vida atual e de uma projeção das despesas futuras. Na aposentadoria, gastos com saúde tendem a ganhar peso, enquanto despesas com filhos podem diminuir. Moradia, condomínio e lazer também precisam entrar na conta.

    Nayra estima que um plano de saúde considerado bom possa custar cerca de R$ 4.000 por mês, enquanto opções mais simples podem ficar em torno de R$ 1.000.

    Ilustração para Economia - Governo vai implantar sistema de chamadas verificadas contra fraudes telefônicas - Ferramenta será capaz de indicar se ligação partiu ou não de origem confiável
    Ilustração para Economia - Governo vai implantar sistema de chamadas verificadas contra fraudes telefônicas - Ferramenta será capaz de indicar se ligação partiu ou não de origem confiável — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A partir dessa projeção de gastos, o investidor deve estimar quanto terá de renda do INSS e quanto precisará complementar com patrimônio próprio acumulado ao longo da vida.

    O INSS, por exemplo, oferece um simulador de aposentadoria pelo Meu INSS. Segundo o planejador patrimonial Michael Viriato, sócio da Casa do Investidor e colunista da Folha , também é importante verificar o histórico de contribuições para não deixar de considerar períodos de trabalho que possam gerar benefício.

    A longevidade é outra variável. Nayra recomenda considerar o histórico familiar e trabalhar com uma margem para evitar que o dinheiro acabe antes do investidor.

    "Se eu calcular que vou viver até 80 anos e viver até 90, vou ter dez anos de diferença. É melhor até estimar para mais", afirma.

    A aposentada Neide Saracene Hahn, 82, usou a previdência complementar para preservar sua renda após deixar o mercado de trabalho. Ex-servidora do Governo do Estado de São Paulo, ela fez contribuições mensais e aportes extras ao longo dos anos. Hoje, recebe aproximadamente R$ 20 mil mensais da previdência complementar, além de quase R$ 6.000 do INSS.

    "Se fosse só com o INSS, não tinha condição. Eu mantive a renda que eu tinha."

    Quanto mais cedo o planejamento começar, maior tende a ser o tempo disponível para formar patrimônio. Quem começa a investir mais jovem consegue distribuir os aportes por mais anos e aproveitar o efeito dos juros compostos. Já quem começa aos 50 ou 60 anos terá menos tempo para acumular e poderá precisar fazer aportes maiores.

    A fase da vida também influencia a estratégia. Quem ainda está acumulando patrimônio pode aceitar mais oscilações em busca de retorno, enquanto quem está próximo de precisar dos recursos tende a dar maior peso à preservação do capital e à liquidez.

    Para Viriato, o investidor costuma dar atenção excessiva ao produto e pouca ao planejamento. A escolha deve partir de parâmetros como prazo, retorno esperado, risco e necessidade de resgate.

    Uma simulação feita para a Folha mostra quanto seria necessário acumular até os 65 anos para obter uma renda complementar de R$ 2.000, R$ 3.000 ou R$ 5.000 mensais na aposentadoria.

    Considerando uma rentabilidade real de 5% ao ano, equivalente a IPCA (índice oficial da inflação) mais 5%, o patrimônio necessário varia conforme o período em que a renda será recebida.

    Para uma renda de R$ 2.000 por mês, por exemplo, seriam necessários cerca de R$ 190 mil para financiar dez anos de retiradas, valor que sobe para R$ 377 mil caso o dinheiro precise sustentar 30 anos. Os valores são o patrimônio necessário no início da aposentadoria e não incluem a renda do INSS.

    A carteira pode combinar diferentes alternativas. Renda fixa, como CDBs e títulos públicos, pode atender objetivos de menor risco e maior previsibilidade. Ações e outros ativos de renda variável podem ter espaço em horizontes mais longos, enquanto imóveis podem representar uma fonte de renda ou diversificação patrimonial.

    A previdência privada também pode fazer parte da estratégia, especialmente quando suas características tributárias ou sucessórias forem adequadas ao objetivo.

    Antes de buscar rentabilidade, também é importante proteger o orçamento atual. Nayra recomenda uma reserva de emergência equivalente a pelo menos seis meses do custo de vida para trabalhadores com carteira assinada e 12 meses para autônomos.

    Nesse dinheiro, segurança e facilidade de resgate devem ter prioridade sobre a rentabilidade.

    A planejadora afirma que a poupança, embora ainda seja muito usada pelos brasileiros, não é a melhor alternativa porque pode render menos que a inflação. Como alternativa, cita CDBs com liquidez diária que paguem pelo menos 100% do CDI e o Tesouro Selic .

    A previdência privada, portanto, pode ocupar uma parcela da carteira, mas não deve ser tratada como sinônimo de aposentadoria nem como solução única. O próprio nome do produto pode induzir a uma interpretação equivocada, segundo Viriato.

    Entre as modalidades de previdência complementar, o PGBL (Plano Gerador de Benefício Livre) permite deduzir as contribuições da base de cálculo do Imposto de Renda, dentro das regras do produto, mas o imposto incide sobre o valor total no resgate ou recebimento da renda.

    No VGBL (Vida Gerador de Benefício Livre), não há essa dedução, e o IR incide apenas sobre os rendimentos. A tributação regressiva, disponível nas duas modalidades, reduz a alíquota conforme o tempo de permanência e pode chegar a 10% somente após dez anos.

    "A previdência privada dá a ideia de que você está comprando a sua aposentadoria, mas não é verdade. Previdência é um fundo", disse.

    Devanir Silva, presidente da Abrapp (Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar), e João Mendes, diretor da Fenaprevi (Federação Nacional de Previdência Privada e Vida), defendem a previdência privada por ser um investimento seguro e para "desafogar" a Previdência Social, que vive desafios com o envelhecimento dos brasileiros e a mudança no perfil da sociedade.

    Entre os aspectos que podem tornar a previdência interessante estão as regras tributárias e o planejamento sucessório. Por outro lado, é preciso comparar taxas, rentabilidade, regime de tributação e liquidez com outras alternativas.

    A idade também muda o papel que o produto pode desempenhar. Para quem começa a acumular cedo, a previdência pode ser usada como uma das ferramentas para formar patrimônio ao longo de décadas. Para quem chega aos 60 anos sem recursos suficientes, o tempo reduzido torna mais difícil construir uma renda significativa apenas com novos aportes.

    "Você chegou aos 60, 'agora eu quero começar um plano', ele não servirá para complemento da renda, mas serve mais para a sucessão", afirma Viriato.

    A experiência de alguns aposentados mostra como diferentes estratégias podem funcionar quando há planejamento de longo prazo. O gestor financeiro Waldemar Casqueiro Junior, 63, mantém um plano de previdência há cerca de 25 anos e começou a receber a renda complementar em 2023.

    "Começar cedo e investir de forma consistente é um dos fatores mais importantes para alcançar segurança financeira no futuro", afirma.

    Waldemar afirma que investir não significa simplesmente aplicar o dinheiro e esquecer. Ele recomenda acompanhar o desempenho, verificar custos, avaliar a qualidade da gestão e revisar periodicamente se a estratégia continua alinhada aos objetivos pessoais.

    Para os especialistas, o mais importante é definir primeiro a renda necessária, considerar o tempo disponível para acumular patrimônio e, só então, escolher uma combinação de investimentos compatível com o objetivo e o perfil de risco.

    Este é o novo capítulo da série sobre Longevidade da Folha . As reportagens discutem o impacto do envelhecimento nas contas públicas, a pressão sobre o sistema de Previdência e as transformações no mercado de trabalho. Especialistas também abordam desafios e oportunidades para empresas de áreas como habitação, turismo e varejo, bem como reflexões sobre o que significa viver mais e melhor em meio ao aumento do custo de vida.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    De 2ª a 6ª pela manhã, receba o boletim gratuito com notícias e análises de economia

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/08/investimento-na-maturidade-requer-ainda-mais-planejamento-saiba-o-que-considerar.shtml.

    Imagem 1
    1 / 4

    A aposentada Neide Saraceni Hahn, 82, que trabalhou para o Estado de São Paulo por 40 anos e hoje recebe uma previdência complementar de R$ 20 mil pela Prevcom, além da aposentadoria do INSS - Zanone Fraissat/Folhapress · Zanone Fraissat/Fo — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)