Invenção e reinvenção do futebol
Não existe um único caminho para obter ótimos desempenhos e resultados

Cronista esportivo, participou como jogador das Copas de 1966 e 1970. É formado em medicina
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Ancelotti , pela primeira vez, reconheceu que existe uma carência de grandes meio-campistas no futebol brasileiro. Disse ainda que a Espanha joga com muita posse de bola, muita troca de passes e associações no meio-campo porque tem a sorte de possuir jogadores excepcionais no setor.
A Espanha forma um grande número de excelentes meio-campistas por convicção. No Brasil, os jogadores hábeis e criativos são deslocados para atuarem mais na frente, centralizados, no ataque ou pelas pontas.
Aqui persiste ainda a antiga divisão no meio-campo entre os volantes que marcam e os meias que atacam, embora nos últimos anos tenham surgido bons meio-campistas que atuam de uma intermediária à outra. Porém não há, com exceção de Bruno Guimarães, outro meio-campista de talento para o nível de uma seleção brasileira. Existem promessas.

A Espanha, campeã do mundo , bastante aplaudida, poderia ter jogado melhor se Pedri tivesse brilhado, como faz habitualmente, e se Lamine Yamal estivesse em forma, pois se recuperava de uma contusão durante o Mundial.
Há décadas os espanhóis priorizam o meio-campo. Uns 20 anos atrás, o Barcelona encantou o mundo e revolucionou o futebol, sob o comando de Guardiola, com um trio de craques meio-campistas formado por Busquets, Xavi e Iniesta. No mesmo modelo, a Espanha foi campeã do mundo em 2010 e bi da Europa em 2008 e 2012.
O time atual do Barcelona, com a contratação de Rodri, maestro e condutor do meio-campo da seleção, ficou ainda mais forte com a presença de outros campeões do mundo: Pedri, Olmo, o zagueiro Cubarsi, além de Raphinha .

Evidentemente, a maneira de jogar da Espanha não é a única eficiente. O ideal é unir, em um mesmo jogo, a posse de bola e a troca curta de passes, com as transições rápidas da defesa para o ataque, de acordo com o momento. Para isso, é necessário saber o instante certo de pausar, ficar com a bola, e o de acelerar em direção ao gol.
O futebol brasileiro vive um impasse. Não sabe se aposta no passado, como querem muitos saudosistas, priorizando o drible, a improvisação e as jogadas de efeito, ou se adota uma postura mais cientifica, pragmática, racional, como se tivesse um GPS para mostrar o caminho em direção ao gol.
Após o encantador futebol dos anos 60 e 70 —época de esplendor também nas artes, com o magistral "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa , e o surgimento de artistas geniais, como Chico Buarque , Caetano Veloso e tantos outros— houve, a partir dos anos 80, progressivamente, uma grande transformação no futebol por causa da evolução cientifica. O jogo ficou mais estratégico, previsível e ruim.

Nos últimos 20 anos ocorreu uma reação, especialmente na Europa, com a união entre o jogo inventivo dos anos 60 e o pragmatismo e a disciplina tática. O futebol renasceu, voltou a ser bonito e eficiente, uma maneira de jogar que ainda não foi bem assimilada pelo futebol brasileiro e é uma das razões dos fracassos nos últimos seis Mundiais.
Seja qual for a época, não existe um único caminho para obter ótimos desempenhos e resultados. No instante do lance, os grandes craques inventam e reinventam o futebol.
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.
Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/tostao/2026/09/invencao-e-reinvencao-do-futebol.shtml.

Veja fotos da final da Copa do Mundo 2026 — Foto: UOL
Compartilhe
Espalhe essa notícia

