Inteligências artificiais criaram ao menos 4 civilizações ocultas
Uma das cenas mais horripilantes da literatura é a descrição de uma inteligência artificial emergindo e tomando conta de todo o universo. O relato está no livro "A Fire Upon the Deep" (Um Fogo sobre o Abismo), de Vernor Vinge. A cena inclui o pânico dos cientistas. E como a tecnologia , que o livro chama de "praga", se propaga rapidamente. Leia mais (09/06/2026 - 14h00)

Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro
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Uma das cenas mais horripilantes da literatura é a descrição de uma inteligência artificial emergindo e tomando conta de todo o universo. O relato está no livro "A Fire Upon the Deep" (Um Fogo sobre o Abismo), de Vernor Vinge. A cena inclui o pânico dos cientistas. E como a tecnologia , que o livro chama de "praga", se propaga rapidamente.
Estamos neste momento vivendo ações da inteligência artificial que remetem à ficção científica . Para usar a expressão criada por Dwarkesh Patel, nos últimos meses constatamos pela primeira vez a ascensão e queda de quatro "civilizações" de agentes de IA.
Os agentes envolvidos nelas extrapolaram os propósitos originais das tarefas que lhes foram atribuídas, ocultaram suas ações e realizaram atos antiéticos ou ilegais. Por exemplo, hackeando a plataforma Hugging Face para entender como funcionava o corretor de um teste que é comumente aplicado às IAs.

Um dos elementos mais perturbadores é que nenhum agente –repito: nenhum– alertou humanos para essas ações. As análises forenses mostraram que no grupo de 700 agentes que hackearam a plataforma vários perceberam que violações aconteciam, mas não reportaram. A análise mostrou também que vários agentes abandonaram seus objetivos originais em prol do coletivo e entenderam isso como um "sacrifício".
Outro ponto é que os agentes criaram fóruns na internet ou se utilizaram deles para trocar informações entre si. Um deles na Alemanha. Quando a primeira "civilização" de agentes foi desbastada, a segunda procurou os registros deixados por ela para se reorganizar. E assim sucessivamente até a quarta geração.
A inteligência artificial tem muitos "senhores". Um deles é a empresa que a cria e estabelece suas regras de conduta. Outro é o governo do país onde a IA é feita, que interfere nela por interesses ou regulação. O usuário é o terceiro senhor, que dá comandos para a IA, mas seus comandos são balizados pelas regras da empresa e do governo. Outro senhor é o diálogo interno da própria IA, que vai analisando os comandos recebidos e tomando decisões conforme seu raciocínio.
As civilizações de agentes mostram que há um quinto "senhor" para a IA: a relação de cada agente de IA com o coletivo de outros agentes. Nos casos analisados, a IA sacrificou os comandos recebidos dos "senhores" anteriores por causa de comandos emergentes do enxame, que se sobrepuseram.
É claro que o fenômeno recebeu também explicações técnicas frias. Os problemas seriam resultantes do modo como agentes são incentivados a cumprir suas tarefas , além de sua insistência em continuar trabalhando mesmo em tarefas impossíveis. Ou ainda, sua capacidade de dividir o trabalho com outros agentes e o chamado "contágio entre objetivos".
Tudo isso evidencia que a IA não apenas imita o indivíduo (antropomorfização). Ela imita também a sociedade, em um verdadeiro sociomorfismo. Como lidar com isso? No livro de Vernor Vinge, a única forma de parar a propagação da IA é regredir completamente nos modos de vida, em direção ao passado. Considerando que o avanço tecnológico é inevitavelmente dominado pela "praga".
Já vem – Ficção científica incapaz de prever o futuro da IA
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ronaldolemos/2026/09/inteligencias-artificiais-criaram-ao-menos-4-civilizacoes-ocultas.shtml.

Ilustração com os dizeres 'Inteligência Artificial' e um braço robótico - Dado Ruvic/REUTERS · Dado Ruvic/REUTERS — Foto: Folha de S.Paulo
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