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    Inteligência artificial já é usada na maioria das escolas de ensino médio, mas país engatinha em regulação e governança

    Mais da metade das escolas de ensino médio brasileiras já permite o uso de inteligência artificial generativa pelos estudantes, mas apenas 22% têm diretrizes formalizadas de boas práticas para orientar essa adoção, segundo os dados da pesquisa TIC Educação 2025, divulgada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br). O reflexo dessa adoção já mobiliza discussões internas; o mesmo levantamento aponta que 8 em cada 10 escolas brasileiras debatem formalmente os impactos do uso de telas e tecnologias na saúde mental e no comportamento dos alunos. Lei

    Folha de S.Paulo
    17 de setembro de 2026 às 02:00
    Inteligência artificial já é usada na maioria das escolas de ensino médio, mas país engatinha em regulação e governança
    Foto: Folha de S.Paulo

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    Mais da metade das escolas de ensino médio brasileiras já permite o uso de inteligência artificial generativa pelos estudantes, mas apenas 22% têm diretrizes formalizadas de boas práticas para orientar essa adoção, segundo os dados da pesquisa TIC Educação 2025, divulgada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br). O reflexo dessa adoção já mobiliza discussões internas; o mesmo levantamento aponta que 8 em cada 10 escolas brasileiras debatem formalmente os impactos do uso de telas e tecnologias na saúde mental e no comportamento dos alunos.

    Ilustração criada por Fido Nesti para reportagem sobre IA nas escolas - Fido Nesti · Fido Nesti
    Ilustração criada por Fido Nesti para reportagem sobre IA nas escolas - Fido Nesti · Fido Nesti — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Tatiana Laganá, pesquisadora do Transformative Learning Technologies Lab (TLTL) da Universidade de Columbia (EUA), adverte que escolas com boa infraestrutura tecnológica e ausência de diretrizes claras sobre IA podem cair mais facilmente em uma armadilha de adoção acelerada e desordenada. Também defende que o letramento digital precisa ocorrer inclusive sem o uso direto das máquinas.

    O desafio central, diz ela, é combater o descarregamento cognitivo, fenômeno em que o estudante delega à máquina toda a operação intelectual, abdicando do esforço crítico e da autoria.

    Na prática, o uso da IA é bastante desigual entre os alunos. Aluna do 7º ano do Colégio Magno/Mágico de Oz, em São Paulo, Maria Fernanda Simão, 12, relata que o uso orientado de ferramentas como o NotebookLM, nas quais as respostas se limitam estritamente aos materiais e livros selecionados pelos professores, agiliza os estudos em casa. "Ajudou bastante na praticidade para tirar dúvidas, mas a gente precisa saber dar o comando certo para a máquina não trazer dados inventados", aponta.

    Escolha a Escola: conheça tendências e desafios da educação no Brasil
    Escolha a Escola: conheça tendências e desafios da educação no Brasil — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Por outro lado, sua colega de classe Maria Fernanda, Laura Queiroz, 12, diz preferir manter distância dos chatbots para preservar o aprendizado. "Se eu só receber a informação pronta na hora, não consigo aprender. Prefiro o caminho mais longo, com livros e materiais didáticos para realmente entender a matéria, e não só decorar", afirma, reforçando que o uso incorreto por parte de alguns colegas apenas como atalho de tarefa de casa acaba gerando dependência e dificuldade de compreensão.

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    Nas aulas de espanhol da professora Gisele Costa, coordenadora de full-time (período integral) da instituição, manuais de gramática e regras de conjugação foram integrados às provas de consulta para deslocar o eixo da memorização. "Não adianta cobrar se o aluno sabe a informação de cor se ela está na mão dele. O que cobramos agora é a capacidade de análise crítica das fontes e a justificativa do raciocínio", resume.

    Professor de costas escreve em quadro digital com símbolo 'IA'. Dois alunos sentados em carteiras usam laptops conectados ao quadro por cabos.
    Professor de costas escreve em quadro digital com símbolo 'IA'. Dois alunos sentados em carteiras usam laptops conectados ao quadro por cabos. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    No Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, situado na capital paulista, a discussão foi levada aos cursos técnicos e regulares para desmontar a ilusão de neutralidade tecnológica. O professor Lucas Chao, coordenador do curso técnico integrado ao ensino médio em desenvolvimento de sistemas e docente de Inteligência artificial da instituição, destaca que o colégio aposta em comandos guiados para ensinar os alunos a identificar vieses algorítmicos em textos e imagens. "A tecnologia não é neutra; o estudante precisa entender que o caminho mais longo da análise crítica é o único que garante a autonomia intelectual frente ao resultado pronto", diz.

    Na busca por controle institucional, o Centro Educacional Pioneiro, localizado na Vila Clementino, optou por afastar os estudantes do ensino fundamental de ferramentas de IA tipo caixa-preta, que não explicam como chegaram à resposta.

    A coordenadora de tecnologias educacionais da instituição, Débora Sebrian, explica que a escola desenvolveu um ambiente protegido integrado via API, no qual os alunos interagem com modelos pré-treinados para criar roteiros de jogos digitais baseados em leituras literárias. "Toda a trajetória de perguntas fica visível para o corpo docente, permitindo uma mediação individualizada e garantindo que o estudante conheça as fontes antes de confrontá-las com a máquina."

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A adoção indiscriminada de plataformas comerciais estrangeiras acende ainda um alerta sobre a soberania de dados. Para Tatiana Laganá, o envio de dados sensíveis e até imagens de menores de idade para servidores localizados no exterior fere a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e o ECA Digital.

    "A ânsia das escolas por adotar a tecnologia acaba atropelando a proteção legal e transformando alunos em matéria-prima para o treinamento desses modelos fora do país", adverte. Segundo ela, o Brasil tem potencial tecnológico para desenvolver modelos próprios de linguagem com representatividade nacional, a exemplo de iniciativas de mercado como a startup brasileira Maritaca AI e de projetos de soberania digital no país.

    O avanço desse debate encontrou eco nas instâncias normativas. Em 1º de setembro de 2026, o Conselho Nacional de Educação (CNE) homologou as novas diretrizes curriculares para o uso de inteligência artificial na educação básica. O documento estabelece uma matriz rigorosa de riscos e sela vedações classificadas como de alto impacto: proíbe o uso autônomo e sem mediação para crianças da educação infantil e dos anos iniciais do fundamental, bane a correção automatizada de redações e impõe restrições severas ao perfilamento comportamental de estudantes.

    logo do produto folha de redação
    logo do produto folha de redação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Para as redes de ensino, o regramento federal cumpre um papel estrutural decisivo contra a desigualdade. Para Laganá, são necessárias diretrizes governamentais firmes para impedir que o abismo tecnológico entre instituições públicas e particulares se amplie ainda mais na corrida digital. Enquanto as escolas buscam se adequar às novas normas, o consenso entre professores, pesquisadores e estudantes aponta que a tecnologia veio para ficar, mas a preservação da capacidade humana de duvidar continua sendo a principal salvaguarda da sala de aula.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2026/09/inteligencia-artificial-ja-e-usada-na-maioria-das-escolas-de-ensino-medio-mas-pais-engatinha-em-regulacao-e-governanca.shtml.

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    Ilustração criada por Fido Nesti para reportagem sobre IA nas escolas - Fido Nesti · Fido Nesti — Foto: Folha de S.Paulo

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