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    Inglaterra reconhece misoginia médica como falha estrutural do sistema de saúde

    Documento do governo sobre políticas para mulheres diz que dor feminina é normalizada e pouco investigada

    UOL
    25 de agosto de 2026 às 08:00
    Inglaterra reconhece misoginia médica como falha estrutural do sistema de saúde
    Mulher sentada na beira da cama em quarto de hospital, vestindo roupa hospitalar branca com padrão quadriculado, ajustando tubo de soro conectado ao braço. Ambiente claro com duas camas arrumadas, equipamentos médicos e janela ao fundo. — Foto: UOL

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    Um artigo publicado no final de julho no periódico científico Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women's Health apontou como um marco histórico a mudança implementadas pelo governo inglês nas políticas públicas de saúde para as mulheres.

    Consulta pública com mulheres britânicas mostrou que 8 em cada 10 relatam já terem sido ignoradas por profissionais de saúde - Adobe Stock · Adobe Stock
    Consulta pública com mulheres britânicas mostrou que 8 em cada 10 relatam já terem sido ignoradas por profissionais de saúde - Adobe Stock · Adobe Stock — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Lançada em abril deste ano, a Nova Estratégia de Saúde da Mulher para a Inglaterra mencionou a "misoginia médica" como uma falha estrutural do NHS , o sistema público de saúde britânico. A política é uma atualização da Estratégia de Saúde da Mulher de 2022.

    "O reconhecimento formal, por parte de um órgão governamental, da misoginia médica como uma falha estrutural do sistema de saúde representa um divisor de águas", diz o artigo, assinado por Sahana Narayan, doutoranda em Medicina Materno-Fetal na Universidade de Oxford.

    As diferenças de tratamento na saúde para homens e mulheres são documentadas em diferentes países. Mas há poucos registros de governos que nomeiem essa forma de discriminação. França, Austrália, Canadá e Nova Zelândia, por exemplo, usam a expressão técnica "viés de gênero".

    Mulheres buscam respostas para áreas negligenciadas da ciência feminina
    Mulheres buscam respostas para áreas negligenciadas da ciência feminina — Foto: UOL · Fonte: UOL

    No Brasil, a PNAISM (Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher) orienta evitar "discriminação" de qualquer tipo.

    Para Carmen Diniz, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo), falar de misoginia remete a uma atitude hostil às mulheres, que aparece de várias formas dentro da medicina .

    "O conhecimento médico é construído por homens a partir de vieses de gênero", afirma. O reconhecimento disso, ela diz, ajuda a mudar essa estrutura desde a formação dos profissionais.

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    Foto: UOL · Fonte: UOL

    O governo britânico afirma que a estratégia de 2022 falhou porque lidou com as consequências do problema, e não com a sua causa. Ao adotar a expressão "misoginia médica", tenta mostrar que o problema é sistêmico e exige uma reforma estrutural abrangente.

    "Vamos agir com base nas vozes e escolhas das mulheres. Ouvimos exemplos demais de mulheres que não foram escutadas. O NHS tem um problema de misoginia médica e não vamos nos esquivar desse desafio", diz a Nova Estratégia de Saúde da Mulher.

    O documento define misoginia médica como um padrão, afastando a ideia de que seriam casos isolados. E descreve um modelo de cuidado desenhado para desempoderar pacientes: paternalista, centralizado e voltado aos interesses dos profissionais, não das mulheres.

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    O documento também reúne dados e casos conhecidos no Reino Unido para mostrar como a dor feminina é normalizada ou ignorada e como os corpos das mulheres foram historicamente subrepresentados na ciência.

    Um dos principais conjuntos de evidências vem de uma consulta pública realizada em 2022. Respondida por cerca de 100 mil mulheres britânicas, a pesquisa mostrou que 8 em cada 10 relatam já ter sido ignoradas por profissionais de saúde.

    Levantamentos plurianuais do governo britânico também mostram que mulheres internadas são tratadas com menos dignidade e respeito do que homens, com menos espaço para expor suas preocupações.

    Para reverter esse quadro, o país aposta em algumas mudanças, como a criação da regra de Jess, batizada em homenagem a Jessica Brady, que morreu de câncer após ter os sintomas ignorados em mais de 20 consultas. A norma obriga médicos a reavaliar o caso sempre que uma paciente retornar três vezes com o mesmo sintoma sem diagnóstico.

    Outra regra permite que pacientes e familiares peçam avaliação de outra equipe clínica quando sentirem que não estão sendo ouvidos.

    Procedimentos como histeroscopia e inserção de DIU passam a exigir consentimento informado e oferta de analgesia. O documento cita que 1 em cada 3 mulheres relata dor severa —nota 7 ou mais em uma escala de 10— ao passar por histeroscopia sem sedação na rede ambulatorial do NHS.

    Em outra frente, o órgão que financia pesquisas em saúde no país deixará de bancar estudos que não considerem diferenças biológicas entre os sexos. A medida tenta corrigir um padrão histórico de exclusão —conforme o governo britânico, embora as mulheres tenham risco 1,5 vez maior de sofrer efeitos colaterais de medicamentos para Alzheimer , 72% dos ensaios clínicos randomizados nem sequer analisam resultados por sexo .

    Estudos em diferentes países também mostram, por exemplo, que o infarto em mulheres é pouco diagnosticado e mal tratado . Além disso, segundo relatos de pacientes e especialistas, mulheres podem enfrentar até 20 anos de dor até receber um diagnóstico de endometriose e adenomiose.

    Já um estudo canadense publicado em junho na Canadian Medical Association Journal mostrou que mulheres com traumatismo cranioencefálico têm 26% menos chances de ser encaminhadas a centros especializados, na comparação com homens com lesão equivalente. "Toda a literatura é baseada no cérebro do homem", disse à Folha o neurocirurgião Wellingson Paiva, da USP.

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2026/08/inglaterra-reconhece-misoginia-medica-como-falha-estrutural-do-sistema-de-saude.shtml.

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