Brasil

    'Influenciadoras que fingem submissão aos maridos são as mesmas que gerenciam impérios multimilionários', diz autora de best-seller sobre tradwives

    Em frente às câmeras, elas promovem e imitam os papéis tradicionais de gênero, retratando seus maridos como os grandes provedores, enquanto se dedicam à criação dos filhos e à manutenção da casa. Mas, no mundo real, pagam as contas de toda a família com o seu trabalho e administram impérios multimilionários. Leia mais (09/06/2026 - 22h44)

    Folha de S.Paulo
    7 de setembro de 2026 às 01:44
    'Influenciadoras que fingem submissão aos maridos são as mesmas que gerenciam impérios multimilionários', diz autora de best-seller sobre tradwives
    Três mulheres posam diante de cartazes do filme 'Yesterday'. A da esquerda veste vestido claro com estampa floral, a do centro usa casaco escuro sobre blusa marrom, e a da direita está com vestido azul plissado, segurando a barriga. — Foto: Folha de S.Paulo

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Em frente às câmeras, elas promovem e imitam os papéis tradicionais de gênero, retratando seus maridos como os grandes provedores, enquanto se dedicam à criação dos filhos e à manutenção da casa. Mas, no mundo real, pagam as contas de toda a família com o seu trabalho e administram impérios multimilionários.

    Montagem com imagens da influenciadora Hannah Neeleman, da escritora Caro Clair Burke e da atriz Anne Hathaway, em frente a um cartaz com a capa da edição inglesa do livro 'Bons Tempos: Yesteryear' - Getty Images/Harper Collins · Getty Imag
    Montagem com imagens da influenciadora Hannah Neeleman, da escritora Caro Clair Burke e da atriz Anne Hathaway, em frente a um cartaz com a capa da edição inglesa do livro 'Bons Tempos: Yesteryear' - Getty Images/Harper Collins · Getty Imag — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Para a autora americana Caro Claire Burke, o retrato é parte da grande ironia que ilustra o fenômeno das influenciadoras que se apresentam como esposas tradicionais (ou tradwives, na expressão em inglês).

    Burke é autora do livro " Bons Tempos: Yesteryear", sucesso de vendas na Europa e Estados Unidos, e que acaba de ser lançado no Brasil pela Editora Rocco e que será adaptado para o cinema

    A obra de ficção traz a história de Natalie, uma mulher de 32 anos que trabalha como influenciadora e se apresenta como uma tradwife. De repente, ela é transportada de volta ao século 19 e, quando o teatro vira realidade, os "bons tempos" rapidamente deixam de parecer tão agradáveis.

    Conheça influenciadoras tradwives
    Conheça influenciadoras tradwives — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em entrevista concedida em abril ao programa Book Club, da BBC Radio 2, Caro Claire Burke falou sobre o processo de escrita do livro e a ironia que é ver mulheres que lucram milhões com as redes sociais se posicionarem como submissas diante das câmeras.

    "Existe uma certa ironia aí, porque essas mulheres que fingem submissão e que não saem de casa muitas vezes são as provedoras de seus lares, muitas vezes administram impérios multimilionários. É uma grande contradição", disse a autora.

    Para Burke, a forma como outras mulheres se definem "não é da conta de ninguém". Porém, quando essas mesmas figuras estão propagando suas crenças nas redes sociais, usando uma imagem que, por vezes, é apenas uma performance, o tema se torna digno de discussão.

    A imagem das mulheres na propaganda ao longo do tempo
    A imagem das mulheres na propaganda ao longo do tempo — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Tenho muito interesse em como todos nós, de certa forma, performamos o tempo todo, tanto online quanto na vida real. É como um efeito de espelho distorcido, e é muito divertido explorar isso na ficção", disse a autora à BBC Radio 2.

    Burke diz não ter se inspirado em uma pessoa específica para criar a personagem de sua obra, mas admite que passou muitas horas nas redes sociais pesquisando sobre as tradwives .

    Segundo sua própria definição, essas figuras são mulheres que acreditam "em assumir papéis tradicionais" e na submissão das esposas aos maridos.

    Mulheres foram responsáveis por lei contra violência doméstica
    Mulheres foram responsáveis por lei contra violência doméstica — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Uma influenciadora tradwife é alguém que coloca essas ideias em prática online, geralmente ganhando bastante dinheiro", explicou Burke.

    Questionada sobre as razões que a levaram a escrever a história, Burke disse que o tema pode ser encontrado "na interseção de todas as conversas possíveis sobre mulheres".

    "Podemos falar sobre maternidade e cuidados infantis, trabalho, economia e cultura. Então, me pareceu uma ótima oportunidade para abordar todos os assuntos que me interessam", afirmou.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Questionada sobre o tom adotado na obra, classificada como uma "sátira sombria", a autora confessou ter se assustado com as próprias palavras em alguns momentos.

    "Mas não foi algo em que pensei muito. O humor e o medo foram coisas que fiz meio que por instinto."

    A protagonista de "Bons Tempos: Yesteryear" é Natalie Heller Mills, que se apresenta como uma tradwife.

    Aos 32 anos, casada e mãe de cinco filhos (esperando o sexto), ela narra aos seus milhões de seguidores nas redes sociais a vida aparentemente idílica da sua família, em uma fazenda de 200 hectares no Estado americano de Idaho.

    Sua personalidade retrata a subcultura real existente na internet, de mulheres que promovem e imitam os papéis tradicionais de gênero, com os homens sendo os provedores e as mulheres, suas subordinadas, priorizando a criação dos filhos e a manutenção da casa.

    Natalie prepara pães de fermentação natural, educa seus filhos em casa, bebe leite não pasteurizado da sua própria vaca e coleta ovos de suas galinhas ("as meninas") todas as manhãs, tudo com um cintilante sorriso no rosto. Pelo menos, enquanto a câmera está ligada.

    Na verdade, a vida perfeita de Natalie é apenas uma fachada cuidadosamente construída, convincente e lucrativa.

    Mas, um dia, ela acorda vivendo subitamente no mesmo passado que ela romantiza, mais precisamente, no ano de 1855. E, quando o teatro vira realidade, os "bons tempos" rapidamente deixam de parecer tão agradáveis.

    O romance alterna entre o presente e uma versão apavorante do passado. E, só no final do livro, ficamos sabendo como e por que Natalie foi parar no século 19.

    A versão em inglês de "Bons Tempos: Yesteryear" ficou semanas na lista dos mais vendidos do jornal americano The New York Times e em primeiro lugar entre os livros de ficção do Sunday Times, no Reino Unido.

    A história também se tornou extremamente popular nas redes sociais, com muitos comentários sobre o livro nas plataformas Bookstagram e BookTok.

    Em junho, o romance liderou o ranking de assuntos mais comentados da plataforma BookTok. E, nos grupos de bate-papo e clubes de livros, os leitores debatem intensamente o seu valor literário.

    Os editores certamente investiram em uma intensa campanha de marketing. Mas o entusiasmo de Anne Hathaway também ajudou a chamar a atenção para a história.

    A atriz americana viu um primeiro rascunho, comprou os direitos e irá produzir e estrelar o filme baseado na obra.

    Sobre a adaptação, Burke afirmou ao programa Book Club que a equipe trabalhando no filme "é incrivelmente apaixonada" e o roteiro, que ainda está em desenvolvimento, "é fenomenal".

    O papel de esposa tradicional também está em alta na ficção. Já são três livros com o título Trad Wife ou Tradwife publicados neste ano em inglês. Todos explorando a ideia de que vidas aparentemente perfeitas raramente são o que parecem.

    Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres

    "Acho que as pessoas ficam fascinadas com as tradwives porque são figuras exageradas, extravagantes", disse à BBC Culture a professora de cultura e literatura contemporânea Rachel Sykes, da Universidade de Birmingham, no Reino Unido.

    O inerente paradoxo das esposas tradicionais, que aparentemente desprezam as mulheres profissionais enquanto constroem paralelamente seu próprio negócio de sucesso, também as torna objeto de dissecação cultural.

    E a ascensão das mulheres influenciadoras conservadoras é um choque para as progressistas, segundo Sykes.

    "A figura da esposa tradicional realmente cristaliza muito desta questão e livros como este levam as pessoas a debater o que é importante para elas."

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2026/09/influenciadoras-que-fingem-submissao-aos-maridos-sao-as-mesmas-que-gerenciam-imperios-multimilionarios-diz-autora-de-best-seller-sobre-tradwives.shtml.

    Imagem 1
    1 / 5

    Montagem com imagens da influenciadora Hannah Neeleman, da escritora Caro Clair Burke e da atriz Anne Hathaway, em frente a um cartaz com a capa da edição inglesa do livro 'Bons Tempos: Yesteryear' - Getty Images/Harper Collins · Getty Imag — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)