Brasil

    Indígena de recente contato desaparece após soltura de presídio em Manaus, a 1.200 km de casa

    Tribunal do Amazonas diz ter comunicado Funai e aldeia sobre decisão de soltura e afirma que presos foram transferidos do interior em razão de situação precária e irregular da custódia

    UOL
    28 de agosto de 2026 às 22:00
    Indígena de recente contato desaparece após soltura de presídio em Manaus, a 1.200 km de casa
    Jovem de pele morena e cabelo curto e bagunçado olha diretamente para a câmera com expressão neutra. Ele veste camiseta preta com detalhes amarelos e está posicionado contra fundo claro e uniforme. — Foto: UOL

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Um indígena de recente contato que estava preso preventivamente em uma delegacia em Envira (AM), na região do médio rio Juruá , foi transferido para um presídio em Manaus, a 1.200 km de distância em linha reta, e desapareceu após ser solto, o que já dura três meses.

    Nube Kulina, indígena de recente contato do médio rio Juruá, no Amazonas, desapareceu após ser solto de presídio; Justiça havia determinado transferência a Manaus - Divulgação · Divulgação
    Nube Kulina, indígena de recente contato do médio rio Juruá, no Amazonas, desapareceu após ser solto de presídio; Justiça havia determinado transferência a Manaus - Divulgação · Divulgação — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Familiares nas aldeias, organizações indígenas , Justiça, Ministério Público e Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) não têm notícia sobre o paradeiro do indígena.

    O alvará de soltura de Nube Oma Kulina, de 24 anos, tem a data de 28 de maio, o carimbo do CDPM II (Centro de Detenção Provisória de Manaus), o carimbo de "liberado" e a assinatura de Nube em letra de forma.

    Como não há notícia sobre onde Nube pode estar, a Defensoria Pública do Amazonas pediu explicações ao governo do estado.

    Caixão com corpo de Tadeo Kulina é transportado até aldeia, junto com mulher e familiar indígenas, em fevereiro de 2024 - Divulgação · Divulgação
    Caixão com corpo de Tadeo Kulina é transportado até aldeia, junto com mulher e familiar indígenas, em fevereiro de 2024 - Divulgação · Divulgação — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A soltura teria se dado sem aviso do sistema penitenciário estadual a defensores, familiares e Funai. Um boletim de ocorrência sobre o desaparecimento foi registrado numa delegacia em Manaus, a partir das iniciativas da Defensoria e da Funai sobre o episódio.

    Em casos como esses, tanto a Funai como os familiares precisam ser comunicados sobre a soltura, uma vez que os indígenas não falam português, não estabelecem boas relações com uma cidade do tamanho de Manaus –a maior capital do Amazonas, com 2 milhões de moradores– e não têm parentes ou redes de apoio na região.

    O Governo do Amazonas não respondeu aos questionamentos da reportagem sobre a prisão e soltura de Nube nem se manifestou a respeito. A reportagem procurou a assessoria por email e por WhatsApp na terça (25), quarta (26), quinta (27) e sexta-feira (28).

    Imagem da matéria
    Foto: UOL · Fonte: UOL

    A reportagem também tentou contato com as duas unidades prisionais em Manaus relacionadas ao caso, o CDPM II e a unidade de Puraquequara, mas os telefones não atendem.

    Os madihas kulinas, etnia de Nube, são indígenas considerados como de recente contato, classificação usada pela Funai . Os madihas não dominam a língua portuguesa, preservam um sistema cultural próprio nas aldeias e têm dificuldade em lidar com a vida urbana, o que inclui as cidades mais próximas, como Envira e Eirunepé (AM).

    O desaparecimento se assemelha ao caso de Tadeo Kulina , da mesma etnia e da mesma região de Nube Kulina.

    Imagem da matéria
    Foto: UOL · Fonte: UOL

    Em fevereiro de 2024, Tadeo desapareceu de uma maternidade pública em Manaus, onde a mulher dele, Ccorima Kulina, havia dado à luz a quarta filha do casal. Os dois foram levados de Envira à capital em razão dos riscos de saúde à Ccorima na fase final da gestação.

    O corpo de Tadeo foi encontrado no IML (Instituto Médico Legal) mais de uma semana depois, com marcas de agressões na cabeça, no tórax, no abdome e nos membros. A Polícia Civil do Amazonas, que antes tratava o caso como homicídio, arquivou o inquérito e apontou morte acidental, em razão de uma suposta queda num lava-jato próximo à maternidade.

    O podcast "Dois Mundos" , produzido pela Folha e veiculado em maio e junho de 2025, apontou novos elementos e provas sobre a morte e uma série de falhas na investigação policial. O caso foi reaberto por determinação do MP do Amazonas, e novas diligências da polícia estão em curso.

    Mega da Virada: quais as chances de ganhar e outras 7 perguntas sobre sorteio com prêmio recorde
Fotografia colorida mostra mão apostando na mega sena
Prêmio da mega da virada não acumula

Importado Automaticamente de: https://www.bbc.c
    Mega da Virada: quais as chances de ganhar e outras 7 perguntas sobre sorteio com prêmio recorde Fotografia colorida mostra mão apostando na mega sena Prêmio da mega da virada não acumula Importado Automaticamente de: https://www.bbc.c — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Nube foi preso preventivamente em razão de uma tentativa de feminicídio, em julho do ano passado. Ficou detido em uma delegacia em Envira, a cidade mais próxima das aldeias dos madihas kulinas da região. Toda essa área é uma imensidão de água e floresta preservada, com acessos possíveis apenas por ar e por água, inclusive no longo percurso entre Envira e Manaus.

    O processo judicial da tentativa de feminicídio traz uma decisão da Comarca de Envira, de 1º de outubro, sobre transferência de todos os presos da delegacia a presídios em Manaus.

    O pedido foi feito pelo MP do Amazonas. Essa transferência era necessária com "extrema urgência", segundo o MP, em razão de ações de retaliação promovidas pela facção criminosa Comando Vermelho e seu suposto braço local, o "conselho rotativo de Envira".

    Dois homens foram mortos pela polícia, no que teria sido um confronto, segundo a versão oficial. A polícia disse que os dois eram suspeitos de assalto. Ônibus escolares e casas foram incendiados em retaliação, conforme o MP, e ameaças foram divulgadas por redes sociais, "configurando um cenário de verdadeiro terrorismo urbano", conforme a decisão judicial.

    A Justiça, então, concordou e determinou a transferência de todos os presos da delegacia de Envira a Manaus. Isso incluiu Nube, conforme os autos.

    Em nota, o Tribunal de Justiça do Amazonas disse que a Comarca de Envira comunicou a Funai e a aldeia Vida Nova sobre a decisão de soltura de Nube. As transferências de presos se deram em razão da situação precária e irregular da custódia na delegacia, conforme o tribunal, e houve determinação para que o Governo do Amazonas elaborasse um "plano estruturante de médio e longo prazo".

    Documentos e diversos relatos atestam que o indígena foi efetivamente transferido a Manaus.

    Um desses documentos é o alvará de soltura, com carimbo de um presídio de Manaus. Outro é um ofício da coordenação regional da Funai em Manaus à Defensoria Pública do Amazonas, com pedido de medidas legais para localização de Nube após a transferência à capital e posterior soltura.

    Segundo esse ofício da Funai, Nube ficou preso na cela 4 da galeria 10 da Unidade Prisional do Puraquequara, em Manaus. O órgão afirma no documento que o indígena não tem parentes na cidade e pertence a uma etnia falante da língua materna e com pouco ou nenhum entendimento da língua portuguesa.

    A Funai não respondeu aos questionamentos da reportagem, enviados na terça (25) e reiterados na quarta (26).

    A mesma identificação da unidade prisional onde ficou Nube foi feita por advogados que atuaram no caso, a partir de acionamento do MP. Familiares e tradutores também afirmam que o indígena foi levado da delegacia em Envira a um presídio em Manaus. O mesmo se deu com outro madiha kulina, preso preventivamente por suspeita de feminicídio.

    A Opiju (Organização dos Povos Indígenas da Calha do Juruá) foi informada sobre a transferência de dois madihas presos a Manaus e pediu ajuda à Funai.

    Uma audiência na Comarca de Envira, feita por videoconferência no último dia 18, tratou Nube como não localizado e em descumprimento de medidas cautelares aplicadas em substituição à prisão.

    A Defensoria Pública cobrou explicações da Secretaria de Administração Penitenciária e da Secretaria de Segurança Pública do Governo do Amazonas sobre a soltura e desaparecimento do indígena.

    Casos de presos do interior transferidos e soltos sem rede de apoio em Manaus têm se repetido, o que levou a Defensoria a acionar a Corregedoria da Justiça no estado para uma solução. Em um dos casos, um ex-detento viveu em situação de rua por um ano, até ser preso outra vez.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/08/indigena-de-recente-contato-desaparece-apos-soltura-de-presidio-em-manaus-a-1200-km-de-casa.shtml.

    Imagem 1
    1 / 5

    Nube Kulina, indígena de recente contato do médio rio Juruá, no Amazonas, desapareceu após ser solto de presídio; Justiça havia determinado transferência a Manaus - Divulgação · Divulgação — Foto: UOL

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)