Índia autoriza importação de 1 milhão de toneladas de açúcar
Medida deve pressionar o mercado internacional da commodity e aumentar a volatilidade dos preços em Nova York

A Índia autorizou nesta semana a importação de 1 milhão de toneladas de açúcar , em uma medida que deve aumentar a pressão sobre o mercado internacional da commodity e ampliar a volatilidade dos preços em Nova York.
A decisão do governo indiano ocorre em meio à disparada das cotações no mercado doméstico e à redução dos estoques do país.
A Índia é o segundo maior produtor de açúcar, com um volume de 30 milhões de toneladas por ano, atrás apenas do Brasil, com 45 milhões de toneladas anuais.

Recentemente o Departamento Meteorológico da Índia informou que as chuvas de monção previstas para agosto e setembro deverão ficar abaixo da média. Paralelamente, o Ministério de Ciências da Terra do país manteve o alerta de que esta poderá ser a temporada de monções mais fraca dos últimos 11 anos.
Segundo análise da StoneX, os preços do açúcar em Kolhapur, no estado de Maharashtra, subiram 56% desde o início das monções , passando de 4.100 para 6.400 rúpias por quintal e renovando recordes sucessivamente.
A autorização estabelece que o açúcar importado deverá ser entregue até 31 de outubro de 2026 , sem cobrança de tarifas.

Para Marcelo Di Bonifacio Filho, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, a medida confirma uma possibilidade que já vinha sendo considerada pelo mercado diante da situação das monções e da perspectiva para os estoques indianos.
“O cenário se materializa e levou os preços temporariamente para patamares acima de US$ 18 por libra-peso”, afirma o analista.
O contrato de março de 2027 chegou a buscar a marca de 19 centavos de dólar por libra-peso .

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A decisão indiana está diretamente relacionada ao nível dos estoques de açúcar no país. Em 31 de setembro de 2025, os estoques de passagem estavam em aproximadamente 4,9 milhões de toneladas , volume equivalente a apenas dois meses de consumo.
Embora a temporada 2025/26 tenha registrado aumento da oferta, o crescimento ficou abaixo do que era esperado pelo mercado.

Sem importações, a estimativa da StoneX era de que a Índia chegasse ao final de setembro de 2026 com estoques próximos de 4 milhões de toneladas . O período seguinte é particularmente sensível porque outubro e novembro marcam o início da colheita, enquanto o país atravessa uma época de forte consumo associado a festivais e feriados.
A importação de 1 milhão de toneladas, portanto, busca aliviar a disponibilidade doméstica justamente em um momento de transição entre safras.
Além dos estoques, o clima é outro fator de preocupação.

Segundo a StoneX, as monções na Índia acumulam volume mais de 10% abaixo da média , cenário que aumenta as incertezas sobre a próxima temporada de produção.
A situação não está restrita ao país asiático. A Tailândia também enfrenta perspectivas de redução da produção de açúcar em 2026/27.
Na União Europeia, a preocupação é ainda maior. O bloco enfrenta uma das estiagens mais severas de sua história, acompanhada por temperaturas elevadas. O cenário pode aumentar a necessidade de importações europeias nos primeiros três trimestres do próximo ano.

Para a StoneX, uma maior demanda por açúcar refinado na Europa pode contribuir para sustentar os preços e também afetar o diferencial entre o açúcar refinado negociado em Londres e o açúcar bruto de Nova York.
Apesar da pressão sobre os preços, a avaliação da StoneX é que há oferta disponível no mercado internacional , especialmente no Brasil.
O problema está no prazo para que o açúcar brasileiro chegue à Índia. Uma carga embarcada no Brasil pode levar cerca de dois meses para alcançar os portos do oeste indiano, justamente próximo ao prazo estabelecido pelo governo para a entrega da cota.

Esse intervalo ajuda a explicar a reação do mercado, segundo Di Bonifacio Filho.
Atualmente, a StoneX estima que o açúcar indiano esteja em torno de US$ 615 por tonelada , líquido do imposto sobre bens e serviços. Já o açúcar VHP brasileiro, com origem em Santos, chegaria à Índia por aproximadamente US$ 430 a US$ 450 por tonelada , também líquido do imposto.
A diferença de preços cria um incentivo econômico para a compra do produto brasileiro.

Com os preços atuais, o mercado oferece condições para que as usinas do Centro-Sul aumentem a participação do açúcar no mix de produção entre agosto e outubro, período em que a moagem da cana segue avançando. No início da safra, a maior parte das usinas optou por um mix mais alcooleiro.
Os contratos mais longos, a partir de maio de 2027, apresentam comportamento mais estável ou até negativo, indicando que parte da alta recente está relacionada à busca das usinas por melhores margens na safra atual e nas próximas.
Outro elemento que pode ampliar a volatilidade é o posicionamento dos fundos de investimento.
Segundo dados do CFTC analisados pela StoneX, os fundos aumentaram em mais de 115 mil lotes a posição líquida vendida na Bolsa de Nova York até 11 de agosto. A estimativa da consultoria é que a posição tenha ficado entre 75 mil e 85 mil lotes líquidos vendidos até 18 de agosto.
A entrada de uma demanda adicional de 1 milhão de toneladas, com prazo relativamente curto, pode provocar uma mudança nesse posicionamento.
Para Di Bonifacio Filho, a reação dos fundos será um dos fatores a acompanhar nos próximos dias. Uma pressão compradora mais forte poderia gerar novas altas, mesmo diante da existência de oferta física disponível.
O comportamento dos preços também dependerá da evolução das safras da Tailândia, da União Europeia e do Centro-Sul brasileiro .
No Brasil, um eventual retorno de chuvas acima da média entre setembro e novembro poderia dificultar o encerramento da colheita da cana-de-açúcar. O excesso de umidade pode reduzir o ritmo de corte e prejudicar o processo industrial de cristalização do caldo.
Isso cria um cenário de incerteza especialmente para os contratos de outubro de 2026 e março de 2027.
Ao mesmo tempo em que a Índia adiciona uma demanda de curto prazo ao mercado, os agentes comerciais ampliaram suas posições vendidas. A questão, segundo a StoneX, é quem estará disposto a vender caso os fundos voltem a aumentar de forma significativa a posição compradora.
Publicado originalmente por CNN Brasil. Leia a matéria completa em https://www.cnnbrasil.com.br/agro/india-autoriza-importacao-de-1-milhao-de-toneladas-de-acucar/.

Um funcionário verifica o açúcar bruto na refinaria de açúcar na cidade de Hilla • 21 de novembro de 2017REUTERS/Khalid al-Mousily · • 21 de novembro de 2017REUTERS/Khalid al-Mousily — Foto: CNN Brasil
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