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    Igreja Universal mobiliza fiéis em campanha espiritual que termina no dia da eleição

    Com pautas morais e críticas ao isolamento social na pandemia, denominação inicia jornada de 52 dias

    UOL
    18 de agosto de 2026 às 02:00
    Igreja Universal mobiliza fiéis em campanha espiritual que termina no dia da eleição
    A imagem é dividida em duas partes. À esquerda, um homem com cabelo grisalho e barba, vestido com um terno escuro, está em um palco ao lado de outro homem, que usa um terno claro e está sorrindo. Ambos parecem estar em um evento ao vivo, co — Foto: UOL

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    A Igreja Universal do Reino de Deus lançou na última quinta (13) uma campanha que dura 52 dias, o Desafio de Neemias. Nem o personagem bíblico contemplado nem o período parecem fruto do acaso.

    O bispo Edir Macedo com Lula e, em outro momento, com Jair Bolsonaro - Divulgação/Folhapress · Divulgação/Folhapress
    O bispo Edir Macedo com Lula e, em outro momento, com Jair Bolsonaro - Divulgação/Folhapress · Divulgação/Folhapress — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Neemias aparece no Antigo Testamento. Era um copeiro que provava a bebida do rei para garantir que não continha veneno, o que exigia extrema lealdade. Foi ele quem, para proteger o povo judeu, liderou a reconstrução do muro de Jerusalém, destruído muitos anos antes pelo exército babilônico. A façanha durou 52 dias.

    São desafios diários propostos pela igreja do bispo Edir Macedo , com o anunciado propósito espiritual de "restauração e construção dos valores cristãos, da fé e da proteção das famílias". O último está previsto para 4 de outubro, dia do primeiro turno da eleição .

    Não há alusão direta ao pleito deste ano, mas as pistas estão lá.

    Vídeo de divulgação do Desafio do Neemias lançado pela Universal - Reprodução Desafio do Neemias no Instagram · Reprodução Desafio do Neemias no Instagram
    Vídeo de divulgação do Desafio do Neemias lançado pela Universal - Reprodução Desafio do Neemias no Instagram · Reprodução Desafio do Neemias no Instagram — Foto: UOL · Fonte: UOL

    O bispo Alessandro Paschoall, um dos principais mobilizadores, comanda o Arimateia, projeto da Universal que fala em conscientização política e descarta "o pensamento equivocado de que política e fé não se misturam". O nome vem de José de Arimateia, personagem contemporâneo a Jesus Cristo, descrito na Bíblia como senador e membro do que hoje equivaleria ao Supremo Tribunal Federal.

    Para o lançamento, o desafio sugerido é "se importar". Em vídeo compartilhado por canais da igreja e gravado direto de Jerusalém, Paschoall diz que "vale a pena a gente aqui lembrar o que vivemos na pandemia". O que ele destaca no período é o fechamento de templos religiosos "no momento em que as pessoas mais necessitavam que estivessem abertos", um "direito violado" que não pode se repetir.

    Tomada por estados e municípios para conter a transmissão da Covid-19 em locais de aglomeração, a decisão contrariou o governo Jair Bolsonaro (PL), avesso à ideia de isolamento social.

    Evento 'Família ao Pé da Cruz' reúne fiéis no Rio e em SP nesta Sexta-Feira Santa
    Evento 'Família ao Pé da Cruz' reúne fiéis no Rio e em SP nesta Sexta-Feira Santa — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Para participar da campanha de Neemias, o fiel precisa se cadastrar em um aplicativo, no qual é cobrado por metas. Cada tarefa concluída ao longo destes quase dois meses representa uma "pedra" na "muralha espiritual".

    Os inscritos sabem de antemão quais serão os temas de cada desafio: "guardiões da família", "governantes contra o povo", "sob o jugo de tiranos", coisas assim.

    O 45º dia será dedicado às fake news, expressão recorrente no discurso da Universal, que se apresenta como alvo preferencial desse fenômeno. A Folha Universal, jornal distribuído na porta dos templos, publicou vários textos nos últimos anos na linha "fiel foi enganado pelo que a mídia expunha sobre a igreja", construindo a ideia de que a imprensa a persegue.

    Lula acena a evangélicos e não petistas
    Lula acena a evangélicos e não petistas — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A cada eleição, a Universal põe sua máquina religiosa para funcionar em favor de seus candidatos. A estrutura da igreja ajuda a eleger aliados para o Executivo e a engrossar sua bancada no Legislativo, com predileção por nomes de dentro de casa.

    Na Assembleia Legislativa de São Paulo há os deputados Edna Macedo, irmã de Edir Macedo, e o pastor Gilmaci Santos , líder do governo Tarcísio de Freitas na casa. Todos são do Republicanos , que nasceu como costela partidária da igreja.

    Só na Câmara dos Deputados são ao menos dez quadros de peso da Universal, todos do Republicanos: Marcos Pereira (SP), presidente da legenda, Milton Vieira (SP), Maria Rosas (SP), Márcio Marinho (BA), Gilberto Abramo (MG), Julio Cesar Ribeiro (DF), Rosangela Gomes (RJ), Luis Carlos Gomes (RJ), Jorge Braz (RJ) e Marcelo Crivella (RJ), sobrinho do bispo Macedo.

    Dois adultos vestindo roupas pretas e bonés conversam em um terraço de madeira. Ao fundo, a Cúpula da Rocha e construções históricas de Jerusalém sob céu azul.
    Dois adultos vestindo roupas pretas e bonés conversam em um terraço de madeira. Ao fundo, a Cúpula da Rocha e construções históricas de Jerusalém sob céu azul. — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Gilberto Nascimento, autor de "O Reino - A História de Edir Macedo e uma Radiografia da Igreja Universal", lembra que a igreja elegeu seu primeiro representante em Brasília ainda nos anos 1980. Eleito para a Assembleia Nacional Constituinte, que formularia a Constituição de 1988, Roberto Lopes, um dos fundadores da denominação, acabaria deixando-a na mesma década, por discordar do seu rumo.

    "Já nas eleições seguintes, a Universal levou isso a ferro e fogo e se empenhou para eleger candidatos em todas as esferas, municipal, estadual e federal. Daí não parou mais", diz Nascimento.

    Edir Macedo defende abertamente o engajamento dos evangélicos com a política. Em seu livro "Plano de Poder", ele alerta para uma inércia "nociva" no eleitorado cristão, que muitas vezes faz uma "interpretação errônea de que Deus fará tudo sem que a pessoa precise mover uma palha".

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    Resgata Maquiavel e sua definição de política como "a arte de governar e estabelecer o poder". Logo, argumenta o bispo, "do ponto de vista de Deus, com quem você acha que Ele desejaria que estivesse esse poder e domínio? Nas mãos de Seu povo ou não?".

    O endosso a Jair Bolsonaro em 2018 marcou o retorno da Universal ao seu histórico antipetismo . Nos anos seguintes vieram fórmulas como a do bispo Renato Cardoso, cunhado de Macedo que diz ser impossível conciliar esquerda e cristianismo .

    Nas eleições de 1989 e 1994, a igreja combateu fortemente o PT e Lula, enquadrados como puxadinho comunista. A postura começou a mudar em 2002, quando boa parte da liderança evangélica nacional se aliou a Lula após Anthony Garotinho, o primeiro presidenciável evangélico competitivo que o país teve, ficar de fora do segundo turno.

    BRASILIA, DF,  BRASIL,  05-07-2024, 12h00: Fachada do Congresso Nacional, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress, PODER)
    BRASILIA, DF, BRASIL, 05-07-2024, 12h00: Fachada do Congresso Nacional, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress, PODER) — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A igreja também apoiou Dilma Rousseff e ajudou a petista a rechaçar boatarias como a de que ela fecharia igrejas se vencesse aquele pleito. Foi recompensada com espaço no governo para o PRB (que viraria o Republicanos depois), incluindo um ministério para Crivella.

    Quando Lula derrotou Bolsonaro em 2022, Macedo modulou críticas e falou em perdoar. "O diabo quer acabar com sua fé, com seu relacionamento com Deus por causa de Lula ou dos políticos. Não dá, não dá, minha filha, bola pra frente, vamos olhar pra frente."

    O Desafio de Neemias, a princípio, não fere a legislação eleitoral, ainda que possa haver contexto político subentendido, segundo o advogado Alberto Rollo, que trabalha com direito eleitoral. "É uma campanha, é uma corrente de oração, uma coisa que eu vejo normalmente a igreja fazendo. Não vejo comprometimento."

    O que é vedado às igrejas: respaldar candidatos financeiramente, ceder espaços para reuniões políticas ou doar materiais de campanha. O pedido explícito de votos dentro do templo também é proibido. Há exemplos nesse sentido, como pastores pregando que quem não votasse no candidato "x" iria para o inferno.

    Não há impedimento para que candidatos estejam no púlpito e se apresentem, desde que não peçam para os fiéis o escolherem nas urnas.

    A Folha procurou a Universal desde quinta (13) para perguntar se a igreja queria comentar a nova campanha, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/08/igreja-universal-mobiliza-fieis-em-campanha-espiritual-que-termina-no-dia-da-eleicao.shtml.

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    O bispo Edir Macedo com Lula e, em outro momento, com Jair Bolsonaro - Divulgação/Folhapress · Divulgação/Folhapress — Foto: UOL

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