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    Ideias para um futuro possível

    Horas após a contagem dos votos do primeiro turno , Flávio Bolsonaro ( PL ) decretou "o fim da era do PT ". Tomada ao pé da letra, a frase é uma impostura. O senador não pode decretar coisa alguma na política brasileira; tampouco o PT, que saiu do primeiro turno com quase metade dos votos, morreu politicamente. Leia mais (10/13/2026 - 22h00)

    Folha de S.Paulo
    14 de outubro de 2026 às 01:00
    Ideias para um futuro possível
    Dois homens aparecem em retratos lado a lado. O da esquerda é um homem de meia-idade com cabelo escuro, veste terno cinza, camisa branca e gravata amarela com padrão. O da direita é um homem mais velho, com cabelo e barba grisalhos, veste t — Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos​

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    Montagem com os candidatos Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) - Montagem · Montagem
    Montagem com os candidatos Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) - Montagem · Montagem — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Doutor em direito (USP), é professor na FGV Direito SP

    Horas após a contagem dos votos do primeiro turno , Flávio Bolsonaro ( PL ) decretou "o fim da era do PT ". Tomada ao pé da letra, a frase é uma impostura. O senador não pode decretar coisa alguma na política brasileira; tampouco o PT, que saiu do primeiro turno com quase metade dos votos, morreu politicamente.

    Mas há, por trás da bravata, uma verdade que o resultado torna difícil ignorar. É preciso apresentar uma nova página política aos brasileiros que legitimamente querem mudança.

    Flávio Bolsonaro e Lula no segundo turno das eleições 2026
    Flávio Bolsonaro e Lula no segundo turno das eleições 2026 — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Flávio está longe de representar uma renovação em direção a mais direitos, melhores condições de vida, menos violência e mais criatividade política. Político de carreira, sua campanha é um vazio de ideias. E, no que propõe, vale a regra: o que é bom não é crível; o que é crível não é bom. Lula tampouco representa mudança no sentido literal. Mas já demonstrou abertura à diversidade política, compromisso com demandas populares e respeito à Constituição —qualidades fundamentais para um governo de mudança. É hora, contudo, de encampar propostas pouco óbvias, capazes de apontar para o futuro e animar uma campanha que finalmente mereça esse nome. A provocação veio de Vladimir Safatle ao defender uma nova "carta aos brasileiros" —desta vez dirigida não ao mercado, mas à maioria dos cidadãos. Lanço aqui algumas ideias sobre moeda e crédito. Mais do que um programa acabado, trata-se de disputar politicamente escolhas sobre que sociedade queremos construir.

    Um ponto central seria reconectar regime fiscal , Banco Central e bancos públicos a demandas sociais concretas, em um projeto de desenvolvimento. Todas essas estruturas dizem respeito a como o dinheiro é criado e distribuído e a como as pessoas podem realizar suas ambições de vida. É hora de questionar a separação rígida entre política monetária e fiscal e as falsas dicotomias entre Estado e mercado, público e privado, que dominam o debate público. O Pix mostra que o Banco Central pode assumir papel de vanguarda na construção de infraestruturas públicas. Por que não ampliar esse debate para uma moeda digital de varejo, discutindo seus riscos e possibilidades? Qual o obstáculo a uma discussão política ampla sobre novas formas de organizar as finanças? E por que não transformar essas infraestruturas em instrumentos de cooperação internacional, inclusive entre os países do Brics , reduzindo vulnerabilidades associadas à dependência do dólar?

    Por que não estender a lógica das "missões" estatais para uma política de governança do crédito público? Bancos públicos receberiam missões voltadas não apenas à oferta de crédito de boa qualidade, mas a problemas concretos da sociedade, tais como "desendividamento", "bons empregos", "empreendimentos inovadores e sustentáveis". Isso exigiria planejamento de longo prazo e uma governança capaz de combinar coordenação política e avaliação descentralizada. A palavra planejamento só assusta quem preserva a ilusão de que o sistema financeiro privado não é também uma construção do Estado. Mas, para fazê-lo de forma democrática, é necessário assumir que toda escolha regulatória é política e que, portanto, não pode se restringir a especialistas que se julgam portadores de verdades científicas.

    Como o governo planeja, arrecada e gasta o dinheiro do Brasil
    Como o governo planeja, arrecada e gasta o dinheiro do Brasil — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Parcerias com o setor privado serão bem-vindas, desde que potencializem os objetivos estabelecidos democraticamente. Iniciativas desse tipo só funcionarão com a reconstrução de capacidade estatal e uma regulação zelosa contra práticas predatórias de crédito. Além disso, dependerão de um ambiente favorável ao empreendedorismo inovador, que não se confunda com precarização, o que pressupõe uma política de inovação robusta. Articulando desafios, a nova carta poderia propor mudanças concretas que se encontram em uma imagem do que será o país. Nenhuma dessas propostas é simples. Muitas dependeriam de uma força política que ainda precisa ser construída. Mas é justamente por isso que precisam ser ditas agora. O recado do primeiro turno pode ser lido de muitas maneiras. Uma delas é que as pessoas querem mudança substantiva. Responder a ela exige imaginar um futuro melhor que a distopia bolsonarista. Ainda há tempo para isso. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha
    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/10/ideias-para-um-futuro-possivel.shtml.

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    Montagem com os candidatos Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) - Montagem · Montagem — Foto: Folha de S.Paulo

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