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    Ibovespa tem nova semana “sangrenta”: mercado passou a precificar eleições de vez?

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    14 de agosto de 2026 às 18:00
    Ibovespa tem nova semana “sangrenta”: mercado passou a precificar eleições de vez?
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    Gráfico de ações e câmbio com bandeira do Brasil (Imagem elaborado com auxílio da Inteligência Artificial)

    Mais uma semana “sangrenta” para o Ibovespa, que faz o índice cair de cerca de 4% no período, somando uma baixa de cerca de 7% na primeira quinzena do mês.

    Diversos fatores levam a esse novo desempenho negativo do benchmark da Bolsa, mas alguns ingredientes têm ganhado força, inclusive impulsionando a fuga de capital estrangeiro da Bolsa brasileira.

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    Apenas na sessão da última quarta-feira, houve retirada de capital externo R$ 1,632 bilhão da B3, aumentando o total de saídas neste mês para R$ 13,561 bilhões. No acumulado do ano, contudo, o fluxo de capital externo está positivo em R$ 22,846 bilhões.

    Para muitos analistas de mercado, o tema eleitoral e o risco fiscal embutido no cenário têm começado a fazer preço, pouco menos de dois meses da eleição, enquanto o tema de inteligência artificial segue forte e causando volatilidade nos mercados globais e a relação entre EUA e Brasil segue com impasses. Todos esses fatores, em conjunto, criaram um ambiente particularmente desfavorável para os ativos brasileiros nas últimas semanas.

    O primeiro semestre na Bolsa contou com grande parte do debate em torno do fluxo global de recursos e da disputa entre Brasil e o tema inteligência artificial. Mas, agora, muitos profissionais identificam uma mudança de foco com a proximidade das eleições.

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    A proximidade do pleito de outubro tem elevado a sensibilidade dos mercados à discussão fiscal e à direção da política econômica dos próximos anos. “O mercado está cada vez mais preocupado com o fiscal, com o discurso dos candidatos à Presidência. Está na dúvida se realmente haverá um novo desenho fiscal para o Brasil”, destaca Kevin Oliveira, sócio e advisor da Blue3.

    Entre as principais gestoras locais, prevalece a visão de que outubro caminha para a recondução do presidente Lula para um quarto mandato , e também a decisão de atravessar o período com risco mínimo em ativos brasileiros.

    Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, avalia que os investidores buscam sinais mais claros de comprometimento com as contas públicas, mas encontram pouca visibilidade em pleno período eleitoral.

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    André Matos, CEO da MA7 Capital, avalia que a precificação eleitoral já começou, embora ainda esteja em estágio inicial. “Diria que o mercado começou a precificar, mas está longe de ter terminado. O sinal está no descolamento, porque no último mês a bolsa brasileira caiu perto de 5% enquanto as americanas subiram. Só que separar hoje o prêmio eleitoral do prêmio diplomático é quase impossível, porque os dois batem no mesmo ativo ao mesmo tempo”, afirma, ressaltando a decisão da véspera do governo brasileiro a abertura do processo para aplicar a Lei de Reciprocidade contra os EUA, em resposta à tarifa de 25% imposta a produtos brasileiros por supostas práticas comerciais desleais.

    Segundo ele, a precificação eleitoral tende a ganhar ainda mais intensidade a partir de setembro, quando as pesquisas começarem a consolidar tendências mais claras.

    A saída de capital externo se transformou em um dos principais termômetros da piora recente de humor. Até o início do mês, agosto já acumulava retiradas superiores a R$ 5,5 bilhões. Agora o movimento já supera R$ 13 bilhões e ajuda a explicar por que o Ibovespa encontra dificuldade para reagir mesmo diante de valuations considerados atrativos.

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    Para Fernando Siqueira, head de Research da Eleven Financial, parte desse movimento reflete a volta do apetite global por tecnologia.

    Levantamento do UBS com cerca de 220 fundos mostra que o Brasil tem a maior fatia no universo emergente, com participação estrangeira perto de máximas históricas

    “Agosto está sendo novamente um mês positivo no mercado internacional, mas melhor para S&P e Nasdaq em função dos bons resultados das empresas americanas e expectativas renovadas no setor de tecnologia. Esses momentos tendem a ser relativamente piores para o Brasil”, afirma.

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    Caio Ignácio, sócio da Boa Brasil Capital, avalia que o fluxo global voltou a favorecer a narrativa da inteligência artificial. “Quando a confiança no ciclo de IA enfraquece, o capital busca ativos mais físicos e tradicionais, o que ajuda o Brasil. Quando essa confiança volta a crescer, o dinheiro sai daqui e volta para a tecnologia americana”, afirma.

    Ainda assim, a avaliação predominante é que os fatores domésticos passaram a pesar mais do que no primeiro semestre.

    Outro fator que ganhou espaço entre investidores foi a preocupação com a atividade econômica e com a deterioração do crédito. Os resultados dos grandes bancos trouxeram sinais de aumento de inadimplência em algumas linhas e reforçaram dúvidas sobre a trajetória da economia em um ambiente de juros ainda elevados.

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    Guto Leite, gestor da Franklin Templeton, destaca que a temporada de balanços também contribuiu para enfraquecer o sentimento dos investidores. “A visão que fica das teleconferências e das interações com as companhias para o restante do ano é que o discurso não está muito animador”, afirmou.

    O cenário mais desanimador para o mercado brasileiro também encontrou lastro na decisão do JPMorgan de reduzir a recomendação para o Brasil de overweight (exposição acima da média do mercado) para neutra. O banco argumentou que o ciclo de queda da Selic está perto do fim, a atividade econômica desacelera e a volatilidade eleitoral tende a aumentar até outubro.

    Reciprocidade adiciona nova camada de risco

    A abertura pelo governo brasileiro de processo para eventual aplicação da Lei da Reciprocidade em resposta à tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros adicionou um novo fator de risco.

    Embora o movimento seja visto inicialmente como instrumento de negociação, especialistas de mercado alertam para o risco de escalada.

    “O mercado tende a reagir menos ao anúncio formal e mais à possibilidade de contramedidas efetivas, novas tarifas e deterioração da relação bilateral”, afirma Valdir Piran Jr., CEO do Grupo Intra.

    Na avaliação dele, o problema não está na reciprocidade em si, mas nos desdobramentos. “Tarifas sobre produtos americanos podem encarecer insumos, máquinas, tecnologia e componentes importados, pressionando margens e inflação. É esse risco de escalada que pode pesar mais sobre os ativos locais.”

    Matos também aponta que o governo não adotou medidas retaliatórias imediatas, mas abriu duas frentes simultâneas, uma bilateral e outra junto à Organização Mundial do Comércio. “Cada frente gera manchete, e manchete de risco político costuma aparecer primeiro no câmbio e depois na ponta longa da curva de juros”, afirma.

    O que pesa mais: IA, eleições ou guerra comercial?

    Para os analistas, neste cenário, todos os “ingredientes” acabam por pesar negativamente no mercado, mas os fatores domésticos passaram a ter peso crescente.

    Valdir Piran considera que o risco fiscal segue sendo o principal fator estrutural para os ativos brasileiros, enquanto a disputa comercial adiciona volatilidade e pode ampliar os prêmios de risco.

    André Matos, por sua vez, vê dificuldade em separar completamente os temas. “O prêmio eleitoral e o prêmio diplomático estão sendo precificados ao mesmo tempo.”

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