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    IA não completa frases - e sim inventa rumos

    A noção de que os grandes modelos de linguagem preveem a próxima palavra é a mais disseminada e a mais equivocada maneira de descrever seu funcionamento. Leia mais (08/10/2026 - 07h00)

    Folha de S.Paulo
    10 de agosto de 2026 às 10:00
    IA não completa frases - e sim inventa rumos
    Sete pessoas em pé conversam e observam uma fileira de servidores iluminados por luzes azuis em ambiente interno moderno. O local tem teto com iluminação circular e painéis digitais nas paredes. — Foto: Folha de S.Paulo

    Neurocientista, professor livre-docente da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e sócio do Instituto Locomotiva e da WeMind

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    Evento da Conferência Mundial de Inteligência Artificial em Xangai, na China, em julho deste ano - Fang Zhe/Xinhua · Fang Zhe/Xinhua
    Evento da Conferência Mundial de Inteligência Artificial em Xangai, na China, em julho deste ano - Fang Zhe/Xinhua · Fang Zhe/Xinhua — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A noção de que os grandes modelos de linguagem preveem a próxima palavra é a mais disseminada e a mais equivocada maneira de descrever seu funcionamento.

    LLMs são treinados em duas fases. Na primeira, uma rede neural recebe trilhões de trechos da internet com buracos no meio e tenta preenchê-los. Cada tentativa é comparada com o que estava no texto original, o acerto vira pontuação e o processo se repete até o modelo preencher bem as lacunas de qualquer assunto. Isso é previsão do próximo token (ou palavra) no sentido estrito, e é daí que vem a fama da IA de ser um grande "autocomplete".

    Na segunda fase, entram outros métodos de aprendizado, para que o algoritmo aja como querem seus fabricantes. Restrições temáticas, puxa-saquismo, respostas padronizadas sobre a própria consciência, tudo é moldado nesta etapa, que hoje concentra grande parte do dinheiro e do esforço científico e reduz dramaticamente o peso relativo do "autocomplete".

    Como a IA se integra ao dia a dia na Coreia do Sul
    Como a IA se integra ao dia a dia na Coreia do Sul — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Mas o ponto decisivo é outro. Se aquilo que vemos na tela fosse fruto de previsão, aconteceria o seguinte: você descreveria ao Claude um experimento de química e pediria o resultado, que seria calculado pela seleção correta de cada uma das palavras, letras e números até o final, a despeito do fato de as sequências possíveis superarem os átomos do universo.

    Cada resposta demoraria semanas e teria confiabilidade nula, já que acertar deste modo seria como ganhar na Mega-Sena em todas as rodadas da história com um único cartão.

    No mundo real, a resposta sai certa e em minutos porque a IA não tenta prever as palavras que devem ser encadeadas, mas opera com os princípios da química, que aplica ao cenário descrito, tal como aplica os do humor quando converte uma história qualquer em piada.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O equívoco está em confundir uma fase do treinamento com a produção de respostas no mundo real, onde a previsão só serve para eventos fechados, como se vai chover amanhã.

    Seria o caso de se dizer que o trabalho da IA é decidir em vez de de prever ? Também não.

    Veja, o pensamento, assim como o caminhar, não é um conjunto de deliberações, passo a passo —e é sabido que pacientes neurológicos que param para escolher cada pisada não chegam ao destino.

    Prever e decidir são atos. O que perseguimos enquanto andamos, refletimos e compartilhamos ideias com as outras pessoas são sobretudo rumos, zonas de sentido.

    Rumos são o nosso jeito privilegiado de existir e a tônica dominante da IA, que extrai do conjunto de treinamento nossos princípios reflexivos, com algumas limitações (mais dedução e menos abdução , o salto que inventa hipóteses, do que nós).

    Navegamos a vida social com três bússolas simultâneas: a do espaço, a da conversa e a da cultura, que nos orientam sem precisar converter direção em coordenadas precisas a todo instante. Uma língua funciona assim. Ninguém decidiu matar o "vós" no Brasil; ele simplesmente se tornou uma zona menos visitada.

    A IA faz uma navegação aparentada, com a diferença de que ela é feita da fala de todos, emprestada e roubada.

    Por isso, perguntar algo a ela é perguntar à cultura , que não produz apenas repetição, mas pensamento novo a partir do velho, como agora se vê nas provas matemáticas de máquina. A cultura não se autocompleta; ela se autoinventa. E são os ecos dos seus rumos que vemos surgir na tela.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/alvaro-machado-dias/2026/08/ia-nao-completa-frases-e-sim-inventa-rumos.shtml.

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    Evento da Conferência Mundial de Inteligência Artificial em Xangai, na China, em julho deste ano - Fang Zhe/Xinhua · Fang Zhe/Xinhua — Foto: Folha de S.Paulo

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