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    Hormuz e seu regime jurídico internacional

    O centro da geopolítica global volta-se para o estreito de Hormuz , uma das mais importantes rotas marítimas do planeta. Localizado entre o Irã e Omã , conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico e constitui a principal via de escoamento das exportações de petróleo e gás natural dos países do Golfo. Estima-se que cerca de um quinto do petróleo comercializado mundialmente atravesse diariamente o estreito. Leia mais (09/09/2026 - 17h18)

    Folha de S.Paulo
    9 de setembro de 2026 às 20:18
    Hormuz e seu regime jurídico internacional
    Cinco navios de diferentes tamanhos estão ancorados ou navegando em mar calmo com leve ondulação. O céu está claro e sem nuvens visíveis, criando um horizonte indistinto entre o mar e o céu. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Embarcações trafegam no estreito de Hormuz, perto da praia iraniana de Bandar Abbas - Majid Asgaripour - 25.ago.26/Reuters
    Embarcações trafegam no estreito de Hormuz, perto da praia iraniana de Bandar Abbas - Majid Asgaripour - 25.ago.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Professor da Faculdade de Direito da USP

    O centro da geopolítica global volta-se para o estreito de Hormuz , uma das mais importantes rotas marítimas do planeta. Localizado entre o Irã e Omã , conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico e constitui a principal via de escoamento das exportações de petróleo e gás natural dos países do Golfo. Estima-se que cerca de um quinto do petróleo comercializado mundialmente atravesse diariamente o estreito.

    Com o agravamento das tensões entre Estados Unidos e Irã, Hormuz tornou-se o epicentro da disputa. O Parlamento iraniano autorizou o fechamento do estreito como resposta à escalada militar. Em sentido oposto, o presidente Donald Trump anunciou que os Estados Unidos assumiriam sua proteção e pretendiam cobrar uma taxa de 20% sobre as cargas transportadas para ressarcir os custos de segurança da rota.

    Estreito de Hormuz: crise afeta petróleo, fertilizantes e exportações do Brasil
    Estreito de Hormuz: crise afeta petróleo, fertilizantes e exportações do Brasil — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Muito além do conflito regional , essas ameaças repercutem mundialmente ao elevar o preço do petróleo , encarecer o transporte marítimo e afetar as cadeias globais de abastecimento, suscitando debate sobre a legitimidade dessas medidas e sua compatibilidade com o direito internacional.

    Foi justamente para impedir que corredores marítimos dessa natureza ficassem sujeitos à vontade unilateral dos Estados que a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, pautada em critérios geográficos, instituiu o regime da passagem em trânsito em seus dispositivos normativos. O tratado preserva a soberania do Estado costeiro sobre o mar territorial, mas impede que ela seja utilizada para obstruir a navegação internacional. Assim, Irã e Omã exercem jurisdição sobre o estreito, mas não podem impedir, suspender ou dificultar o trânsito contínuo e rápido de navios e aeronaves.

    Embora Irã e EUA não tenham ratificado a convenção, isso não significa que possam ignorar as regras aplicáveis ao estreito de Hormuz. O direito de passagem em trânsito decorre também do princípio da liberdade de navegação, consolidado pelo direito internacional consuetudinário e pela jurisprudência internacional. Trata-se de norma obrigatória, que vincula inclusive Estados não partes do tratado e cuja violação pode gerar responsabilidade internacional.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O direito internacional não apenas impede que o Irã cobre pela passagem em Hormuz, como também não autoriza qualquer outra potência a impor unilateralmente pedágios, tarifas ou cobranças sob o argumento de garantir a segurança da navegação, como pretende os EUA. Medidas dessa natureza são incompatíveis com o regime jurídico dos estreitos utilizados para a navegação internacional.

    O direito internacional não ignora a realidade dos conflitos armados. Em situações de guerra, outros regimes jurídicos, passam a disciplinar a condução das hostilidades. Ainda assim, a guerra não revoga o direito; ao contrário, torna sua observância ainda mais necessária. Quanto mais grave a crise internacional, maior o compromisso com as normas que limitam o uso da força.

    Embora as declarações dos Estados envolvidos possam aparentar legitimidade política, elas refletem interesses estratégicos, econômicos e militares. No caso de Hormuz, apesar da retórica contundente, medidas como o fechamento do estreito ou a imposição unilateral de tarifas encontram severas limitações práticas pelos impactos econômicos, energéticos e geopolíticos que produziriam, inclusive sobre os próprios Estados que as anunciam.

    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha
    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O estreito de Hormuz simboliza um dos maiores desafios da ordem internacional contemporânea: conciliar a soberania dos Estados com a proteção de interesses da comunidade internacional. Em momentos de tensão, preservar o regime da passagem em trânsito significa proteger não apenas uma rota estratégica, mas a própria ideia de que a sociedade internacional deve ser regida pelo direito.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/09/hormuz-e-seu-regime-juridico-internacional.shtml.

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    Embarcações trafegam no estreito de Hormuz, perto da praia iraniana de Bandar Abbas - Majid Asgaripour - 25.ago.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo

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