Hoje se elege um Congresso sem memória
Na coluna "A última eleição da Nova República" (30/9), publicada nesta Folha , Maria Hermínia Tavares observou que 2026 deve ser o último pleito disputado por Lula ( PT ), Ronaldo Caiado ( PSD ) e Geraldo Alckmin ( PSB ), os últimos políticos de projeção nacional que passaram pela Constituinte, e apontou os desafios que essa transição traz para a democracia. O Congresso Nacional também atravessa uma transição geracional, que muda profundamente a forma de fazer política. Leia mais (10/03/2026 - 22h00)

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Professora de ciência política na Universidade Federal do Paraná e pesquisadora do INCT ReDem (Representação e Legitimidade Democrática)
Na coluna "A última eleição da Nova República" (30/9), publicada nesta Folha , Maria Hermínia Tavares observou que 2026 deve ser o último pleito disputado por Lula ( PT ), Ronaldo Caiado ( PSD ) e Geraldo Alckmin ( PSB ), os últimos políticos de projeção nacional que passaram pela Constituinte, e apontou os desafios que essa transição traz para a democracia. O Congresso Nacional também atravessa uma transição geracional, que muda profundamente a forma de fazer política.
As eleições de 2014 foram as últimas com financiamento empresarial, sem fundo eleitoral , com coligações para eleição proporcional e sem cláusula de desempenho.

Os deputados eleitos naquele ano, que formaram a 55ª legislatura (2015-jan.2019), foram também os últimos a exercer um mandato inteiro com sessões presenciais no plenário e nas comissões, antes da flexibilização trazida pela pandemia, que se tornou permanente. Foi ainda o último mandato em que cada parlamentar integrava no máximo duas comissões permanentes, antes da explosão de vagas cumulativas e da desinstitucionalização do sistema de comissões.
A mudança mais profunda, porém, está no Orçamento . Foi essa legislatura que aprovou, em 2015, a emenda constitucional que tornou obrigatória a execução das emendas individuais dos parlamentares .
Até então, cabia ao Executivo decidir se as pagaria. Vieram depois as emendas de bancada impositivas , as "emendas Pix" e as emendas de relator , derrubadas pelo STF em 2022. Hoje, uma fatia expressiva do Orçamento discricionário é destinada diretamente por deputados e senadores às suas bases. Segundo a Câmara dos Deputados , a renovação foi de 47% em 2018 e de 39% em 2022. Cruzando dados abertos da Casa, 167 dos 513 deputados hoje em exercício já exerceram mandato na 55ª legislatura. Se a renovação de 2026 repetir a de 2022, cerca de cem deles voltarão: só 1 em cada 5 deputados da próxima legislatura. Em outras palavras, 4 em cada 5 deputados nunca terão cumprido um mandato inteiro presencial; não terão conhecido um sistema de comissões permanentes consolidado; nem emendado um Orçamento cuja execução dependesse do aval do Executivo.

Com tanto dinheiro distribuído por emendas, seria de esperar que o Congresso ganhasse em popularidade, mas não é isso que vemos nas pesquisas de opinião. Os parlamentares ganharam popularidade local, mas o Legislativo não se fortaleceu como instituição. A história é sempre a mesma: "O Congresso é todo muito ruim, menos a minha deputada/o meu senador, que é excelente". É preciso lembrar que, fora as emendas individuais, não há absolutamente nada que um parlamentar possa aprovar sozinho no Congresso. Ainda assim, do ponto de vista eleitoral, o novo Parlamento tem cada vez mais incentivos para comportamentos localistas e fragmentados. Cabe ao eleitor, mais do que nunca, escolher congressistas com preocupações nacionais, que atuem coletivamente, não escondam seu partido, aceitem debates profundos e se comprometam com projetos claros e exequíveis para o país.
Este domingo (4) é um dos raros momentos em que a vontade do povo se impõe, mesmo com incentivos tortos e em um momento delicado. Votemos com a consciência de que cabe a nós priorizar projetos e ideias e não personalidades e localismos.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/10/hoje-se-elege-um-congresso-sem-memoria.shtml.

Plenário da Câmara dos Deputados durante a cerimônia de reabertura dos trabalhos legislativos - Pedro Ladeira - 2.fev.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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