Brasil

    Heterodoxia econômica não é terraplanismo

    Há críticas econômicas que ajudam a qualificar o debate público. Outras revelam o quanto o debate brasileiro ainda está preso a velhos dogmas. Ao associar a heterodoxia ao terraplanismo sanitário, como fez o editorial "É urgente recolocar as contas públicas nos trilhos" (15/8), esta Folha recorre a uma caricatura que não contribui para compreender os problemas econômicos do país. Leia mais (09/01/2026 - 22h00)

    Folha de S.Paulo
    2 de setembro de 2026 às 01:00
    Heterodoxia econômica não é terraplanismo
    Cartaz de cartão postal de arte de colagem de foto criativa 3d de pensamento de homem de espírito melhorar o orçamento de aumento isolado no fundo da pintura. — Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos​

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    Ilustração de Deagreez
    Ilustração de Deagreez — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Professor de economia da UnB (Universidade de Brasília)

    Professor de economia do IE/UFRJ (Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro)

    Há críticas econômicas que ajudam a qualificar o debate público. Outras revelam o quanto o debate brasileiro ainda está preso a velhos dogmas. Ao associar a heterodoxia ao terraplanismo sanitário, como fez o editorial "É urgente recolocar as contas públicas nos trilhos" (15/8), esta Folha recorre a uma caricatura que não contribui para compreender os problemas econômicos do país.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A heterodoxia não representa a negação da ciência econômica, mas uma tradição intelectual que inclui Keynes, Kalecki, Schumpeter, estruturalistas latino-americanos e pós-keynesianos. Suas ideias integram pesquisas sobre crescimento, estabilidade financeira, desigualdade e transformação produtiva. Aquilo que o editorial apresenta como "velharias" está longe de ter sido abandonado por governos ao redor do planeta.

    Tome-se a gestão dos fluxos de capitais . Durante décadas, a liberalização financeira foi apresentada como caminho natural para economias emergentes. A experiência mostrou, porém, que esses fluxos podem ser voláteis e provocar fortes movimentos, com consequências sobre inflação, endividamento e atividade econômica.

    O próprio FMI reconhece, em seu "Integrated Policy Framework", a possibilidade de utilizar medidas de gestão dos fluxos de capitais em certas circunstâncias. Isso não significa defender controles indiscriminados, mas reconhecer que a abertura financeira não é um fim em si mesma e que países sujeitos a choques externos precisam administrar riscos.

    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha
    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Na política cambial , em economias com estruturas produtivas pouco diversificadas, uma moeda persistentemente apreciada tende a prejudicar a indústria e estimular a especialização em produtos primários. O debate sobre a " doença holandesa ", a competitividade industrial e a restrição externa está longe de ser uma relíquia. Os modelos de crescimento com restrição externa associados a Anthony Thirlwall continuam fundamentais para compreender os limites externos do crescimento das economias em desenvolvimento.

    Enquanto isso, as economias avançadas voltaram a recorrer à política industrial . Estados Unidos e União Europeia mobilizam recursos públicos para semicondutores, energia limpa, infraestrutura e tecnologias estratégicas. O "Inflation Reduction Act" e o "Chips Act" evidenciam o papel estratégico do Estado diante da competição tecnológica. É difícil, portanto, sustentar que política industrial, planejamento econômico e intervenção estatal pertençam ao passado.

    Isso não significa tratar a heterodoxia como um bloco homogêneo. Ela deve ser submetida ao mesmo escrutínio crítico que qualquer outra corrente. Existem divergências sobre política fiscal, juros, câmbio e desenvolvimento. Da mesma forma, o apoio de parte dos economistas desenvolvimentistas e heterodoxos ao governo Lula não implica adesão incondicional.

    Esse apoio se sustenta na defesa da democracia no país e das instituições e na oposição ao neoliberalismo radical, associado à financeirização predatória, à erosão dos direitos sociais e à desindustrialização. Trata-se de apoio crítico: reconhecer avanços sociais e na retomada do planejamento produtivo não impede apontar problemas na condução macroeconômica, como juros reais extremamente elevados, metas fiscais rígidas e a dificuldade de enfrentar interesses rentistas.

    O debate deveria, portanto, ser outro. Em vez de rótulos —"terraplanistas" de um lado, supostos "modernos" de outro—, seria mais produtivo discutir quais instituições e políticas podem conciliar estabilidade macroeconômica, crescimento, transformação produtiva e redução da desigualdade.

    A volta da política industrial, a gestão dos fluxos financeiros e a atuação estatal na transição verde mostram que antigas certezas foram revistas.

    No Brasil, o desafio não é escolher entre dogmas concorrentes, mas superar tanto o voluntarismo quanto o fundamentalismo de mercado. A economia não precisa de cloroquina —precisa de debate intelectual à altura de sua complexidade. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/09/heterodoxia-economica-nao-e-terraplanismo.shtml.

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