Brasil

    Há 70 anos, o menino que buscava cigarros marcou o primeiro de seus 1.283 gols

    Pelé estreou no Santos e começou a mostrar que poderia ser mais do que um comprador de fumo para os companheiros

    UOL
    7 de setembro de 2026 às 03:00
    Há 70 anos, o menino que buscava cigarros marcou o primeiro de seus 1.283 gols
    Foto: UOL

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    Não era uma partida considerada importante do Santos , que defendia em 1956 o título paulista de 1955. A imprensa tratou até com surpresa o fato de o técnico Lula ter usado a formação principal em um amistoso contra o Corinthians Futebol Clube, de Santo André, também chamado de Corinthinha.

    O menino Pelé, em um de seus primeiros dias no Santos, em 1956; aos 15 anos, chamava a atenção pela educação e era visto como muito tímido - Divulgação · Divulgação
    O menino Pelé, em um de seus primeiros dias no Santos, em 1956; aos 15 anos, chamava a atenção pela educação e era visto como muito tímido - Divulgação · Divulgação — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Mas foi naquele 7 de setembro que Pelé estreou pelo time adulto alvinegro e deu início à sua lista de 1.283 gols . No bairro da Vila Alzira, em Santo André, aos 15 anos, 10 meses e 15 dias, o menino entrou no segundo tempo e deixou sua marca na vitória por 7 a 1 , no estádio Américo Guazzeli, que já não existe mais.

    O próprio Edson Arantes do Nascimento nunca tratou aquela jornada como uma das maiores de sua gigantesca carreira. Mas Zaluar, o goleiro do Corinthinha, o Galo Preto da Vila Alzira, depois começou a andar munido de um cartão de visitas com a inscrição "Zaluar – Gol de Rei Pelé – 001".

    Como era comum na época, o amistoso valia uma taça, o Troféu Independência –em referência à data de sua realização, em que se comemorava a independência do Brasil em relação a Portugal. Os relatos do jogo são inconsistentes quanto ao público e o desenrolar das ações, porém não há dúvida de que Pelé tenha entrado no segundo tempo e marcado o sexto gol da formação alvinegra.

    Grandes momentos de Pelé no futebol
    Grandes momentos de Pelé no futebol — Foto: UOL · Fonte: UOL

    "No lance do gol, o Hélvio, do Santos, tirou de cabeça. A bola sobrou no meio-campo, dei o combate no Pelé, mas tomei o drible. Ele passou pelo Zico, pelo Dati, nosso defensor, e tocou na saída do Zaluar", relatou anos depois Schank, que vestia a camisa do Corinthinha naquele dia, embora haja versões diferentes.

    O mesário Nelson Cerchiari chegou a registrar o tento com autoria de Raimundinho –outro que entrou na etapa final– e fez a correção 13 anos depois, quando o verdadeiro autor do gol já estava perto do tricampeonato mundial pela seleção brasileira.

    Antes disso, Pelé era tratado com frequência por outro apelido, Gasolina. E, ainda que obviamente talentoso, chamava mais a atenção pelos bons modos com os companheiros mais velhos –e com a dona Georgina, da pensão em que vivia em Santos– do que propriamente pelo futebol que encantaria o mundo.

    Vista aérea da sede do Corinthians Futebol Clube, de Santo André; a imagem de 2020 mostra que o estádio propriamente dito não existe mais e foi substituído por quadras de futebol de 7 e um campo de futebol sem dimensões oficiais - Bruno San
    Vista aérea da sede do Corinthians Futebol Clube, de Santo André; a imagem de 2020 mostra que o estádio propriamente dito não existe mais e foi substituído por quadras de futebol de 7 e um campo de futebol sem dimensões oficiais - Bruno San — Foto: UOL · Fonte: UOL

    "Era um menino extremamente educado, incapaz de responder mal para qualquer pessoa. Era sempre ‘bom dia’, ‘por favor’, ‘sim, senhor’, ‘não, senhor’, ‘muito obrigado’. Isso fez com que conquistasse muita gente, e todo o mundo gostava dele", disse, em depoimento de 2007, Urubatão, um dos colegas do jovem naquele time alvinegro dos anos 50.

    Era comum que os jogadores experientes, como Hélvio e Vasconcelos, acionassem o garoto para tarefas como comprar cigarros. O que ele fazia sem cerimônia, enquanto treinava para desenvolver habilidades como um melhor chute de pé esquerdo.

    "Quando chegou, o Pelé chutava mal com a esquerda. Isso quando chutava. Ele começou a treinar, melhorar e algum tempo depois era tão bom com a esquerda quanto era com a direita", disse o ponta-esquerda Pepe à Folha.

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    0 — Foto: UOL · Fonte: UOL

    O jovem de Três Corações só entrou naquele amistoso com o Corinthians de Santo André porque era um jogo sem importância. Mas o adolescente se tornaria peça importante no Santos em 1957, chegou à seleção e, em 1958, já era chamado de "rei".

    "De repente, aconteceu Pelé" , observou o escritor Ruy Castro. Segundo ele, foi em uma vitória por 5 a 3 do Santos sobre o tradicional America, do Rio de Janeiro, que o menino Edson, chamado de Dico, Gasolina, Bilé, Pelé, Telé (parte dos jornais registrou assim sua estreia), tornou-se precocemente o Rei.

    A coroa, como se convencionou relatar por décadas, foi colocada na cabeça do mineiro após o triunfo do Brasil na Copa de 1958, em texto da revista francesa Paris Match. Mas, em fevereiro daquele ano, portanto antes do Mundial, após o referido triunfo sobre o America, o cronista e dramaturgo Nelson Rodrigues se fez profeta do óbvio .

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    "Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: – a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola, e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento", escreveu Nelson, na Manchete Esportiva.

    A "majestade dinástica" descrita por Rodrigues se comprovou. Antes, há 70 anos, entre um e outro cigarro buscado para os companheiros, houve um gol de menino educadíssimo contra o Corinthinha de Santo André, na Vila Alzira.

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    Ilustração para Comparador de Jogadores da Copa do Mundo 2026 — Foto: UOL · Fonte: UOL

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2026/09/ha-70-anos-o-menino-que-buscava-cigarros-marcou-o-primeiro-de-seus-1283-gols.shtml.

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    O menino Pelé, em um de seus primeiros dias no Santos, em 1956; aos 15 anos, chamava a atenção pela educação e era visto como muito tímido - Divulgação · Divulgação — Foto: UOL

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