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    Gustavo Scarpa mostra que literatura é prazer e emoção igual ao futebol

    Um homem está perto de morrer e usa seu tempo para pensar em como foi a própria vida. Nem todos ao seu redor lamentam a sua morte ou glorificam os seus esforços: há um amor duvidoso, muito cinismo, egoísmo e outras emoções humanas pouco louváveis. Leia mais (09/22/2026 - 19h13)

    Folha de S.Paulo
    22 de setembro de 2026 às 22:13
    Gustavo Scarpa mostra que literatura é prazer e emoção igual ao futebol
    Homem jovem com cabelo cacheado e camiseta marrom com listras brancas está sentado em cadeira de escritório. Atrás dele, pôster do Coliseu romano na parede. À direita, prateleiras com livros e guitarra branca apoiada na mesa. — Foto: Folha de S.Paulo

    Jornalista e doutora em estudos da literatura, é autora de 'A Cabeça do Santo' e 'Oração para Desaparecer'

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    O escritor russo Liev Tolstói em 1897 - Wikimedia Commons/Reprodução · Wikimedia Commons/Reprodução
    O escritor russo Liev Tolstói em 1897 - Wikimedia Commons/Reprodução · Wikimedia Commons/Reprodução — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Um homem está perto de morrer e usa seu tempo para pensar em como foi a própria vida. Nem todos ao seu redor lamentam a sua morte ou glorificam os seus esforços: há um amor duvidoso, muito cinismo, egoísmo e outras emoções humanas pouco louváveis.

    Que cenário desolador! Lutar tanto, viver tanto e no fim ser apenas um amontoado de carne e osso cujo fim é aguardado com ansiedade pelos seus pares. Quem são, afinal, as pessoas que viveram comigo? Sou amado, fui amado?

    Essas perguntas são do Ivan Ilitch, que alívio, não são minhas nem suas. Mas poderiam ser. Ele é o protagonista do livro " A Morte de Ivan Ilitch ", publicado por Liev Tolstói em 1886 e que chegou à lista de mais vendidos no Brasil em 2026 graças a um jogador de futebol .

    Gustavo Scarpa faz resenha de um livro em vídeo em suas redes sociais - Reprodução · Reprodução
    Gustavo Scarpa faz resenha de um livro em vídeo em suas redes sociais - Reprodução · Reprodução — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Gustavo Scarpa , o Scarpinha, gosta de andar de skate, jogar xadrez e ler. É desses assuntos que ele trata nos vídeos do seu canal no YouTube, só pelo prazer de falar do que ama. Sem pretensão de nada.

    Narra o clássico de Tolstói como se contasse a história de um vizinho, de um tio distante, um cara qualquer da rua. Erra a pronúncia dos nomes próprios dos personagens, pois ninguém é obrigado a saber russo, usa o seu repertório de percepções para dizer o que achou da leitura. E pronto. Deixou todo mundo com vontade de ler.

    Nesse gesto tão espontâneo está o cerne de algo importante: a literatura pode e deve ser prazer e felicidade, às vezes tristeza que passa, às vezes emoção descontrolada. Igual ao futebol.

    Gustavo Scarpa em partida do Atlético Mineiro, na Arena MRV, em Belo Horizonte - Douglas Magno - 16.set.26/AFP · Douglas Magno - 16.set.26/AFP
    Gustavo Scarpa em partida do Atlético Mineiro, na Arena MRV, em Belo Horizonte - Douglas Magno - 16.set.26/AFP · Douglas Magno - 16.set.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O Gustavo Scarpa atua como meio-campista. Eu não sei o que é isso. Também não sei explicar o que é impedimento, tiro de meta, escanteio. Mas gosto de ver um bom jogador em campo, o rosto da torcida, a catarse coletiva.

    Ninguém precisa estudar letras, saber russo, ter feito faculdade, ou sei lá quais credenciais para gostar de literatura como leitor apaixonado. Botar os olhos em um texto e deixar o tempo passar entre as palavras, isso é para todos. Deve ser para todos.

    E não há discurso de sedução mais eficaz do que fazer o que o Scarpa tem feito, dividir com o mundo um prazer da sua vida. Todo mundo sai ganhando se tivermos um Brasil leitor, cada vez mais leitor.

    Homem idoso com barba longa e branca, usando roupa escura e gorro, sentado em banco de madeira em área externa com árvores ao fundo.
    Homem idoso com barba longa e branca, usando roupa escura e gorro, sentado em banco de madeira em área externa com árvores ao fundo. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    De vez em quando eu vejo alguém dizendo que, quando um livro vende muito, certamente é um texto fraco e fácil. E agora? O que essas pessoas estarão dizendo ao ver Tólstoi no topo dos mais vendidos? Esse preconceito tem um cheiro ruim de arrogância, talvez de inveja. É até cafona.

    Cá estou eu, fã assumida de um jogador de futebol. Inclusive virei atleticana. Sou Galo e estou a caminho de Minas Gerais para receber minha camisa oficial do Atlético, meu nome e o número 13 nas costas. Foi um presente do Eduardo de Ávila e do Sérgio Coelho, presidente do clube. Por causa disso tudo, a torcedora Carolina Marques criou o Galeitura , um clube do livro inspirado nas indicações do Gustavo Scarpa.

    Imagine só chegar ao leito de morte como Ivan Ilitch e pensar: eu amei muito, eu li muito, tive uma vida sensacional. É o que todos queremos dizer quando chegar o dia. Que demore muito.

    Jogador do Atlético Mineiro com faixa amarela na cabeça comemora com o punho cerrado e boca aberta durante partida de futebol, vestindo camisa listrada preta e branca com patrocínio visível.
    Jogador do Atlético Mineiro com faixa amarela na cabeça comemora com o punho cerrado e boca aberta durante partida de futebol, vestindo camisa listrada preta e branca com patrocínio visível. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Enquanto estivermos vivos, vamos ler e disseminar a alegria que os livros podem nos proporcionar. Uma boa história e um gol bonito fazem muito bem ao coração. Se for gol do Atlético, melhor ainda.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/socorro-acioli/2026/09/gustavo-scarpa-mostra-que-literatura-e-prazer-e-emocao-igual-ao-futebol.shtml.

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    O escritor russo Liev Tolstói em 1897 - Wikimedia Commons/Reprodução · Wikimedia Commons/Reprodução — Foto: Folha de S.Paulo

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