Guerra santa é apenas sintoma do vale-tudo da política de um país sob ameaça de golpes
A eleição para presidente de 2010 teve "guerra santa". Era um indício de que o caldo político começava a azedar. A gente não sabia então que se tratava do começo do caminho para o fim da picada. Leia mais (09/30/2026 - 20h25)

Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA)
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

A eleição para presidente de 2010 teve "guerra santa". Era um indício de que o caldo político começava a azedar. A gente não sabia então que se tratava do começo do caminho para o fim da picada.
Uma campanha odienta, início de desarranjo econômico, mudança institucional quase parando e corrupções eram problemas, mas talvez transitórios —até para um pessimista. A "guerra santa" de 2026 é aspecto menor do buraco em que nos metemos.
Dilma Rousseff ( PT ) foi chamada de "abortista" na campanha de 2010. Anos antes, dissera que a interrupção voluntária da gravidez era assunto de saúde pública. A campanha de José Serra ( PSDB ) se valeu do rótulo que ajudou a carimbar na adversária.

Sacerdotes católicos distribuíam panfletos ou faziam sermões contra o aborto. Havia correntes de e-mails sobre o assunto. Perto do que se vê hoje, parecia até querela teológica.
A campanha de Dilma na TV passou a ressaltar a "formação moral e religiosa" dela. Serra fazia caminhada com padres e beijava terços. No segundo turno, Dilma e Serra foram a Aparecida. Serra dizia que o PSDB não inventara a "questão religiosa" na eleição; que o governo do PT havia criado suspeitas ao aprovar o Terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos (de 2009), prato cheio para conservadores e oportunistas, além de cheio de disparates de fato.
Na "guerra santa" de 2026, uma mentira diz que Flávio Bolsonaro ( PL ) apoiaria um projeto para tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil . No mais, é verdade que rumores exploram o fato de que certos grupos evangélicos, alguns aliados do bolsonarismo, fazem campanha contra a igreja católica e suas formas de culto (e contra o candomblé e a umbanda também). Lulistas são acusados de instigar conflito religioso a fim de tirar voto do adversário, assim como bolsonaristas. É verdade.
O comentarismo observa a suposta ironia da situação, de bolsonaristas "provarem do próprio veneno" das " fake news " —é verdade. Condena lulistas dizendo que não existem "fake news" do bem —é verdade. Mas é parte pequena da verdade saber quem prova qual veneno ou começou a usar gás mostarda nas trincheiras. O que não implica dizer que a balança da desrazão está equilibrada. Jair Bolsonaro colocou Deus acima de tudo no seu mote político , fez da propaganda e da mentira digitais o núcleo de seu movimento político. Presidente, dizia que haveria eleição apenas de acordo com sua vontade e tentou um golpe.
Importante é que o padrão da disputa política se tornou o vale-tudo. Quem ignorar as novas regras do jogo se arrisca a perder a eleição , voto do Supremo ou as graças podres do Congresso. Não se trata de dizer que "bonzinhos" apenas reagem, essa conversa infantil. Trata-se de atitude que transforma instituições em esqueleto sem carne e sem medula. Daqui a pouco, pode ser que nem mais esqueleto exista.
Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes.
O vale-tudo foi a tônica da República até a Constituição de 1988. Sempre haverá quem queira esticar a corda. Mas, com boa vontade, se pode dizer que houve alguma contenção de 1992 (impeachment de Collor) a 2014.
Vale-tudo haverá até que a selvageria perca eficácia, o que é difícil de acontecer sem reconstrução política. Isto é, forças sociais que criem ou influenciem movimentos e partidos políticos que reajam ao projeto de destruição institucional e democrática, o que não está no horizonte. "Guerra santa" é pouco. É outro sintoma de coisa muito pior.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/viniciustorres/2026/09/guerra-santa-e-apenas-sintoma-do-vale-tudo-da-politica-de-um-pais-sob-ameaca-de-golpes.shtml.

Candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) segura uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida durante visita ao Mercado Municipal, em São Paulo - Bruno Santos - 28.set.26/Folhapress · Bruno Santos - 28.set.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
Compartilhe
Espalhe essa notícia

