Guerra religiosa entre católicos e evangélicos influencia campo onde a fé não deveria interferir
Para evangélicos, decretar que

Contextualiza um acontecimento e aprofunda a compreensão de seus diversos ângulos
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Católicos e evangélicos têm protagonizado uma eleição no Brasil com tons de guerra religiosa . Para quem pertence a uma dessas religiões, não é estranho o tom de provocações veladas que tenta medir quem é mais santo entre os escolhidos. Ao vir à tona a fala de Flávio Bolsonaro dizendo que, se eleito, "decretaria o Brasil para Cristo" , a disputa religiosa ganhou ares de campanha eleitoral e está prestes a impactar o futuro de um Estado em que fé nenhuma deveria interferir.
Quem frequenta a igreja evangélica já declarou centenas de vezes que "Jesus é o Senhor do Brasil". A afirmação, que pode vir em variações como "decretar que Jesus é padroeiro do país", é comum em grandes congressos e conferências cristãos.
Para a fé evangélica, decretar é ligar no céu para que seja ligado na terra. Em diversas versões da Bíblia usada pelos protestantes (que é diferente da católica), o conceito de decretar significa determinar com autoridade ou estabelecer uma palavra de poder que move o reino espiritual. O termo aparece em traduções populares do livro sagrado, como a tradicional Almeida Revista e a Nova Tradução na Linguagem de Hoje.

No capítulo 18 do livro de Jeremias, é possível entender como se aplica. A passagem retrata uma palavra enviada por Deus ao povo de Judá por meio do profeta Jeremias.
Nos versículos 7 a 10, ele adverte: "Se em algum momento eu decretar que uma nação ou um reino seja arrancado, despedaçado e arruinado, e se essa nação que eu adverti converter-se da sua perversidade, então eu me arrependerei e não trarei sobre ela a desgraça que eu tinha planejado. E, se noutra ocasião eu decretar que uma nação ou um reino seja edificado e plantado, e se ele fizer o que eu reprovo e não me obedecer, então me arrependerei do bem que eu pretendia fazer em favor dele" (NVI).
Para os cristãos, Deus é espírito. E Jeremias era um homem comum perante a sociedade, um profeta perante a fé. Portanto, o decreto não tinha poderes políticos materiais, mas espirituais. Trata-se da mesma lógica aplicada em Mateus 16:19, que diz: "O que ligardes na terra será ligado nos céus (ARC).

Se ainda for considerada a passagem segundo a qual "feliz é a nação cujo Deus é o Senhor", escrita em Salmos 33:12, determinar Jesus como Senhor do Brasil é tomar posse da felicidade prometida àqueles que o seguem. Por isso, para um evangélico , essa afirmação nada tem de alarmista —pelo contrário, abençoaria o país.
A questão começa a tomar contornos de alerta entre católicos quando a busca dos evangélicos por essa bênção passa a ser percebida como uma forma de provocação. A idolatria, vista como pecado para ambos os grupos religiosos, é interpretada de formas diferentes entre eles . Para os protestantes, só Deus é Santo. Para os católicos, existem santos na terra, que iluminam o caminho ao Pai.
É aí que entra Maria, vista como uma mulher abençoada pelo Espírito Santo e mãe de Jesus pelos evangélicos, e reverenciada como Santa Mãe do Senhor pelos católicos.

Nesse contexto, o ato de decretar Jesus, não Maria, como padroeiro do país, pode ser tido como uma forma de enfraquecer simbolicamente a fé católica da influência sobre a nação. Na corrida entre os escolhidos, a ação ainda reforçaria a luta evangélica contra o que vê como a "idolatria católica" —uma vez que seu país teria como único padroeiro Jesus.
Para completar o cenário de conflito santo, a promessa de estabelecer a supremacia da fé evangélica foi proferida por um candidato à Presidência —que, caso eleito, teria em mãos artifícios para tomar ações físicas, no mundo material.
Além de afrontar a fé católica e a hegemonia dela sobre a história brasileira, a ação estabeleceria a prevalência da religião do então presidente, o que em um país laico, alarmaria inclusive os não religiosos.

Em nota à Folha , a campanha de Flávio Bolsonaro disse que ele pretende fazer " uma oração antes de ler o termo de posse" caso assuma a Presidência da República, "entregando o Brasil a Jesus Cristo, numa ação simbólica de agradecimento e também como um pedido de proteção e benção para todos os brasileiros". Se for isso, estará dentro da liberdade religiosa. Mas, em se tratando de um Estado laico, cabe a toda a população questionar: não está na hora de separar a fé da política?
A todos os cristãos, a Bíblia diz: Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus (Mateus 22:21).
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/09/guerra-religiosa-entre-catolicos-e-evangelicos-influencia-campo-onde-a-fe-nao-deveria-interferir.shtml.

Imagem de Nossa Senhora Aparecida durante missa na Basílica de Aparecida, em 2025 - Rubens Cavallari - 12.out.25/Folhapress · Rubens Cavallari - 12.out.25/Folhapress — Foto: UOL
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