Brasil

    Guerra e festa

    Claro que a oposição mais comum no nosso imaginário é "guerra e paz" . Tanto por Tolstói quanto pela ideia de que, se não há guerra, estamos em paz. Há dois problemas nessa ideia. Primeiro, paz é um conceito complexo e, mesmo quando não há guerra, é difícil definir um estado mental ou geopolítico que pudesse retratar um estado de apaziguamento. Segundo, porque, mesmo em termos concretos, paz não existe. Nunca existiu na história. Agora, por exemplo, parece que há nada menos que 120 guerras no mundo, contando conflitos entre países e entre facções armadas. Leia mais (08/17/2026 - 22h00)

    Folha de S.Paulo
    18 de agosto de 2026 às 01:00
    Guerra e festa
    Duas mãos abertas seguram um pequeno esqueleto humano. As mãos são recortadas do fundo, que contem as cores da bandeira Palestina: verde, vermelho e preto — Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos​

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    Ilustração de Bruna Barros - Folhapress · Folhapress
    Ilustração de Bruna Barros - Folhapress · Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Psicanalista e palestrante, é autora de ‘Lupa da Alma’ e ‘Coisa de Menina?’ e ‘Coisa de Menino?’ (com Contardo Calligaris)

    Claro que a oposição mais comum no nosso imaginário é "guerra e paz" . Tanto por Tolstói quanto pela ideia de que, se não há guerra, estamos em paz. Há dois problemas nessa ideia. Primeiro, paz é um conceito complexo e, mesmo quando não há guerra, é difícil definir um estado mental ou geopolítico que pudesse retratar um estado de apaziguamento. Segundo, porque, mesmo em termos concretos, paz não existe. Nunca existiu na história. Agora, por exemplo, parece que há nada menos que 120 guerras no mundo, contando conflitos entre países e entre facções armadas.

    Penso que "guerra e festa" seria uma oposição mais útil. Temos aí duas formas distintas de se relacionar com o outro. Na guerra, o objetivo é destruir o inimigo, obliterar. Na festa, o objetivo é extrair prazer da sua presença. Já partimos de lugares mentais diferentes, até para considerar como avaliamos esse outro. Na guerra, só a cara, a comida e a religião do inimigo já são insuportáveis. Se é uma feira de negócios, e ele mostra seu lado rico e poderoso, vira bonito e interessante. Pense em Gaza e nas propagandas de turismo chique da Arábia Saudita. Pense nas periferias latino-americanas e nas propagandas de grandes festas populares, do México a Ushuaia, na Argentina.

    Confira momentos da Flip 2026
    Confira momentos da Flip 2026 — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Comecei a pensar nisso refletindo sobre a engrenagem prática e mental que é uma Copa do Mundo . Países se organizam para uma coisa mais original que a guerra: colocar "xis" pessoas correndo para colocar uma bola em certo lugar. E, o mais inusitado, arrastar nesse movimento bilhões de pessoas e bilhões de dólares. Nada como o poder do jogo, que é sempre a mimese da guerra.

    Claro, sou e não sou ingênua. A Copa e a indústria do futebol têm muito dinheiro e, portanto, muita roubalheira. Têm líder vendido e líder comprado. Têm essa coisa absurda na manipulação dos sonhos pueris humanos chamada bets . Que, por sua vez, dá muito dinheiro para clubes e algumas poucas pessoas. Têm gol de mão, de pé, de lado. Têm virada confiante, têm recuo medroso. Têm de tudo.

    Mas é sensacional você ver a história do mundo e de uns três séculos de colonização branca, cristã e europeia estar estampada numa seleção mestiça, ecumênica, global. Ou a mistura de gente que hoje é, na prática, Oriente e Ocidente ou norte e sul. (Além do "Sul Global", o conceito de metáfora mais fina do momento).

    'A Odisseia' é adaptação épica para texto de Homero
    'A Odisseia' é adaptação épica para texto de Homero — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Essa mistura, que dilui conceitos clássicos de norte e sul, Oriente e Ocidente, centro e periferia, está na seleção francesa, inglesa ou espanhola, para falar nos grandes impérios do passado. E vale também para a nossa, em que garotos dos rincões do Brasil, que ralaram desde criança, hoje amam repaginar o rosto e deixar o barco em Mônaco.

    De qualquer forma, está lá todo mundo brigando por status, falta ou gol. Não se matando de verdade. É uma "Copa-festa" do Mundo e não uma guerra mundial. Mesmo que seja uma festa do mundo privilegiado (uma das causas reais da guerra? Tópico para o futuro).

    Guerra e festa. Esse insight ficou mais claro na Flip , a Festa Literária Internacional de Paraty . Aí não era festa do corpo, mas do espírito. Claro, espírito sempre regado a festas, álcool e demais corporeidades.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Debates de ideias e muitos livros no ar. Foi a maior Flip, contando a programação oficial e paralela, que somou este ano cerca de mil mesas. Assim como no Mundial, um lindo esforço humano de curadoria e organização para colocar no mesmo espaço pessoas que querem ler e pensar. Não odiar e destruir.

    Depois da Flip, fui à Rio Innovation Week . Em outro estilo, também uma festa. Também milhares de pessoas em um lindo cenário, sob as luzes da baía de Guanabara. Desta vez, com interesses mais explícitos de inovação , pensamento e negócios.

    Acho que as pessoas estão ficando mais conscientes de que a guerra é uma coisa de outra época. E hoje a serviço de poucos. Antes, os recursos eram bem mais escassos. Hoje, o grande herói olha para trás e fica culpado da destruição que causou e da enganação da vitória. Até o Ulisses de Christopher Nolan sabe disso.

    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha
    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Quem não sabe que escoar as pulsões destrutivas, via artes do corpo, e curar as ideias erradas, via artes da palavra, são os únicos caminhos para destruir menos?

    Recursos e energias não faltam. Terras e mares não faltam. Comida e dinheiro, aliás, sobram e são acumulados em todo tipo de fundo. Ou de saco sem fundo.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/08/guerra-e-festa.shtml.

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