Grupo paulistano tenta salvar sede cultural ameaçada em Heliópolis
Com uma trajetória consolidada de 15 anos na cena paulistana, o coletivo Impacto Agasias enfrenta a sua mais severa encruzilhada de sobrevivência. A Casa Cultural Alcântara Sampaio, inaugurada pelo grupo em 2021 no bairro de São João Clímaco, na região de Heliópolis , corre o risco iminente de encerrar as atividades em definitivo até o final de setembro de 2026. Leia mais (08/19/2026 - 07h00)

O teatro e seus fazedores, por Andre Marcondes
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Fachada da Casa Cultural Alcântara Sampaio - Jack Oliveira / Divulgação
Com uma trajetória consolidada de 15 anos na cena paulistana, o coletivo Impacto Agasias enfrenta a sua mais severa encruzilhada de sobrevivência. A Casa Cultural Alcântara Sampaio, inaugurada pelo grupo em 2021 no bairro de São João Clímaco, na região de Heliópolis , corre o risco iminente de encerrar as atividades em definitivo até o final de setembro de 2026.
O caso expõe um gargalo crônico que asfixia o teatro de grupo periférico na capital: a dependência de mecanismos de fomento submetidos a sucessivos atrasos e lentidão administrativa do poder público , combinada à resistência do circuito hegemônico em ultrapassar as fronteiras do centro expandido.

Desde novembro do ano passado, o espaço opera sem recursos provenientes de editais públicos. Para manter as portas abertas e honrar um custo fixo que gira em torno de R$ 6 mil por mês —valor restrito a despesas básicas de infraestrutura, como aluguel, luz, água e internet—, os gestores do espaço vêm cobrindo os déficits com trabalhos paralelos, cachês de apresentações fora do território e reservas pessoais.
"É como se, neste momento, o Impacto Agasias precisasse trabalhar para sustentar não apenas o próprio grupo, mas também a Casa Cultural. Isso significa trabalhar o dobro, ao mesmo tempo em que cada um de nós continua tendo suas necessidades e despesas pessoais", explica Henrique Sanchez, lembrando que o trio de artistas já precisou adiar contas domésticas próprias para priorizar as obrigações da sede.
A permanência no imóvel está assegurada apenas até setembro graças a uma reserva financeira emergencial. A partir de outubro, no entanto, a manutenção da sede torna-se inviável sem novos aportes. O grupo relata que a asfixia decorre diretamente da morosidade nas esferas municipal e estadual, onde processos se arrastam com justificativas vagas sobre sobrecarga burocrática e carência de funcionários.

Lucas Becerra destaca que existe uma ilusão recorrente sobre a dinâmica do fomento público: "Como já fomos contemplados por editais importantes, como o Fomento ao Teatro e o Fomento à Cultura da Periferia , parece existir uma ideia de que deveríamos ter alcançado uma espécie de autossuficiência. Só que política pública cultural não funciona assim. Você recebe um recurso para executar determinado projeto, cumpre o plano de trabalho, realiza as contrapartidas e encerra aquele projeto. Isso não transforma automaticamente um grupo cultural em uma empresa com receita permanente".
Além do estrangulamento financeiro e do vácuo deixado por promessas parlamentares que não avançaram após períodos eleitorais, o coletivo denuncia o abismo entre a retórica acadêmica e a prática cotidiana do meio artístico. Durante a temporada de 24 apresentações gratuitas do espetáculo "Programa Akáshico", realizada em 2025, o grupo realizou um esforço coordenado para convidar críticos, jurados de premiações e formadores de opinião. A resposta predominante foi a recusa sob a justificativa de que Heliópolis seria "muito longe" ou "fora de mão".
"Começamos a nos perguntar: longe de onde? Longe de quem? Qual é o ponto de referência que determina o que é perto e o que é longe?", questiona Wallace Borges. Para ele, o contraste é evidente quando se observa que o público espontâneo da casa frequentemente inclui moradores de municípios como Guarulhos, Santos e Campinas. "Eu acredito profundamente que precisamos descentralizar a arte e torná-la acessível. Por isso é tão frustrante perceber que, algumas vezes, quem teoricamente estaria do nosso lado nesse debate não atravessa a cidade para conhecer o que está sendo produzido aqui", completa Borges.

O eventual fechamento da Casa Cultural Alcântara Sampaio ameaça interromper um histórico de mais de 120 atividades gratuitas que já atenderam mais de 10 mil espectadores na região. O espaço consolidou-se como um polo de acolhimento comunitário e formação, articulando parcerias com escolas públicas, turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA) e frentes contínuas de diversidade de gênero e sexualidade, a exemplo do Bate-Papo e Sarau LGBTQIA+ e da Vivência Drag.
"Ter uma drag queen montada num domingo à tarde, no nosso quintal, com o portão aberto para a rua, também é construir um imaginário. É dizer que esses corpos existem. Que pessoas LGBTQIA+ não existem apenas na noite, ou somente em espaços de militância", pontua Becerra, frisando o impacto de manter referências plurais dentro da própria vizinhança.
A perda física também colocaria em risco o acervo de 15 anos de memória teatral construída pelo grupo e a convivência dos quatro gatos adotados pelo coletivo — Dandara, Fubá, Sol e Santo Cristo —, batizados com os títulos de suas montagens consagradas.

Diante da urgência do calendário, os artistas organizam para o dia 29 de agosto a ação beneficente "Feijoada com Samba", na sede da rua Tamuatá, articulando cozinheiras e músicos voluntários da própria comunidade para arrecadar fundos via Sympla e garantir uma sobrevida ao espaço até o final do ano.
Para além da mobilização comunitária imediata, o grupo reforça que eventos de arrecadação não eximem o Estado de garantir políticas culturais contínuas e estruturais. "As pessoas precisam compreender que existe arte na periferia, e arte de qualidade, produzida continuamente. É preciso abandonar esse olhar de migalha sobre a produção periférica", conclui Sanchez, convocando o público da capital a quebrar as barreiras geográficas: "A arte não está somente no centro. A arte existe na periferia e resiste na periferia".
Feijoada com samba na Casa Cultural Alcântara Sampaio – Rua Tamuatá, 236, São João Clímaco. Data: 29 de agosto de 2026. Horário: Almoço das 11h às 16h; Roda de Samba das 14h às 16h. Ingressos em sympla.com.br
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/blogs/mise-en-scene/2026/08/grupo-paulistano-tenta-salvar-sede-cultural-ameacada-em-heliopolis.shtml.

Fachada da Casa Cultural Alcântara Sampaio - Jack Oliveira / Divulgação · Jack Oliveira / — Foto: Folha de S.Paulo
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