Greta Garbo entra no bar
Antes de Gilda, nunca houve uma mulher como Garbo. Bela como poucas, misteriosa e algo blasé, era uma das grandes estrelas do cinema mudo, senão a maior. Em 1930, a MGM anunciou, com estrondo, "Garbo fala!" A expectativa era alta. Diria coisas sublimes? Teria uma voz maviosa? Leia mais (09/15/2026 - 18h57)

Coluna é assinada pelo jornalista e tradutor Daniel de Mesquita Benevides
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Antes de Gilda, nunca houve uma mulher como Garbo. Bela como poucas, misteriosa e algo blasé, era uma das grandes estrelas do cinema mudo, senão a maior. Em 1930, a MGM anunciou, com estrondo, "Garbo fala!" A expectativa era alta. Diria coisas sublimes? Teria uma voz maviosa?
O filme em questão era "Anna Christie", baseado em peça de Eugene O’Neill, ganhador do Nobel . Seu papel era o de uma prostituta sueca que vive o amor proibido por um marinheiro.
Passados 15 minutos, ela finalmente abre a boca: "Garçom, me dá um uísque e uma garrafa de ginger ale, e não economize na dose, amigo". A voz é grave, a postura um tanto vulgar, o que está de acordo com o ambiente. Com senso de humor, o barman responde: "Quer que traga em um balde?". "Não seria má ideia", ela arremata para o bar vazio, decadente.

A frase entrou para a mitologia. Já estava no texto de O’Neill, assim como outros diálogos. O cenário foi inspirado num "saloon" frequentado pelo dramaturgo na região portuária de Nova York , chamado Jimmy the Priest, quando ele vivia de copo em copo, mais duro que uma pedra de gelo. Tomava rotgut whisky, um uísque de péssima qualidade, vendido por cinco "cents" a dose.
A esfinge sueca, como alguns a chamavam, iria beber melhor em outros filmes, com outro tipo de impacto. O mais conhecido deles é " Ninotchka ", comédia romântica de 1939, dirigida por Ernst Lubitsch, com roteiro de Billy Wilder e Charles Brackett. Ela interpreta uma rígida comissária soviética que vai a Paris e se vê seduzida pelos prazeres burgueses.
Ao servi-la com champanhe, um encantado Melvyn Douglas pergunta se ela prefere menos seco, ao que ela responde que a única vez que viu champanhe foi no batismo de um navio de guerra. Fora isso, cresceu tomando leite de cabra e a vodca distribuída pelo exército. (Os stalinistas não acharam a menor graça no filme, que foi proibido na URSS ).

Ela dá o primeiro gole, estranha um pouco, até que abre bem os olhos e diz: "Mas isso é bom!". E entorna a taça, para surpresa de seu cortejador. A partir daí as bolhas vão transformando sua seriedade cômica em alegria desenfreada. Dessa vez a propaganda do estúdio foi: "Garbo ri!"
Mas a fama não a fazia rir. Um dia resolveu se retirar do mundo dos flashes e fãs. Ficou marcada pela frase em "Grande Hotel": "Quero ficar sozinha". Participou de mais de 20 filmes e deixou a vida pública aos 35 anos. Era tímida, e há indícios de que sofria de depressão. Com o tempo, tornou-se um ícone queer.
Há duas variantes de coquetel com seu nome. A mais antiga é feita com Swedish Punsch, um licor muito popular na Suécia , espécie de rum açucarado. A outra é a que segue. A receita saiu pela primeira vez em 1948, no livro de David A. Embury, "Fine Art of Mixing Drinks", época em que o mundo ainda esperava que ela voltasse a falar.
Bata os ingredientes com gelo e coe para uma taça coupe. Decore com uma estrela de anis flutuando na superfície.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/daniel-de-mesquita-benevides/2026/09/greta-garbo-entra-no-bar.shtml.

A atriz Greta Garbo - Reuters · Reuters — Foto: Folha de S.Paulo
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