Gravidez de gêmeos: por que saber se bebês dividem a placenta é importante
Saber se os gêmeos compartilham a placenta ajuda a definir os riscos e o acompanhamento durante a gestação. A ginecologista e obstetra Dra. Ana Paula Horovitz explica por que essa informação deve ser obtida ainda no primeiro trimestre e como ela pode mudar a condução do pré-natal

“São idênticos?” Essa provavelmente é uma das primeiras perguntas que os pais fazem quando descobrem que estão esperando gêmeos. Para o obstetra, entretanto, existe uma questão mais importante naquele momento: quantas placentas e quantas bolsas amnióticas existem? Essa informação permite classificar a chamada corionicidade e amnionicidade da gestação e ajuda a determinar, desde muito cedo, quais cuidados serão necessários.
Nem toda gravidez de gêmeos apresenta o mesmo risco. Há gestações dicoriônicas e diamnióticas, nas quais cada bebê possui seu próprio córion e sua própria bolsa amniótica; monocoriônicas e diamnióticas, quando os fetos compartilham a placenta, mas estão em bolsas separadas; e, mais raramente, monocoriônicas e monoamnióticas, nas quais compartilham tanto a placenta quanto a bolsa . Essa diferença anatômica modifica de maneira importante o acompanhamento da gravidez.
O melhor momento para estabelecer a corionicidade é no primeiro trimestre. As diretrizes atualizadas da International Society of Ultrasound in Obstetrics and Gynecology (ISUOG) recomendam que ela seja determinada antes de 13 semanas e 6 dias . Nessa fase, o ultrassom consegue identificar sinais característicos da membrana que separa os fetos e de sua relação com a placenta, permitindo uma classificação mais segura.

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Por isso, o ultrassom inicial de uma gestação gemelar não serve apenas para confirmar que existem dois bebês, verificar batimentos cardíacos ou estimar a idade gestacional. Ele fornece uma informação que pode determinar a frequência dos exames e o nível de vigilância durante os meses seguintes .
Também é importante desfazer uma confusão frequente. Gêmeos com placentas separadas podem ser fraternos ou idênticos, dependendo de como a gestação se originou. Já os gêmeos que compartilham uma placenta são, em regra, monozigóticos. Para a família, saber se são idênticos tem um significado afetivo e uma curiosidade compreensível. Para o pré-natal, saber se compartilham a circulação placentária tem implicações clínicas muito mais imediatas.

Nas gestações monocoriônicas, os dois fetos utilizam uma mesma placenta e podem existir conexões entre seus vasos sanguíneos. Na maioria das vezes, a gravidez evolui sem que essas comunicações provoquem complicações graves. Em uma parcela dos casos, porém, o equilíbrio entre as circulações pode se alterar.
A complicação mais conhecida é a síndrome de transfusão feto-fetal, na qual ocorre uma transferência desequilibrada de sangue entre os gêmeos. Um deles funciona como doador e passa a apresentar menor volume sanguíneo e redução do líquido amniótico, enquanto o receptor recebe volume excessivo e pode apresentar aumento importante do líquido e sobrecarga cardiovascular. A condição ocorre apenas em gestações que compartilham a placenta e exige identificação precoce, porque os casos mais graves podem necessitar de tratamento ainda durante a gestação.
Outra complicação é a sequência anemia-policitemia, conhecida pela sigla TAPS. Nesse caso, pequenas conexões vasculares permitem uma transferência crônica de sangue , levando um feto à anemia e o outro à policitemia, situação em que há concentração excessiva de glóbulos vermelhos. Há ainda a restrição seletiva do crescimento fetal, quando um dos gêmeos cresce menos, muitas vezes relacionada a uma distribuição desigual da placenta.

Essas condições ajudam a explicar por que não basta dizer que uma gestação é “de gêmeos”. A maneira como esses dois fetos estão organizados dentro do útero muda o risco e também a estratégia utilizada para acompanhá-los.
Nas gestações monocoriônicas diamnióticas sem complicações, recomenda-se vigilância ultrassonográfica mais frequente. A Society for Maternal-Fetal Medicine orienta que o rastreamento para a síndrome de transfusão feto-fetal comece na 16ª semana e seja repetido pelo menos a cada duas semanas até o parto. Nesses exames, são avaliados, entre outros parâmetros, a quantidade de líquido amniótico de cada bebê, a visualização das bexigas, o crescimento fetal e, conforme a fase da gestação e a indicação clínica, estudos com Doppler.
Essa frequência maior não significa que necessariamente haverá um problema. Significa que algumas complicações específicas das gestações monocoriônicas podem surgir durante a gravidez e que identificá-las precocemente aumenta as possibilidades de acompanhamento e intervenção.

Quando uma alteração importante é diagnosticada, a gestante pode precisar ser acompanhada por uma equipe de medicina fetal. Na síndrome de transfusão feto-fetal em determinados estágios, por exemplo, existe a possibilidade de tratamento por fetoscopia com laser, que interrompe as comunicações vasculares anormais da placenta.
Toda gestação gemelar exige atenção maior para algumas complicações, como prematuridade e alterações do crescimento fetal. Mas imaginar que o risco simplesmente dobra porque existem dois bebês é uma simplificação. O que realmente importa é compreender qual tipo de gestação gemelar está diante de nós.
É por isso que uma informação aparentemente técnica, obtida logo no início da gravidez, pode ter tanta importância. Saber quantas placentas e bolsas existem permite planejar o pré-natal antes mesmo que qualquer complicação apareça.

Quando os pais descobrem que estão esperando gêmeos, é natural querer saber se serão parecidos, se são idênticos e até imaginar como será a relação entre eles. Essas perguntas continuarão fazendo parte da experiência de receber dois filhos de uma vez . Mas, dentro do consultório, há uma pergunta que deve vir primeiro: esses dois bebês compartilham a placenta?
*Texto escrito por Dra. Ana Horovitz (CRM/SP 111739 | RQE 130806), Ginecologista e membro da Brazil Health



Publicado originalmente por CNN Brasil. Leia a matéria completa em https://www.cnnbrasil.com.br/saude/gravidez-de-gemeos-por-que-saber-se-bebes-dividem-a-placenta-e-importante/.

Imagem de uma mulher grávida. • Pexels · • Pexels — Foto: CNN Brasil
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