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    Grandezas e misérias do Estado-engenheiro chinês

    A China é hoje mais bem avaliada que os Estados Unidos pelos habitantes de 30 de 36 países incluídos na "Pesquisa Global de Atitudes", conduzida anualmente pelo respeitado instituto americano Pew Research Center. E o líder chinês Xi Jinping inspira mais confiança aos entrevistados do que Donald Trump . É um resultado inédito. Reflete o enorme desgaste da imagem internacional dos EUA, produto da truculência com que a Casa Branca vem conduzindo a política exterior do país. Mas também atesta o crescimento do prestígio internacional da China graças à sua pujante ascensão econômica e à capacidade d

    Folha de S.Paulo
    12 de agosto de 2026 às 19:15
    Grandezas e misérias do Estado-engenheiro chinês
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    Professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, é pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap)

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    Canteiro de obras do projeto de renovação do complexo residencial Pengyi, no distrito de Jing'an, em Xangai - Fang Zhe - 15.jul.26/Xinhua · Fang Zhe - 15.jul.26/Xinhua
    Canteiro de obras do projeto de renovação do complexo residencial Pengyi, no distrito de Jing'an, em Xangai - Fang Zhe - 15.jul.26/Xinhua · Fang Zhe - 15.jul.26/Xinhua — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A China é hoje mais bem avaliada que os Estados Unidos pelos habitantes de 30 de 36 países incluídos na "Pesquisa Global de Atitudes", conduzida anualmente pelo respeitado instituto americano Pew Research Center. E o líder chinês Xi Jinping inspira mais confiança aos entrevistados do que Donald Trump . É um resultado inédito. Reflete o enorme desgaste da imagem internacional dos EUA, produto da truculência com que a Casa Branca vem conduzindo a política exterior do país. Mas também atesta o crescimento do prestígio internacional da China graças à sua pujante ascensão econômica e à capacidade de ocupar posições na fronteira da inovação produtiva.

    Para aqueles que, como eu, pouco sabem dessa nova potência, será de grande proveito a leitura de "A Todo Vapor: Tecnologia e poder na China e a disputa com os Estados Unidos", de Dan Wang (Intrínseca). Chinês de nascimento, criado no Canadá, formado em economia nos Estados Unidos, Wang trabalhou sete anos na sua terra natal como analista de tecnologia.

    Seu livro propõe uma explicação original para o êxito econômico da China: não decorre do regime político autoritário de Beijing nem de uma forma específica de sistema econômico, mas das capacidades estatais desenvolvidas por uma liderança política formada por engenheiros. O Estado-engenheiro tem vocação e meios para encontrar soluções técnicas para os problemas e apetite aparentemente insaciável de fazer: ferrovias, pontes, metrôs, portos, aeroportos, usinas, redes elétricas, fábricas e cadeias industriais, habitação em larga escala, projetos de renovação urbana. Fazendo obras, tirou da pobreza milhões de concidadãos e melhorou a vida nas grandes cidades.

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    Wang contrapõe o Estado-engenheiro chinês ao Estado-advogado americano, habilitado a regular, limitar, contestar —e, em última instância,— bloquear iniciativas, tornando mais confusas as decisões de políticas públicas e muito mais lenta a sua implementação.

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    O livro não faz apologia do sistema chinês, mesmo quando descreve com admiração seus logros materiais. Em dois capítulos nos quais aborda o enfrentamento da pandemia da Covid e a política do filho único , expõe os enormes custos humanos envolvidos na gestão de questões sociais como se não passassem de um problema de engenharia.

    A implacável tentativa de controlar a população e impor-lhe o confinamento, durante o surto epidêmico, fracassou, depois de ganhos iniciais, e acabou atabalhoadamente abandonada. A política do filho único —mediante controle coercitivo da natalidade— foi uma colossal catástrofe que alterou até hoje o equilíbrio demográfico do país. Incluiu abortos forçados; infanticídio de meninas; esterilização em massa de mulheres —e, em menor medida, de homens—; entrega de bebês para adoção por estrangeiros. Em suma, um crime contra a humanidade.

    Wang julga possível compatibilizar a agilidade do Estado-engenheiro com limites políticos ao poder dos governantes, que só o Estado democrático de Direito consegue, mal e mal, prover. Algo mais fácil de propor do que de obter na prática, mas sempre um desafio às democracias diante do crescente prestígio da China dos engenheiros autoritários.

    Coluna afirmava anteriormente que não havia tradução para o livro "Breakneck: China’s Quest to Engineer the Future" no Brasil. O texto foi corrigido.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/maria-herminia-tavares/2026/08/grandezas-e-miserias-do-estado-engenheiro-chines.shtml.

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    Canteiro de obras do projeto de renovação do complexo residencial Pengyi, no distrito de Jing'an, em Xangai - Fang Zhe - 15.jul.26/Xinhua · Fang Zhe - 15.jul.26/Xinhua — Foto: Folha de S.Paulo

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