Brasil

    Governo de Israel busca apoio da ultradireita da Europa apesar de legado antissemita

    Diante de seu crescente isolamento no cenário internacional, Israel está estreitando laços com a ultradireita da Europa apesar do legado antissemita de alguns partidos. Leia mais (10/11/2026 - 04h00)

    Folha de S.Paulo
    11 de outubro de 2026 às 07:00
    Governo de Israel busca apoio da ultradireita da Europa apesar de legado antissemita
    Homem de cabelos grisalhos, vestindo terno escuro, camisa branca e gravata vermelha, acena com a mão direita levantada enquanto fala em púlpito com o emblema da ONU ao fundo de parede verde escura. — Foto: Folha de S.Paulo

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Diante de seu crescente isolamento no cenário internacional, Israel está estreitando laços com a ultradireita da Europa apesar do legado antissemita de alguns partidos.

    O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, acena ao chegar para discursar na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York - Timothy A. Clary - 24.set.26/AFP · Timothy A. Clary - 24.set.26/AFP
    O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, acena ao chegar para discursar na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York - Timothy A. Clary - 24.set.26/AFP · Timothy A. Clary - 24.set.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em resposta às críticas à condução da guerra na Faixa de Gaza , o governo de Binyamin Netanyahu acusa seus críticos de alimentar o ódio contra os judeus ao mesmo tempo em que adota um tom bastante conciliador com os líderes políticos que o apoiam.

    Após as revelações do site francês Mediapart sobre escritos antissemitas atribuídos a Jordan Bardella , presidente do partido de ultradireita Reunião Nacional, o ministro israelense encarregado do Combate ao Antissemitismo saiu em sua defesa.

    Bardella, apontado como possível primeiro-ministro em caso de vitória de Marine Le Pen nas eleições presidenciais da França de 2027 , "é uma das vozes mais claras da Europa contra o Hamas ", escreveu Amichai Chikli na rede social X .

    O então embaixador israelense, Jeremy Issacharoff (à esq.), conversa com o presidente alemão Frank-Walter Steinmeier durante sua posse oficial em Berlim - Maurizio Gambarini - 29.ago.17/AFP · Maurizio Gambarini - 29.ago.17/AFP
    O então embaixador israelense, Jeremy Issacharoff (à esq.), conversa com o presidente alemão Frank-Walter Steinmeier durante sua posse oficial em Berlim - Maurizio Gambarini - 29.ago.17/AFP · Maurizio Gambarini - 29.ago.17/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Ele lembrou que o francês visitou os locais onde ocorreu o ataque de 7 de outubro de 2023 , perpetrado por terroristas palestinos e que desencadeou o devastador conflito em Gaza.

    O governo de Netanyahu, um dos mais à direita desde a criação do Estado de Israel, em 1948, também iniciou a normalização de suas relações na Áustria com o Partido da Liberdade (FPÖ), fundado por ex-nazistas.

    Uma newsletter sobre geopolítica e economia global, editada pelo jornalista João Caminoto, de Paris

    Habitantes de Gaza se abrigam em prédios com risco de desabamento
    Habitantes de Gaza se abrigam em prédios com risco de desabamento — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Autoridades israelenses também têm cortejado líderes da ultradireita na Suécia , na Espanha e no Reino Unido , em nome de preocupações comuns com o islã e a imigração .

    O governo israelense fez também uma importante guinada em sua postura diplomática na América Latina após a eleição de líderes pró-Israel da direita radical na Argentina e na Colômbia .

    Apenas a extrema direita alemã e seu partido AfD permanecem, por enquanto, à margem dessa mudança estratégica.

    A deputada francesa Marine Le Pen, e o presidente do partido francês de ultradireita Reunião Nacional, Jordan Bardella, marcham durante uma manifestação contra o antissemitismo em Paris - Geoffroy Van der Hasselt - 12.nov.23/AFP · Geoffroy
    A deputada francesa Marine Le Pen, e o presidente do partido francês de ultradireita Reunião Nacional, Jordan Bardella, marcham durante uma manifestação contra o antissemitismo em Paris - Geoffroy Van der Hasselt - 12.nov.23/AFP · Geoffroy — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Segundo Jeremy Issacharoff, embaixador de Israel em Berlim de 2017 a 2022, os partidos europeus de ultradireita tentam obter "uma espécie de certificado kosher" —termo hebraico usado para alimentos considerados "aptos" segundo a lei judaica— e, assim, distanciar-se de seu passado antissemita, que continua sendo um legado tóxico aos olhos do eleitorado moderado.

    "Entendo perfeitamente o benefício que podem tirar disso. Mas, para Israel, não vejo nada além de um ataque a seus valores e à sua reputação no cenário internacional", acrescentou Issacharoff à agência de notícias AFP.

    Na opinião dele, Israel deveria avaliar primeiro o impacto desse apoio sobre as comunidades judaicas dos países em questão, especialmente na França e na Áustria.

    Um cartaz eleitoral gigante do partido do premiê Binyamin Netanyahu, Likud, na fachada de um prédio em Tel Aviv - Jack Guez - 29.set.26/AFP · Jack Guez - 29.set.26/AFP
    Um cartaz eleitoral gigante do partido do premiê Binyamin Netanyahu, Likud, na fachada de um prédio em Tel Aviv - Jack Guez - 29.set.26/AFP · Jack Guez - 29.set.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    No Reino Unido, alguns líderes judeus ficaram consternados com a visita do ativista de extrema direita Tommy Robinson a Jerusalém , onde suas posições anti-islâmicas foram aplaudidas.

    As autoridades israelenses também vêm empregando uma linguagem cada vez menos diplomática em relação aos líderes ocidentais que criticam o país.

    O ministro das Relações Exteriores, Gideon Saar , pediu recentemente ao líder do partido britânico de ultradireita Reform UK que manifestasse sua oposição às sanções impostas pelo governo trabalhista aos produtos importados dos assentamentos israelenses na Cisjordânia ocupada .

    Dois homens de terno escuro e gravata branca conversam em ambiente interno com bandeira da Alemanha ao fundo. Homem à direita, de cabelo branco e óculos, gesticula com a mão direita enquanto olha para o homem à esquerda, que sorri.
    Dois homens de terno escuro e gravata branca conversam em ambiente interno com bandeira da Alemanha ao fundo. Homem à direita, de cabelo branco e óculos, gesticula com a mão direita enquanto olha para o homem à esquerda, que sorri. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Alguns ministros também fizeram comentários depreciativos sobre o chanceler britânico, Ed Miliband, filho de refugiados judeus e defensor das sanções.

    Segundo Azriel Bermant, pesquisador associado do Instituto de Relações Internacionais de Praga, a aproximação de Netanyahu com a ultradireita também tem como objetivo impedir a formação de um consenso europeu contra seu país.

    Ele cita como exemplo os vínculos estabelecidos entre Netanyahu e o ex-líder húngaro Viktor Orbán , até a derrota eleitoral deste último em abril.

    Mulher loira e homem de cabelo curto vestem casacos escuros em meio a multidão. Pessoas ao redor seguram bandeiras com cores azul, branco e vermelho.
    Mulher loira e homem de cabelo curto vestem casacos escuros em meio a multidão. Pessoas ao redor seguram bandeiras com cores azul, branco e vermelho. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Durante anos, o ex-primeiro-ministro da Hungria apoiou firmemente Israel e bloqueou medidas da União Europeia contra Tel Aviv ao mesmo tempo em que recorria reiteradamente a estereótipos antissemitas contra o magnata e filantropo americano George Soros , nascido em uma família judaica húngara.

    O pesquisador espera que a postura de Israel mude caso a coalizão de Netanyahu perca as eleições legislativas de 27 de outubro .

    Embora seja verdade que seus adversários provavelmente não romperão relações com figuras como Marine Le Pen , que podem chegar ao poder, eles não associarão Israel à ultradireita, avaliou.

    Prédio alto com fachada bege exibe banner vertical grande com retrato de homem de terno e gravata, texto em hebraico e fundo azul com luzes. Sinal de trânsito de faixa de pedestres está visível em primeiro plano, com céu azul e árvores ao r
    Prédio alto com fachada bege exibe banner vertical grande com retrato de homem de terno e gravata, texto em hebraico e fundo azul com luzes. Sinal de trânsito de faixa de pedestres está visível em primeiro plano, com céu azul e árvores ao r — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em entrevista à AFP, um ex-embaixador de Israel na Europa afirmou que o Estado judeu deveria demonstrar mais pragmatismo e moderação diante de figuras controversas.

    "Um dia, esses governos voltarão a passar da direita para a esquerda, ou vice-versa. E, se você se aliou à ultradireita, acaba sendo rotulado de determinada maneira", advertiu, sob condição de anonimato.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Semanalmente, os principais fatos do globo, explicados de forma leve e interessante

    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background.
Foto:  Mario / adobe stock
    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background. Foto: Mario / adobe stock — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/10/governo-de-israel-busca-apoio-da-ultradireita-da-europa-apesar-de-legado-antissemita.shtml.

    Imagem 1
    1 / 10

    O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, acena ao chegar para discursar na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York - Timothy A. Clary - 24.set.26/AFP · Timothy A. Clary - 24.set.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)