Gasolina sintética é fabricada no Chile pela Porsche; veja como funciona
Processo utiliza energia eólica, água e ar para gerar gasolina sintética capaz de rodar em motores convencionais sem adição de carbono na atmosfera

No extremo sul do continente americano, em Punta Arenas, na Patagônia chilena, opera a planta industrial Haru Oni (“terra dos ventos”, na linguagem nativa local). Inaugurada no final de 2022 pela operadora HIF (Highly Innovative Fuels) em parceria com a Porsche e outros colaboradores globais, a unidade produz o combustível sintético chamado de eFuel em escala industrial a partir de somente três elementos: vento, água e ar.
A iniciativa busca responder a um dos maiores desafios da transição energética global: como descarbonizar uma frota de cerca de 1,3 bilhão de veículos com motores a combustão interna em circulação pelo mundo?
Impulsionar a aderência aos novos carros elétricos zero km é apenas um dos passos para tornar a pegada de carbono global dos automóveis neutra. O mais difícil será neutralizar a pegada dos carros que estão rodando desde os anos 2000, 1990 e assim por diante.

A região possui condições meteorológicas excepcionais, em que ventos fortes e constantes sopram quase ininterruptamente o ano todo. Na fábrica de Haru Oni, uma turbina eólica de 150 metros de altura opera a pleno rendimento por uma média de 270 dias por ano, portanto a taxa de aproveitamento da turbina atinge 74%.
Em comparação, uma turbina idêntica instalada na Alemanha funciona a plena carga durante cerca de 66 dias por ano devido às condições locais, registrando apenas 18% de aproveitamento.
O processo químico de fabricação do eFuel transforma eletricidade eólica e os elementos da natureza em um combustível com propriedades químicas equivalentes às da gasolina convencional derivada do petróleo.

Para fabricar um único litro de eFuel, o sistema consome aproximadamente três litros de água do mar dessalgada e extrai o dióxido de carbono ( CO2 ) presente em 6.000 m³ de ar ambiente. O processo é dividido em cinco etapas principais:
1. Geração eólica de energia: a turbina eólica produz eletricidade limpa de forma contínua para alimentar toda a instalação industrial.
2. Eletrólise da água: a corrente elétrica alimenta o eletrolisador, responsável por quebrar as moléculas de água ( H2O ) dessalgada para separar os átomos de hidrogênio ( H2 ) e oxigênio ( O2 ). O consumo de água no processo de eletrólise é de 280 litros por hora.

3. Captura direta de ar (DAC): o CO2 é retirado da atmosfera por meio de um filtro cerâmico. O ar passa por canais revestidos com uma substância química que se liga ao CO2 . Quando saturado, o filtro é fechado, aquecido e aspirado para liberar o gás purificado.
4. Síntese de metanol: o hidrogênio verde e o CO2 capturado são combinados em um equipamento de síntese para gerar metanol cru (ou bruto).
5. Transformação de metanol em gasolina (MtG): o metanol cru passa por destilação para reduzir o teor de água de 36% para 4%. Em seguida, entra em um reator de leito fluidizado, onde as cadeias de carbono são unidas para formar hidrocarbonetos mais longos (gasolina pura). Após etapas de estabilização e fracionamento, obtém-se o produto final: uma gasolina de 93% de octanagem (E93).

A neutralidade climática do eFuel baseia-se na lógica do ciclo fechado de carbono. Quando queimado no motor de um veículo, o combustível sintético expele para a atmosfera exatamente a mesma quantidade de CO2 que foi retirada do ar ambiente durante a sua fabricação em Punta Arenas.
A Porsche, que detém 11,6% de participação acionária na operadora HIF Global, enxerga os eFuels como uma solução complementar à eletrificação de novos modelos .
“Na nossa Estratégia Porsche 2030, definimos focar na e-mobilidade para o desenvolvimento de futuros veículos. Contudo, só cumpriremos nossas metas de descarbonização se considerarmos os veículos já existentes para que operem o mais próximo possível da neutralidade de carbono”, explica Karl Dums, líder da equipe de eFuels da Porsche.

O executivo ressalta que o potencial da tecnologia ultrapassa o setor automotivo: “Além do transporte terrestre, os eFuels podem ser utilizados na aviação, no setor marítimo e na indústria química, áreas onde a eletrificação direta por baterias é mais difícil e lenta de implementar.”
A planta piloto de Haru Oni foi dimensionada para uma capacidade inicial de 130 mil litros de eFuel por ano. As projeções do consórcio preveem uma expansão da produção em fases:
Meta intermediária: 55 milhões de litros por ano.

Escala industrial: 550 milhões de litros por ano.
O combustível produzido no Chile é compatível com a infraestrutura existente de transporte e pode ser abastecido diretamente nas bombas dos postos de combustíveis convencionais, sem necessidade de modificações nos motores atuais ou clássicos.
Nova gasolina E32 “dificilmente será perceptível”, diz especialista






Publicado originalmente por CNN Brasil. Leia a matéria completa em https://www.cnnbrasil.com.br/auto/gasolina-sintetica-e-fabricada-no-chile-pela-porsche-veja-como-funciona/.

Caminhão a hidrogênio da GWM abre única operação da marca fora da China — Foto: CNN Brasil
Compartilhe
Espalhe essa notícia

