Funeral de Ratko Mladic, o 'açougueiro da Bósnia', reúne multidão e provoca indignação da UE
Uma multidão prestou homenagem nesta segunda-feira (7) em Belgrado diante do caixão de Ratko Mladic, o ex-general sérvio cujas ações durante as guerras dos Bálcãs na década de 1990 lhe renderam o apelido de "Açougueiro da Bósnia". O funeral, marcado por manifestações de apoio ao ex-general, provocou indignação internacional. Leia mais (09/07/2026 - 11h34)

Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.
Uma multidão prestou homenagem nesta segunda-feira (7) em Belgrado diante do caixão de Ratko Mladic, o ex-general sérvio cujas ações durante as guerras dos Bálcãs na década de 1990 lhe renderam o apelido de "Açougueiro da Bósnia". O funeral, marcado por manifestações de apoio ao ex-general, provocou indignação internacional.

Mladic morreu no fim de agosto, aos 84 anos , em Haia, na Holanda, onde cumpria pena por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Simpatizantes do ex-comandante começaram a chegar à igreja ortodoxa de São Lucas, em Belgrado, nas primeiras horas da manhã.
Na cerimônia fúnebre, sérvios beijaram o caixão fechado de Mladic, ladeado por militares, enquanto sacerdotes ortodoxos recitavam orações. A polícia interditou as ruas próximas à igreja diante da concentração de pessoas, entre elas muitos veteranos da guerra.
Bandeiras sérvias foram penduradas nas imediações. Uma grande faixa estendida sobre a rua dizia: "Bem-vindo, general. Obrigado à sua mãe por ter dado à luz a um herói, para que a glória da Grande Sérvia possa retornar".

"Estou aqui para me despedir do general, um herói nacional", disse à AFP a aposentada Radojka Visic, que viajou para participar da cerimônia. O corpo de Mladic permaneceu exposto na igreja por cinco horas. Depois, foi levado por um cortejo até um cemitério.
O caixão, coberto com bandeiras sérvias, foi enviado na quinta-feira para a Sérvia em um avião do governo e recebido em Belgrado com honras militares.
Nesta segunda, um porta-voz da União Europeia afirmou que a "glorificação de criminosos de guerra, negacionistas do genocídio ou revisionistas contradiz os valores europeus mais fundamentais e não tem espaço na UE ou em países candidatos" à adesão ao bloco.

A comissária europeia para a ampliação da UE, Marta Kos, cancelou na sexta-feira uma visita à Sérvia prevista para 9 de setembro. Segundo ela, a "glorificação em torno da morte" de Mladic era "incompatível com os valores sobre os quais a UE foi construída".
Mladic foi capturado em 26 de maio de 2011 , em um vilarejo agrícola ao norte de Belgrado , capital da Sérvia, depois de quase 16 anos foragido, encerrando uma das buscas mais longas da história moderna. Sua condenação por um tribunal internacional em 2017 , sob acusações de genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra , marcou o fim de um capítulo sombrio e sangrento na história europeia.
As guerras dos Bálcãs eclodiram quando a Iugoslávia se desintegrava em Estados independentes. Slobodan Milosevic, o então presidente nacionalista da Sérvia, um desses Estados, estava decidido a criar uma Grande Sérvia. Ele reacendeu antigas hostilidades étnicas e religiosas e iniciou guerras que colocaram os sérvios contra eslovenos, croatas, bosníacos e albaneses de Kosovo .

Cerca de 100 mil pessoas morreram durante o conflito, e mais de 2,5 milhões foram deslocadas.
Mladic, oficial do Exército Popular Iugoslavo, comandou o Exército dos sérvios da Bósnia no início da década de 1990. Ele foi declarado culpado de genocídio por seu papel no massacre de Srebrenica, em julho de 1995, a pior matança na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Cerca de 8.000 homens e meninos muçulmanos foram mortos por forças servo-bósnias.
Na véspera do massacre, ele prometeu vingar a conquista da Sérvia, séculos antes, pelos turcos otomanos muçulmanos. Ao longo de dez dias, seus soldados perseguiram, capturaram e executaram sumariamente milhares de bosníacos, colocando-os em fila com as mãos amarradas às costas e atirando neles. Mulheres foram estupradas.

Em 1994, sua filha, Ana, estudante de medicina na faixa dos 20 anos, suicidou-se .
Após o massacre, a indignação em Washington e na Europa levou a uma campanha de bombardeios da Otan que derrotou as forças sérvias da Bósnia e resultou nos Acordos de Dayton , que encerraram as guerras dos Bálcãs em dezembro de 1995, embora o conflito na ex-Iugoslávia tenha voltado a eclodir em 1998 por causa de Kosovo.
Em 1995, o tribunal internacional de Haia, criado dois anos antes, indiciou Mladic por crimes de guerra e genocídio relacionados ao cerco de Sarajevo e ao massacre de Srebrenica.

Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Semanalmente, os principais fatos do globo, explicados de forma leve e interessante
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/09/funeral-de-ratko-mladic-o-acougueiro-da-bosnia-reune-multidao-e-provoca-indignacao-da-ue.shtml.

Pessoas seguram bandeiras sérvias e retratos de Ratko Mladic durante uma procissão até o cemitério - Oliver Bunic - 7.set.26/AFP · Oliver Bunic - 7.set.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo
Compartilhe
Espalhe essa notícia

