Brasil

    Funerais em Gana celebram mortos com caixões decorados que contam suas histórias; veja vídeo

    Artesãos de Acra esculpem peixes, carros, Bíblias e aviões em madeira, com homenagens personalizadas

    UOL
    26 de setembro de 2026 às 08:00
    Funerais em Gana celebram mortos com caixões decorados que contam suas histórias; veja vídeo
    Mulher vestida com roupa vermelha brilhante e turbante da mesma cor está em pé ao lado de um objeto grande em formato de foguete, branco com detalhes azuis e vermelhos, dentro de uma sala com paredes amarelas e porta preta aberta. — Foto: UOL

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    O músico ganês Frederick Teiko Ofori passou grande parte da vida com uma guitarra nas mãos. Quando morreu, em um acidente de trânsito, sua família decidiu que o instrumento deveria acompanhá-lo em sua última viagem . Por isso, seu caixão foi construído na forma de uma enorme guitarra.

    Elizabeth Blankson, familiar do professor Samuel Commey Tetteh, morto em Gana, posa ao lado do caixão feito em formato de caneta para homenageá-lo - Olympia de Maismont/AFP · Olympia de Maismont/AFP
    Elizabeth Blankson, familiar do professor Samuel Commey Tetteh, morto em Gana, posa ao lado do caixão feito em formato de caneta para homenageá-lo - Olympia de Maismont/AFP · Olympia de Maismont/AFP — Foto: UOL · Fonte: UOL

    O caixão chamou a atenção em seu funeral, realizado no fim de setembro, em Adjen Kotoku Amoama, nos arredores de Acra, capital de Gana .

    Mas isso não é incomum no país . Em Gana, especialmente entre as comunidades dos arredores da capital, os chamados caixões "figurativos" ou "de fantasia" proporcionam despedidas criativas e, ao mesmo tempo, íntimas.

    Pescadores são enterrados em enormes peixes ou canoas do tamanho de uma pessoa; agricultores, em vagens de cacau; motoristas, em carros; e figuras religiosas, em Bíblias.

    Em Gana, caixões figurativos transformam funerais em arte
    Em Gana, caixões figurativos transformam funerais em arte — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Ofori deixou uma família jovem, que incluía, além da esposa, um bebê nascido apenas uma semana antes do funeral, e uma trajetória musical interrompida de forma abrupta.

    Mesmo após sua morte, porém, a guitarra continuou sendo parte de sua identidade.

    O enorme instrumento de madeira que carregou seu corpo foi feito por Daniel Oblie Mensah, conhecido pelo bem-humorado apelido de "Hello", um veterano fabricante de caixões que, há mais de três décadas, transforma profissões, paixões e o status social das pessoas em sua última morada.

    Daniel Oble Mensah, conhecido como "Hello", trabalha em um caixão em formato de guitarra encomendado para um músico - Olympia de Maismont/AFP · Olympia de Maismont/AFP
    Daniel Oble Mensah, conhecido como "Hello", trabalha em um caixão em formato de guitarra encomendado para um músico - Olympia de Maismont/AFP · Olympia de Maismont/AFP — Foto: UOL · Fonte: UOL

    "Cada vez que alguém me encomenda um caixão relacionado à profissão da pessoa que morreu, fico entusiasmado", contou Mensah, 54, à agência AFP. "Isso me ajuda a homenagear de verdade a pessoa e sua família."

    A tradição moderna dos caixões escultóricos surgiu entre artesãos dos arredores de Acra em meados do século 20, inspirada, em parte, nas elaboradas formas dos palanquins usados pelos chefes locais.

    Hoje essas peças ocupam um espaço incomum na arte contemporânea: apesar do trabalho artesanal minucioso, desaparecem rapidamente sob a terra.

    Homem em camiseta branca trabalha em oficina de marcenaria iluminada por janela lateral. Ele manipula estrutura de madeira curva apoiada em bancada, com ferramentas e materiais ao redor.
    Homem em camiseta branca trabalha em oficina de marcenaria iluminada por janela lateral. Ele manipula estrutura de madeira curva apoiada em bancada, com ferramentas e materiais ao redor. — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Algumas, no entanto, acabam expostas em museus. É o caso de um caixão em forma de guitarra do artista ganês Paa Joe, emprestado ao Museu Metropolitano de Arte de Nova York.

    Samuel Commey Tetteh estava vestido de branco antes do início de seu funeral. Os visitantes cumprimentavam os mais velhos na casa da família antes de se aproximarem do corpo do homem conhecido por toda a comunidade como Teacher (professor).

    Nascido em 1943, Tetteh deu aulas em Paanor, em Ga Sul, nos arredores da capital, durante mais de meio século, segundo sua família.

    Imagem da matéria
    Foto: UOL · Fonte: UOL

    O silêncio da madrugada deu lugar a uma música ensurdecedora à medida que as pessoas chegavam para o funeral. Depois veio o caixão de Tetteh, na forma de uma enorme caneta.

    Mais uma vez, a peça era obra de Mensah e exigiu cerca de duas semanas de trabalho.

    Em oficinas espalhadas por Acra, dezenas de outras vidas esperam para ser traduzidas em madeira.

    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background.
Foto:  Mario / adobe stock
    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background. Foto: Mario / adobe stock — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Alguns clientes chegam com uma foto exata do que desejam. Outros simplesmente descrevem a vida da pessoa que morreu. A partir daí, os artesãos deixam a imaginação correr solta.

    Um dos projetos mais difíceis de que o carpinteiro Lawrence Okoe Anang se lembra foi um crocodilo, encomendado há mais de uma década para um sacerdote da região ganesa do rio Volta.

    Seu pai fez o caixão, enquanto Anang, que na época ainda aprendia o ofício para o qual começou a se preparar aos dez anos, ajudava na oficina.

    Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo

    Os caixões costumam custar cerca de 10 mil cedis ganeses (cerca de R$ 4.900), explicou Anang, 26, que hoje administra a oficina com o irmão mais novo.

    As peças destinadas a exposições custam mais caro porque os artesãos utilizam materiais mais duráveis , capazes de resistir durante décadas sob as luzes dos museus.

    O setor ainda depende, em grande medida, de habilidades transmitidas de geração em geração, embora tenha mudado consideravelmente desde a época em que as gerações anteriores trabalhavam apenas com ferramentas manuais.

    As ferramentas modernas aceleraram a produção, o fornecimento de madeira se tornou mais confiável e as encomendas feitas por museus e colecionadores estrangeiros ajudaram a expandir o ofício.

    A capacidade de transformar madeira comum em um peixe, um avião, uma Bíblia, uma caneta ou uma guitarra levanta uma questão sobre como definir quem produz essas peças. Anang se considera carpinteiro, fabricante de caixões e artista, tudo ao mesmo tempo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Semanalmente, os principais fatos do globo, explicados de forma leve e interessante

    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/09/funerais-em-gana-celebram-mortos-com-caixoes-decorados-que-contam-suas-historias-veja-video.shtml.

    Imagem 1
    1 / 6

    Elizabeth Blankson, familiar do professor Samuel Commey Tetteh, morto em Gana, posa ao lado do caixão feito em formato de caneta para homenageá-lo - Olympia de Maismont/AFP · Olympia de Maismont/AFP — Foto: UOL

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)