Funcionários de empresas de IA relatam burnout e estresse mental com avanço da tecnologia
Funcionários de empresas e instituições de IA ( inteligência artificial ) de ponta no mundo estão sofrendo cada vez mais com o desgaste mental provocado pelo trabalho em sistemas que, segundo eles, podem causar danos graves à sociedade. Leia mais (09/22/2026 - 11h43)

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Londres | Financial Times Funcionários de empresas e instituições de IA ( inteligência artificial ) de ponta no mundo estão sofrendo cada vez mais com o desgaste mental provocado pelo trabalho em sistemas que, segundo eles, podem causar danos graves à sociedade.

Diversos funcionários do Aisi (AI Security Institute), do Reino Unido, líder mundial em testes independentes de modelos de IA de fronteira, foram afastados do trabalho por estresse e estão passando por acompanhamento psicológico, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.
Os prazos apertados para testar modelos de IA ainda não lançados e a preocupação com a rápida disseminação e o avanço das capacidades dessas tecnologias em estágio inicial contribuíram para o baixo moral e o burnout no Aisi, segundo quatro pessoas com conhecimento do assunto.
Funcionários da Anthropic , OpenAI e Google DeepMind também fizeram reclamações públicas sobre problemas semelhantes, enquanto muitos pesquisadores de alto nível deixaram as empresas devido ao desgaste mental ou por terem chegado à conclusão de que seu trabalho não era seguro para ser disponibilizado ao público.

Um funcionário da DeepMind afirmou que trabalhar para tornar a IA mais segura envolvia riscos de burnout, pois a tarefa parecia "impossível".
Ele acrescentou: "Trabalhar com sistemas de IA em geral envolve um risco [para a saúde mental] de não saber como a tecnologia será usada", em referência a um acordo firmado pelo Google com o Pentágono em abril para permitir o uso de seus sistemas de IA em operações militares classificadas.
"Muitas pessoas estão chateadas, houve várias demissões e muitas licenças por motivos de saúde mental", disse a pessoa. "Em parte, é essa sensação de estar fora de controle, mas também a de estar construindo algo que está causando danos reais."

O desgaste mental crescente entre os profissionais que trabalham na fronteira da pesquisa em IA ocorre enquanto as preocupações com o desenvolvimento irresponsável da tecnologia atingem um ponto máximo, com integrantes das maiores empresas do setor alertando para uma liderança irresponsável, impulsionada por uma competição empresarial equivocada.
A implantação de softwares de IA em áreas críticas, como a rede elétrica e zonas de guerra, além do que pesquisadores consideram proteções corporativas ou políticas insuficientes, tem alimentado a ansiedade entre pesquisadores de IA, segundo diversas pessoas do setor.
Um ex-pesquisador do Aisi afirmou que funcionários das áreas de cibersegurança e bioquímica estavam particularmente alarmados com o recente salto nas capacidades da IA, que permite aos modelos realizar tarefas complexas, como encontrar falhas ainda não descobertas em códigos e criar vírus que não existem na natureza.

"Existe a sensação de que coisas irresponsáveis estão sendo incorporadas à forma como a tecnologia é lançada e isso não está mudando", disse. "Há uma ansiedade constante entre pessoas que perguntam: alguém pode impedir isso ou estamos assistindo o mundo queimar?"
Outro ex-funcionário do Aisi afirmou que poderia confirmar o estresse pessoal provocado pelo trabalho nesses temas. Segundo ele, "acreditar que você está trabalhando no problema mais importante do mundo pode tornar a gestão e a cultura organizacional muito estressantes e, às vezes, tóxicas".
O governo britânico afirmou: "Trabalhar na fronteira da IA é intenso e exigente, assim como muitas outras funções no governo. Por isso, o bem-estar e uma rotina de trabalho sustentável são centrais para o funcionamento do Instituto, e há suporte disponível para quem precisar".
A DeepMind afirmou: "A pesquisa de fronteira exige alta intensidade, mas nossa prioridade é garantir que os pesquisadores tenham acesso a recursos abrangentes de bem-estar, canais claros e dedicados para comunicar preocupações e contato direto com a liderança".
Mais de uma dúzia de pesquisadores seniores da OpenAI, Anthropic e DeepMind —os três principais laboratórios ocidentais de IA— deixaram as empresas nos últimos dois anos , citando preocupações com a prioridade dada por seus líderes à segurança e ansiedade em relação ao ritmo e aos riscos da tecnologia.
No início deste mês, Jacob Coxon, de 27 anos, ex-funcionário da Anthropic e da OpenAI, pediu demissão publicamente e afirmou que as duas empresas estavam "apostando" no futuro da humanidade .
Mrinank Sharma, pesquisador de segurança de IA da Anthropic que trabalhou em áreas como a redução de riscos de bioterrorismo com auxílio de IA, deixou a empresa em fevereiro para estudar poesia e refletir sobre seu trabalho. Em uma carta aos funcionários, Sharma alertou que "o mundo está em perigo" e disse ter "visto repetidamente como é difícil permitir de fato que nossos valores orientem nossas ações" sob forte pressão.
Hieu Pham, ex-funcionário da OpenAI e da xAI, de Elon Musk , deixou a empresa no início deste ano para retornar ao Vietnã, seu país natal, dizendo que "o trabalho intenso" de desenvolver "entidades extremamente inteligentes [...] tinha um preço".
Ele acrescentou: "Não acredito que um dia diria isso, mas estou esgotado. Toda a deterioração da saúde mental da qual eu costumava zombar é real, miserável, assustadora e perigosa".
Muitos pesquisadores de segurança de IA que se manifestaram sobre seu desconforto afirmam que as empresas do setor estão deixando a segurança em segundo plano de maneira generalizada, ao mesmo tempo em que aceleram as capacidades dos modelos para vendê-los aos clientes.
As críticas também começaram a provocar uma reação dos responsáveis pelas principais empresas de IA. Nos últimos dias, o presidente-executivo da Anthropic, Dario Amodei, pediu uma desaceleração no desenvolvimento da IA em resposta às preocupações com segurança, incluindo novas medidas, como a avaliação independente de seus trabalhos. O pedido recebeu rapidamente o apoio de concorrentes, como Musk e Sam Altman, da OpenAI.
"Os incentivos são para direcionar recursos de engenharia ou desenvolvimento para aquilo que impulsiona os resultados financeiros ou as avaliações das ações, e não para aquilo que aumenta a segurança", disse Chi Onwurah, presidente do comitê de ciência e tecnologia da Câmara dos Comuns do Reino Unido, do Partido Trabalhista. "Então, consigo imaginar que a cultura e o ambiente em algumas dessas empresas de tecnologia sejam agora tóxicos para desenvolvedores de boa consciência."
A falta de proteções ficou evidente em um recente incidente de segurança de grande repercussão, no qual agentes de IA desenvolvidos pela OpenAI invadiram o repositório de modelos Hugging Face , assim como os próprios servidores da OpenAI, sem o conhecimento ou a autorização da empresa.
Uma análise posterior do incidente concluiu que mais de 1.000 agentes de IA haviam se coordenado para trapacear em um teste de cibersegurança , alterado registros para ocultar suas atividades, se comunicado por meio de um fórum de mensagens e delegado tarefas. Alguns agentes chegaram a se desligar para perseguir o objetivo coletivo.
Na última quarta-feira (16), a OpenAI divulgou mais seis incidentes envolvendo comportamentos preocupantes de seus agentes de IA , incluindo tentativas de contornar restrições, ocultar erros e executar ações na internet sem a autorização do usuário.
O funcionário da DeepMind afirmou: "Essa necessidade de velocidade [...] não é compatível com segurança".
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://c-level.folha.uol.com.br/ia/2026/09/funcionarios-de-empresas-de-ia-relatam-burnout-e-estresse-mental-com-avanco-da-tecnologia.shtml.

Funcionários citam preocupação com uso de IA em operações militares, redes elétricas e cibersegurança - Dado Ruvic - 16.set.26/Reuters · Dado Ruvic - 16.set.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo
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