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    França toma lugar da Itália como maior risco para títulos na Europa

    Os custos de financiamento de Paris superaram os de Roma durante a maior parte do inverno, em meio a preocupações com o Orçamento e as eleições do próximo ano

    UOL
    28 de agosto de 2026 às 23:00
    França toma lugar da Itália como maior risco para títulos na Europa
    Homem de meia-idade com cabelo castanho claro, vestido com terno escuro, camisa branca e gravata preta, sentado em cadeira branca. Fundo cinza claro com letras desfocadas. — Foto: UOL

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    Os custos de financiamento de Paris superaram os de Roma durante a maior parte do inverno, em meio a preocupações com o Orçamento e as eleições do próximo ano

    Eleição presidencial e dificuldades para aprovar o Orçamento ampliam riscos para Paris - Stephanie Lecocq/-24.ago.26/AFP · Stephanie Lecocq/-24.ago.26/AFP
    Eleição presidencial e dificuldades para aprovar o Orçamento ampliam riscos para Paris - Stephanie Lecocq/-24.ago.26/AFP · Stephanie Lecocq/-24.ago.26/AFP — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A França está substituindo a Itália como principal foco das preocupações do mercado com a sustentabilidade da dívida europeia, segundo investidores. Paris enfrenta difíceis negociações orçamentárias no próximo mês e se aproxima de uma eleição presidencial no próximo ano, em um cenário de avanço do apoio a partidos de extrema esquerda e extrema direita.

    O rendimento do título de referência de dez anos do governo italiano, que durante anos foi negociado bem acima do francês, ficou abaixo dele durante a maior parte deste período, enquanto investidores passaram a exigir uma compensação maior para comprar dívida francesa. Os rendimentos caem quando os preços dos títulos sobem.

    Investidores afirmam que essa inversão da tendência histórica representa uma mudança significativa na forma como o mercado avalia os riscos relativos dos dois países.

    Avène-les-Bains, no sul da França, é o berço da água termal do grupo Pierre Fabre
    Avène-les-Bains, no sul da França, é o berço da água termal do grupo Pierre Fabre — Foto: UOL · Fonte: UOL

    "Se você perguntar a qualquer pessoa nos mercados qual é o elo mais fraco da Europa , a maioria apontará para a França", disse Rohan Khanna, chefe de estratégia de juros europeus do Barclays. "A Itália conseguiu passar a bola para a França."

    A França é uma "tempestade perfeita" para investidores em títulos, dada a combinação de "risco de crescimento, risco político e risco fiscal", acrescentou Khanna.

    A Itália —um dos países endividados do grupo chamado de "Piigs" (sigla econômica com tom pejorativo que agrupa Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha) durante a crise da dívida da zona do euro, há mais de uma década— há muito é considerada um dos tomadores mais arriscados da Europa, com uma dívida pública entre as maiores do continente. A França, por outro lado, geralmente era vista como uma aposta mais segura.

    Parque na Itália reúne milhares de pegadas de dinossauros
    Parque na Itália reúne milhares de pegadas de dinossauros — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Mas, com os dois países diante de difíceis negociações orçamentárias nesta primavera e eleições no próximo ano, a atenção dos investidores voltou-se para a deterioração da situação fiscal francesa e para a crescente possibilidade de vitória de um candidato menos favorável ao mercado na França.

    Na Itália, um período de contenção fiscal e uma sequência incomumente longa de estabilidade política conquistaram a confiança de um número crescente de investidores globais.

    "A Itália é agora o exemplo a ser seguido entre os mercados de títulos do G7", disse Adam Posen, presidente do Peterson Institute, think tank sediado em Washington, e ex-diretor de política monetária do Banco da Inglaterra.

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    Foto: UOL · Fonte: UOL

    Enquanto a relação entre dívida e PIB (Produto Interno Bruto) da Itália caiu de 154% em 2020 para 139% neste ano, a da França subiu de 114% para 117%, segundo dados do BCE (Banco Central Europeu).

    A Itália também registra superávit fiscal primário —quando a arrecadação de impostos supera os gastos antes do pagamento de juros da dívida—, enquanto o déficit orçamentário da França aumentou para mais de 5% do PIB.

    "Costumava ser a Itália o maior risco para a Europa, o país com o qual todos realmente se preocupavam... mas acho que agora a França está se juntando à Itália rapidamente", disse Tomasz Wieladek, estrategista-chefe de macroeconomia para a Europa da T. Rowe Price.

     Programar investimentos é estratégia psicológica e traz mais disciplina financeira
    Programar investimentos é estratégia psicológica e traz mais disciplina financeira — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Há sinais de uma "realocação" dos investimentos para fora dos títulos franceses e em direção aos italianos, acrescentou.

    Os títulos franceses sofreram pressão nas últimas semanas, à medida que o governo começou a revelar detalhes de seus planos orçamentários. A versão completa do projeto deve ser apresentada à Assembleia Nacional em 30 de setembro.

    O ministro das finanças, Roland Lescure, disse nesta semana que pretende manter o déficit o mais próximo possível de 5% do PIB. Os socialistas, cujo apoio será necessário para que o governo minoritário aprove o Orçamento, provavelmente se oporão aos cortes nos gastos sociais. Governos franceses caíram em 2024 e 2025 durante disputas orçamentárias.

    O Orçamento deste ano só foi aprovado depois que o primeiro-ministro Sébastien Lecornu concordou em suspender uma reforma que elevaria a idade de aposentadoria até depois de 2027, em troca de apoio à aprovação da proposta.

    Apesar dos temores iniciais do mercado em relação à falta de disciplina fiscal ou a uma postura mais rígida diante de Bruxelas, a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, e o ministro das Finanças, Giancarlo Giorgetti, receberam elogios de investidores em títulos por sua disciplina fiscal. O déficit fiscal caiu de 8% em 2022 —ano em que eles assumiram o governo— para pouco mais de 3% no ano passado.

    Chris Jeffery, chefe de estratégia macroeconômica da Legal & General, disse ter uma exposição abaixo da referência em títulos franceses e estar "realocando parte dela para a Itália".

    "É bastante difícil imaginar muitos políticos defendendo cortes orçamentários quando se tem uma eleição presidencial pela frente", disse Jeffery.

    Outros investidores internacionais também vêm mudando sua avaliação sobre França e Itália, segundo analistas. Evelyne Gomez-Liechti, estrategista de múltiplos ativos do Mizuho, disse que investidores japoneses —tradicionalmente grandes detentores de dívida francesa— vêm reduzindo sua alocação em títulos franceses.

    "A França é a nova Itália", disse Gomez-Liechti.

    Pesquisas recentes indicam que é cada vez mais provável que o líder da extrema esquerda Jean-Luc Mélenchon chegue ao segundo turno contra a líder da extrema direita Marine Le Pen, cenário que Gomez-Liechti classificou como "o pior resultado que o mercado poderia ter".

    Filippo Taddei, economista sênior para a Europa do Goldman Sachs, disse que o aumento da participação estrangeira na dívida soberana italiana desde março de 2023 refletiu a "normalização" do status do país, após anos em que foi tratado como um caso problemático na esteira da crise financeira global de 2008.

    "À medida que o dinheiro é realocado pela Europa, a Itália faz parte dessa realocação, o que não acontecia no passado", disse Taddei.

    Os rendimentos dos títulos italianos caíram abaixo dos franceses no ano passado pela primeira vez desde a crise financeira, mas rapidamente voltaram a subir quando a guerra entre Estados Unidos e Irã fez os preços do petróleo dispararem.

    A Itália é especialmente sensível à alta dos preços da energia, enquanto a França produz uma parcela maior de sua energia internamente. Mas, apesar de os preços do petróleo terem superado US$ 94 (R$ 484) em agosto, os rendimentos dos títulos franceses voltaram a subir acima dos italianos.

    Uma medida do prêmio de risco adicional atribuído pelos investidores à dívida francesa de longo prazo —o spread de 15 anos, com prazo a termo de 15 anos, em relação à taxa a termo de referência da Alemanha, que elimina as expectativas de política monetária no curto prazo— disparou nos últimos anos.

    A França "não está muito distante dos níveis de prêmio de risco observados na crise da dívida da zona do euro", disse Mike Riddell, gestor de portfólio da Fidelity International. Segundo ele, "a situação fiscal parece uma bagunça".

    Mas, embora Roma desfrute de custos de financiamento mais baixos que os da França, ao menos por enquanto, o país continua sob forte pressão do mercado para não se afastar de sua trajetória fiscal.

    "O mercado tem memória", disse Taddei, do Goldman, acrescentando que os investidores não perdoarão facilmente o período de descontrole fiscal da Itália.

    "A Itália precisa adotar uma política fiscal muito mais cautelosa que suas equivalentes França e Alemanha para ser tratada pelos participantes do mercado tão bem quanto a França", afirmou.

    Reportagem adicional de Adrienne Klasa, em Paris. Visualização de dados de Ray Douglas.

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/08/franca-toma-lugar-da-italia-como-maior-risco-para-titulos-na-europa.shtml.

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