Flipelô, a Flip do Pelourinho, tem missa com axé e procissão de best-sellers
Carla Madeira quis saber se aquele movimento todo naquele canto histórico de Salvador era normal. Angela Fraga respondeu que não. O mérito, disse, foi todo da Flipelô, a Festa Internacional Literária do Pelourinho , que realizada dos últimos dias 5 a 9 de agosto. Leia mais (08/12/2026 - 15h57)

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Carla Madeira quis saber se aquele movimento todo naquele canto histórico de Salvador era normal. Angela Fraga respondeu que não. O mérito, disse, foi todo da Flipelô, a Festa Internacional Literária do Pelourinho , que realizada dos últimos dias 5 a 9 de agosto.

Já são vários momentos marcantes em dez anos de festa, e isso desde o começo. A primeira edição, em 2017, abriu com Maria Bethânia cantando "Menino de Braçanã", do verso "quem anda com Deus não tem medo de assombração, e eu ando com Jesus Cristo no coração", na histórica Igreja de São Francisco.
Diretora da Fundação Casa de Jorge Amado , que organiza a Flipelô, Fraga às vezes se pergunta se a repercussão do festival seria maior se, digamos, ele ocorresse a uns 2.000 km dali. Como em Paraty , sede da Flip , ou em São Paulo.
O sarau de Bethânia na igreja, por exemplo. "Se acontecesse isso em qualquer evento no Sudeste, seria o boom! Estaria em todas as mídias nacionais. E a gente não saiu nelas. Tudo bem, era a primeira edição."

Demorou nove anos para o Jornal Nacional noticiar a Flipelô pela primeira vez, no ano passado, lembra Fraga. A Companhia das Letras, editora de envergadura nacional, montou um espaço próprio no Pelourinho só agora, em 2026.
Há mais pistas de que a feira vem crescendo. A mineira Carla Madeira não foi a única best-seller na programação. Sua conterrânea Ana Maria Gonçalves também foi, assim como o baiano Itamar Vieira Junior , o amazonense Milton Hatoum, o fluminense Gregorio Duvivier e a paulista Aline Bei.
As mesas acontecem em palcos montados na rua ou num dos vários casarões da vizinhança. A organização contou cerca de 330 mil acessos em seus eventos. Se estimarmos que uma pessoa foi, na média, em seis atividades durante o festival todo, seriam 55 mil visitantes. A Flip do mês passado recebeu 40 mil pessoas em Paraty.

A Flipelô não cobra por nenhum dos seus painéis e shows, inclusive faz parcerias para que museus do polo turístico, mesmo sem programação literária, abram de graça no período. "O fato de tudo ser totalmente gratuito é um diferencial", diz Fraga. A tenda principal da festa em Paraty, referência para a irmã soteropolitana, saía por R$ 140 a entrada inteira.
Claro que dinheiro não cai do céu. A maior parte dos custos é bancada pela Motiva, ex-CCR, gigante na área de rodovias e mobilidade urbana. A Caixa Econômica Federal entrou com verba neste ano. O problema é que o evento incha continuamente em logística e atrações, e isso tem um preço. "A gente precisa de mais. O evento cresce, e os patrocínios não crescem igual", diz Fraga.
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É justo dizer que talvez não houvesse Flipelô sem Flip. Myriam Fraga, poeta baiana laureada e mãe de Angela, teve a ideia de montar a festa após uma ida a Paraty em 2006 para debater seu amigo Jorge Amado, o homenageado daquela edição.
É impossível contar a história da Flipelô sem falar da amizade entre Myriam, Jorge e a escritora Zélia Gattai, mulher dele. O autor de "Gabriela, Cravo e Canela" chegou a escrever um livro infantil para presentear um filho da poeta. "O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá" fala de um amor meio "A Dama e o Vagabundo" entre os dois animais.
Myriam gostava de servir ao casal frigideira de maturi, prato tradicional da culinária nordestina, à base de castanha de caju ainda verde. Aos convescotes na casa da anfitriã, no boêmio bairro do Rio Vermelho, uniam-se ilustres como Carybé e Vinicius de Moraes. Todos "tios" e "tias" de Angela Fraga.

A Flipelô é também uma forma de honrar essa efervescência cultural de que tanto gostava Myriam, a artista homenageada nesse decênio do festival. Muito acontece o tempo todo.
Deu para ouvir Milton Hatoum criticar um "projeto da extrema direita de predadores e destruidores", acompanhar uma missa que mescla amém e axé na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e testemunhar um improvisado concurso de sósias do Michael Jackson.
Sérgio Rodrigues, autor de "Escrever É Humano", se dizia preocupado com o potencial de estrago da IA sobre nossa espécie. Afinal, o humano é um tipo preguiçoso: se puder pegar elevador, não vai de escada. Ele introduziu a plateia à concepção da "F-art", a fake art, que são os conteúdos gerados por inteligência artificial . Não desce pra ele. "Se ninguém se deu ao trabalho de escrever, por que eu vou me dar ao trabalho de ler?"

Todo mundo queria ler, e todo autor queria ser lido, na mesma semana em que a navegadora Tamara Klink causou um auê no meio editorial ao sugerir que as pessoas parassem de comprar seu livro, para poupar o meio ambiente do excesso de papel gasto.
A professora Bárbara Carine, que nas redes sociais atende por Uma Intelectual Diferentona, empolgou o público com seu conceito de "pilhagem epistêmica". Criticou a premissa de que o tanto de conhecimento que a humanidade produziu em milênios irradia do mesmo lugar, sempre branco. "Eu tinha um problema com a Grécia. Não é possível, tudo nasceu na Grécia?"
Carine também questionou por que embranquecer uma civilização tão rica em saberes como o Egito Antigo, onde prevaleciam as peles escuras, e não uma Cleópatra com a tez de sua intérprete mais famosa, Elizabeth Taylor. A autora lançou na Flipelô o Atotô Editorial, selo que criou com o marido, Thiago Thomé, e que prioriza obras que partem da perspectiva negra.
Gregorio Duvivier provocou uma das maiores filas do sábado ao apresentar um monólogo derivado de " Aos Pés da Letra ", livro sobre seu fascínio pela língua portuguesa. Coisas como acordos ortográficos que fulminaram modos antigos de escrever —como a queda do circunflexo em "voo", que "já não tem acento, deu overbooking".
Voos maiores estão no radar de Angela Fraga para o ano que vem. Receber sua xará Angela Davis , que acaba de passar pela Flip, é sempre uma ambição. Ela lembra que a ativista americana gosta de Salvador, que já visitou várias vezes, a última delas em 2023, para uma conferência da Universidade Federal da Bahia.
Se topar, poderá conhecer de perto o que a idealizadora da Flipelô concebia como barafunda literária da melhor qualidade. "O caos", certa vez preconizou Myriam Fraga, "é o latifúndio dos poetas".
A jornalista viajou a convite da Flipelô.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/08/flipelo-a-flip-do-pelourinho-tem-missa-com-axe-e-procissao-de-best-sellers.shtml.

Público se reúne para ver palco da Flipelô 2026 na noite do sábado, 8 de agosto - Carlos Manuel/Fundação Casa de Jorge Amado · Carlos Manuel/Fundação Casa de Jorge Amado — Foto: Folha de S.Paulo
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