Brasil

    Flávio Bolsonaro e a profanação eleitoral da fé

    Quão a sério devemos levar a promessa do candidato Flávio Bolsonaro de que, se for eleito, um de seus primeiros atos será decretar que "O Brasil é do Senhor Jesus"? Frei Henrique de Coimbra, que celebrou a primeira missa, em 26 de abril de 1500, poderá processá-lo por plágio? Afinal, a ideia de apresentar o território como espaço de uma soberania cristã já acompanhava a chegada portuguesa à terra de Vera Cruz, depois chamada de Terra de Santa Cruz. Leia mais (08/27/2026 - 07h00)

    Folha de S.Paulo
    27 de agosto de 2026 às 10:00
    Flávio Bolsonaro e a profanação eleitoral da fé
    Homem de camisa branca fala ao microfone, levantando o braço direito com dedo indicador apontado para cima. Ele usa três adesivos de campanha eleitoral no peito, com os números 222, 22 e 221. Fundo desfocado com pessoas e luzes. — Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos​

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Flávio Bolsonaro (PL) durante evento de sua campanha à Presidência da República no Rio de Janeiro - Daniel Ramalho - 22.ago.26/Xinhua · Daniel Ramalho - 22.ago.26/Xinhua
    Flávio Bolsonaro (PL) durante evento de sua campanha à Presidência da República no Rio de Janeiro - Daniel Ramalho - 22.ago.26/Xinhua · Daniel Ramalho - 22.ago.26/Xinhua — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    É doutor em sociologia pela USP e fundador do Mapa Centrante

    Quão a sério devemos levar a promessa do candidato Flávio Bolsonaro de que, se for eleito, um de seus primeiros atos será decretar que "O Brasil é do Senhor Jesus"? Frei Henrique de Coimbra, que celebrou a primeira missa, em 26 de abril de 1500, poderá processá-lo por plágio? Afinal, a ideia de apresentar o território como espaço de uma soberania cristã já acompanhava a chegada portuguesa à terra de Vera Cruz, depois chamada de Terra de Santa Cruz.

    Comecemos pelo óbvio: Flávio Bolsonaro busca ampliar sua vantagem entre os eleitores evangélicos. A expressão "O Brasil é do Senhor Jesus" circula há décadas em ambientes pentecostais, neopentecostais e de avivamento.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em certos contextos, ela se articula à teologia da batalha espiritual: pobreza, violência, drogas e outros males sociais passam a ser lidos como sinais da ação de forças demoníacas sobre o território. Declarar que o Brasil pertence a Jesus seria, então, uma forma simbólica de transferir a soberania do país do domínio do mal para o domínio de Cristo.

    O problema é que essa linguagem religiosa, quando convertida em promessa de decreto presidencial, deixa de ser apenas uma confissão de fé. Ela passa a insinuar que o Estado pode declarar a identidade religiosa da nação. A Constituição protege o direito de cada pessoa professar sua religião, mas impede que o Estado estabeleça uma confissão oficial ou trate os cidadãos como mais ou menos legítimos conforme sua fé.

    A declaração do candidato demonstra desprezo pelos parâmetros constitucionais que impedem o Estado de professar ou favorecer qualquer confissão religiosa. A Constituição protege o direito de um presidente professar sua fé, mas não lhe confere o direito de transformar essa fé em atributo oficial da República.

    Mega da Virada: quais as chances de ganhar e outras 7 perguntas sobre sorteio com prêmio recorde
Fotografia colorida mostra mão apostando na mega sena
Prêmio da mega da virada não acumula

Importado Automaticamente de: https://www.bbc.c
    Mega da Virada: quais as chances de ganhar e outras 7 perguntas sobre sorteio com prêmio recorde Fotografia colorida mostra mão apostando na mega sena Prêmio da mega da virada não acumula Importado Automaticamente de: https://www.bbc.c — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O ponto central da estapafúrdia promessa de decreto religioso é sua flagrante desfaçatez política. Se a proposta viesse de Michelle Bolsonaro , figura que construiu sua atuação pública em torno de uma linguagem explicitamente devocional, ela continuaria equivocada, mas pareceria coerente com o universo religioso em que costuma se expressar. Nos lábios de Flávio, a promessa de entregar o Brasil para Jesus soa como estelionato eleitoral .

    A família Bolsonaro não demonstra respeito nem pela Constituição nem pela religião. Flávio, além de desrespeitar as outras confissões ao prometer um decreto vinculado ao cristianismo, profana a própria fé cristã que diz ter em alta estima ao propor a entrega do Brasil a Jesus como ato de governo.

    Sob uma leitura cristã crítica, o uso eleitoral do nome de Jesus pode ser entendido como afronta ao terceiro mandamento, aquele que proíbe tomar o nome de Deus em vão. Se as preocupações com Jesus fossem além do uso eleitoral, certamente Flávio Bolsonaro levaria a sério as palavras ditas por Jesus a Pilatos: "O meu reino não é deste mundo" (João 18:36).

    Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha

    Resta saber que efeito a promessa terá sobre o eleitorado evangélico . Afinal, o tal decreto nasceu de diálogo com comunidades evangélicas? É uma aspiração religiosa desse segmento? Se fosse uma demanda evangélica, continuaria constitucionalmente inviável, mas seria compreensível na perspectiva do debate democrático.

    Não é o caso. Trata-se do típico candidato autoritário oferecendo um "biscoito" que imagina capaz de agradar aos súditos e reforçar sua imagem de governante piedoso. A relação do bolsonarismo com setores das igrejas evangélicas é orgânica, pois envolve alianças institucionais e interesses eleitorais.

    Isso não significa, porém, que seja democrática ou que represente a pluralidade interna do campo evangélico. Uma democracia para todos, crentes e não crentes, não pode ser apropriada por uma confissão religiosa, por César nem por qualquer herdeiro de dinastia política.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/08/flavio-bolsonaro-e-a-profanacao-eleitoral-da-fe.shtml.

    Imagem 1
    1 / 3

    Flávio Bolsonaro (PL) durante evento de sua campanha à Presidência da República no Rio de Janeiro - Daniel Ramalho - 22.ago.26/Xinhua · Daniel Ramalho - 22.ago.26/Xinhua — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)