Flávio Bolsonaro almeja grande pátria transnacional liderada por Trump
O Sete de Setembro é festa patriótica, mas qual pátria se celebra varia com o governante. Leia mais (09/11/2026 - 10h00)

Professora titular do Departamento de Sociologia da USP e pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento)
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O Sete de Setembro é festa patriótica, mas qual pátria se celebra varia com o governante.
Em 2020, Jair Bolsonaro teve seu dia da pátria pandêmica. Foi feriado atípico entre dias apocalípticos: ruas vazias de gente, casas lotadas de medo. Apenas a Covid fez festa servindo luto. A praga abreviou a comemoração no Alvorada. Faltaram povo e distanciamento social. Ministros e governadores aliados (lá estava Ronaldo Caiado ) cantaram o hino e muitos dispensaram a máscara, qual o líder, que fazia pouco da "gripezinha".
Cancelou-se o desfile das Forças Armadas, mas a fala presidencial em cadeia de rádio e TV teve cara de pronunciamento da ditadura militar: "A sombra do comunismo nos ameaçou". Bolsonaro se assombrava com esse fantasma e ignorava 126 mil mortos , sobre os quais diria ("não sou coveiro") e faria (a mímica da aflição pela falta de oxigênio) coisas que presidente não diz nem faz. Sua nação era darwinista, a dos sobreviventes.

Seu último Sete foi no bicentenário da Independência. Em Brasília, de manhã, o presidente recebeu a ansiada continência das Forças na parada. O candidato, à tarde, discursou em Copacabana, a bordo de motociata. Ato por sua reeleição lotou a Paulista e se repetiu em 21 capitais.
Tudo amarelo. Era uma nação partidarizada. Como sudários, toalhas estampavam o rosto do "mito" enquanto o opositor era reduzido a um boneco de "presidiário". Tremulavam faixas contra o STF e as urnas eletrônicas e pelo "acionamento das Forças Armadas". Bolsonaro definiu sua nação como religiosa ("somos uma pátria majoritariamente cristã") e intolerante —"esse tipo de gente [ Lula ] tem que ser extirpada da vida pública".
Na ocasião, Lula também reivindicou o patriotismo: " Tenho fé que o Brasil irá reconquistar sua bandeira ". Sua reconquista da Presidência requisitou mais que reza. A democracia sofreu em 2023 o maior ataque desde o fim da ditadura. O bolsonarismo se proclamou nação insurgente e tentou o golpe de Estado. O Sete oficial do governo petista foi, por isso, sóbrio, sob o lema: "Democracia, soberania e união". Pátria democrática e não revanchista —até porque os golpistas estavam presos.

Neste 2026, o Sete é vizinho das urnas e os lados disputam o voto, o STF e a nação. O desfile oficial separou presidente e candidato, mas escancarou a agenda: contra a violência de gênero, pela soberania nacional. Uma nação igualitária e altiva: "Não somos colônia e não seremos colônia de ninguém", discursou Lula.
Outra nação se apresentou na Paulista. Flávio B. fez dancinha, entre cavaleiros medievais, senhoras em verde e amarelo e indefectíveis infláveis. Lá estava o boneco de Lula com uniforme prisional e uma gigante biruta do ídolo hiperbólico. O norte-americano em cartazes e bonés "Trump 2028", a enorme bandeira dos Estados Unidos e os símbolos de Israel deixavam incerta qual era afinal a nação celebrada.
Em todos esses Setes, o sentido de "pátria" esteve em jogo. Em sua aparição, o bolsonarismo se apropriou do patriotismo. A esquerda respondeu sacudindo o orgulho nacional contra a subserviência a Donald Trump . Mas esse nacionalismo ufanista que serviu no passado ficou fraco para enfrentar o amálgama simbólico da direita contemporânea.

Seu fulcro é um patriotismo, mas não mais um nacionalismo. As cores nacionais são um entre muitos emblemas de costumes conservadores e desprezo pelas instituições democráticas.
Eduardo e Flávio Bolsonaro encarnam essa modalidade de pátria, um conservadorismo sem fronteiras, liderado por Trump ou qualquer similar de mesma agenda. Negam o lesa-pátria porque almejam uma grande pátria transnacional, afinal tão internacionalistas como os "comunistas".
Mas, enquanto o comunismo visava abolir a família, esse patriotismo ao mesmo tempo a restringe e a dilata. Na nação familista não cabe todo o mundo, mas todo admitido se converte —como disse Flávio B. a Daniel Vorcaro , não em um 7, mas em um 8 de setembro— em irmão.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/angela-alonso/2026/09/flavio-bolsonaro-almeja-grande-patria-transnacional-liderada-por-trump.shtml.

Jair Bolsonaro em cerimônia de hasteamento da bandeira, na área externa do Palácio da Alvorada, em comemoração do 7 de Setembro - Pedro Ladeira - 7.set.20/Folhapress · Pedro Ladeira - 7.set.20/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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