Flávio assume o sobrenome ao revelar seu programa
Quando chegou ao poder em 2019, Jair Bolsonaro prometia uma revolução contra o que chamava de sistema, um ente etéreo e útil como alvo de críticas por radicais à direita e à esquerda. Leia mais (10/07/2026 - 13h22)

Contextualiza um acontecimento e aprofunda a compreensão de seus diversos ângulos
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Quando chegou ao poder em 2019, Jair Bolsonaro prometia uma revolução contra o que chamava de sistema, um ente etéreo e útil como alvo de críticas por radicais à direita e à esquerda.
O deputado acreditava ser possível moldar a política brasileira a seu gosto apenas com os votos que recebera.
Politicamente, mostrou-se desdentado, amparado por uma amálgama de militares, aderentes de ideologias exóticas e boa vontade do dito mercado, enquanto isso foi lucrativo.

A debacle na pandemia mostrou a extensão de seu despreparo, e a crise militar de 2021 o colocou em uma rota de radicalização que explodiu no 7 de setembro daquele ano. Acuado pela reação à sua apoplexia golpista, Bolsonaro cedeu enfim ao centrão que tanto criticava.
Quase reelegeu-se com o novo arranjo, no qual seu chefe da Casa Civil Ciro Nogueira (PP), hoje mais conhecido por ser o político mais próximo de Daniel Vorcaro , era a estrela maior. Veio a trama golpista, seu fracasso e a ida de Bolsonaro para a prisão.
Lula ( PT ) começou o governo sob o signo do 8 de Janeiro e sua aliança com o Supremo ante um Congresso hostil, uma combinação eleitoralmente tóxica até aqui. Mas a turbulência provocada pelo Executivo cessou, sendo substituída só neste ano pela confusão no Judiciário.

Entra em cena o príncipe herdeiro do bolsonarismo, o primogênito Flávio. Sua campanha de primeiro turno foi marcada pela ausência de algo parecido com um programa de governo, e deu certo.
Bafejado pelo primeiro lugar na primeira rodada e pela nova configuração política do país, Flávio Bolsonaro enfim parece assumir seu sobrenome. Dois dias depois da votação, começou a falar como eleito e abrir o jogo acerca de forma mais concreta.
Disse na terça-feira (6) que queria "redemocratizar o Brasil". Nesta quarta (7 ) , sugeriu o que seria isso: reformar a política, o Judiciário, a Constituição, a lei penal e, de quebra, ver estendido o mandato presidencial às expensas da reeleição.

Fazer tais propostas é legítimo, e elas estavam citadas genericamente em seu plano de governo protocolado na Justiça Eleitoral. Mas o histórico golpista do bolsonarismo leva a suspeitas imediatas acerca das intenções de Flávio.
O que ele quer dizer por reforma do Judiciário, por exemplo? Até aqui, pelo proferido por ele e seus aliados, a prioridade é promover por meio de um Senado bolsonarista o impedimento de ministros que condenaram seu pai. Há também a ideia de reduzir competências e ritos internos.
Em relação ao mandato, é provável que apenas esteja acenando à necessidade de ter o trabalho de Tarcísio de Freitas (Republicanos), nome certo do jogo federal de 2030, em São Paulo no segundo turno.

Ciente do seu DNA, o próprio candidato buscou fazer um "hedge". "Eu já vi gente começar a dizer: 'Ah, agora o Flávio, com esse Congresso com ampla maioria, ele vai fazer o que o pai dele não fez'. Vamos parar de mentir, vamos aterrissar no mundo real. Para de fazer torcida", disse.
Além de admitir a "torcida", o senador logo na sequência afirmou que apenas ele poderá governar com o novo Congresso, ainda mais à direita que o atual.
Se é óbvio que uma eventual vitória de Lula fará o petista encarar um cenário ainda mais conflituoso, a confluência dos raciocínios sugere que Flávio procura, sim, fazer mais do que o pai.
Modelo ele já tem: o ídolo Donald Trump , cuja trajetória Jair Bolsonaro sempre espelhou . O roteiro inclui primeiro mandato turbulento, derrota por pouco, insurgência golpista, condenação judicial e volta por cima nas urnas.
A diferença é que a regra do jogo no Brasil não permite que apenados sejam candidatos, então Jair foi de Flávio. Voltando a Trump, com o controle que deverá perder agora das duas Casas do Congresso, o americano desde então trabalha para desmontar o arcabouço institucional de seu país.
Receba no seu email destaques das campanhas, pesquisas e disputas nos estados
Até aqui, tal reforma não se mostrou coerente do ponto de vista interno, além de trazer caos ao resto do mundo.
Para saber o que poderia acontecer no Brasil no caso de eleição de Flávio , é preciso agora clareza acerca da sua proposta. O impacto presumido de seu enunciado é doméstico, mas não desconectado dos desígnios de Trump para a região.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
As principais notícias da semana sobre o cenário jurídico e conteúdos exclusivos
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/flavio-assume-o-sobrenome-ao-revelar-seu-programa.shtml.

O senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PL, fala a jornalistas em Brasília - Diego Herculano/Reuters · Diego Herculano/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo
Compartilhe
Espalhe essa notícia

