Brasil

    Flávio agora tem tudo para jogar parado

    As eleições de 2026 ganharam características próprias quando comparadas aos dois pleitos anteriores entre o petismo e o bolsonarismo. Leia mais (10/04/2026 - 21h28)

    Folha de S.Paulo
    5 de outubro de 2026 às 00:28
    Flávio agora tem tudo para jogar parado
    À esquerda, homem de barba branca usa chapéu palha e camisa branca, com fundo azul. À direita, homem sorridente veste camisa clara com adesivo de campanha eleitoral número 22, fazendo sinal de paz com a mão. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Montagem com os candidatos Lula (PT) e Flávio Bolsonaro durante a votação neste domingo (4)
    Montagem com os candidatos Lula (PT) e Flávio Bolsonaro durante a votação neste domingo (4) — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Cientista político, professor e coordenador do Programa de Mestrado e Doutorado Profissional em Políticas Públicas da FGV/Eaesp

    As eleições de 2026 ganharam características próprias quando comparadas aos dois pleitos anteriores entre o petismo e o bolsonarismo.

    Em 2018, com Lula preso, a retórica bolsonarista trazia um tom missionário ao exaltar pautas como o combate à corrupção e a defesa de valores morais e religiosos como prioridades, deixando o petismo, recém-saído da Lava Jato, na defensiva. Em 2022, após sucessivos conflitos do governo Jair Bolsonaro com o STF , que desencadearam o receio de uma ruptura institucional, os petistas investiram na construção de uma frente ampla em defesa da democracia, o que parecia enfraquecer o bolsonarismo enquanto grupo político —sobretudo após o episódio de 8 de janeiro.

    Veja fotos de ato de Flávio Bolsonaro no último dia da campanha eleitoral
    Veja fotos de ato de Flávio Bolsonaro no último dia da campanha eleitoral — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A agenda eleitoral de 2026 foi sequestrada por fatores alheios aos comandos das campanhas, como o caso Master, as investigações sobre Lulinha e os escândalos do STF , além de questões pontuais relacionadas à Nossa Senhora e à relação do Brasil com os EUA, entre outras. Nesta disputa, Flávio e Lula não puderam contar com o tema da corrupção para alimentar a guerra entre eles. Ao contrário: passaram mais tempo criando narrativas para se defenderem dos supostos malfeitos que os envolviam diretamente ou que traziam seus familiares para o centro do debate.

    Não houve espaço para propostas sobre o futuro do país em relação às políticas públicas e, menos ainda, para discutir as prioridades de governo. Com isso, a decisão do voto neste primeiro turno parece ter se baseado mais em evitar a eleição de um deles do que em escolher pelo mérito de cada um. Entretanto, teremos um segundo turno em 20 dias, período muito curto para levar o eleitor a mudar de posição. Assim, tanto os estrategistas de Flávio Bolsonaro quanto os de Lula terão pouco tempo para buscar novos aliados que possibilitem, no caso do senador, ampliar a votação em 2% a 3% e, no caso do presidente, alcançar ao menos mais 6%. Um caminho é identificar com quem se pode contar, sobretudo nos estados mais populosos.

    Nesse caso, Flávio sai em grande vantagem. Não haverá segundo turno para governador em dois dos estados mais populosos: São Paulo e Minas Gerais. Em ambos, aliados do bolsonarismo saíram vitoriosos com votações expressivas e certamente terão disponibilidade para uma forte campanha antipetista. Todavia, Lula poderá contar com Eduardo Paes no Rio de Janeiro. Antes favorito, Paes chega ao segundo turno em condição de desvantagem e com pouca força para arregimentar votos para o petista. Nos estados do Sul, o pleito também foi resolvido no primeiro turno, com o PT sendo derrotado de forma avassaladora nas disputas para os governos estaduais e o Senado.

    Veja fotos de ato de Lula no último dia da campanha eleitoral
    Veja fotos de ato de Lula no último dia da campanha eleitoral — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Resta a Lula tentar ampliar seu desempenho na Bahia, em Pernambuco, no Piauí e no Ceará, onde, além de ter eleito governadores petistas —exceto em Pernambuco—, também teve senadores aliados eleitos. Entretanto, sem diminuir a diferença no Sul/Sudeste e no Centro-Oeste/Norte, o esforço pode ser em vão.

    O que explicaria o baixo desempenho de Lula e a súbita arrancada de Flávio Bolsonaro ? Um conjunto de fatos. Primeiro, o caso Lulinha trouxe novamente o tema da corrupção para o governo e o PT e foi um importante elemento de desgaste, explorado de forma intensa pelo principal adversário. Assim, afugentou eleitores que haviam deixado de votar no PT e tinham retomado o voto no partido em 2022.

    A recusa em participar do último debate, que parecia ter pouco impacto eleitoral, acabou também sendo intensamente explorada por Flávio no exato momento em que a candidatura de Lula começava a se descolar da de seu adversário no primeiro turno, três dias antes do pleito. Flávio, mesmo tendo seu nome envolvido diretamente no caso Master e vendo circular denúncias sobre sua vida íntima, acabou evitando comentar tais casos e viu seu prestígio eleitoral crescer mais pelo descrédito de seu principal competidor do que por propostas e méritos de sua atividade pública.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Agora resta saber se Flávio participará de debates ou se repetirá o que seu competidor fez quando liderava as pesquisas. Por fim, a sociedade brasileira merece candidatos que tragam propostas para o país, que digam como querem superar os desafios cotidianos da vida pública e que falem de futuro. Até o momento, não houve debate nem apresentação de propostas de maneira que um pudesse se diferenciar do outro.

    Ser honesto ou parecer honesto deveria ser uma obrigação e não uma excepcionalidade. Caso não haja debate efetivo de propostas, a tendência é que Flávio seja eleito mais pelo antipetismo já enraizado em diversos grupos sociais do que por seus méritos.

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    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha
    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/10/flavio-agora-tem-tudo-para-jogar-parado.shtml.

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