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    Fito Páez oferece suas verdades em 'O Mundo Cabe em uma Canção'

    Enquanto urina com a porta semiaberta do banheiro, Fito Páez -artista fundamental do rock argentino- diz que "falta malícia nos documentários" e que "o personagem central sempre é retratado como um modelo da bondade, isso cansa...". Leia mais (09/14/2026 - 17h02)

    Folha de S.Paulo
    14 de setembro de 2026 às 20:02
    Fito Páez oferece suas verdades em 'O Mundo Cabe em uma Canção'
    Foto: Folha de S.Paulo

    Jornalista especializada em diversidade, escreve sobre quem vive às margens nada plácidas do Ipiranga, da América Latina e de outras paragens

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    Fito Paez na 26ª edição do Grammy, em Las Vegas - Michael Tran - 13.nov.25/AFP · Michael Tran - 13.nov.25/AFP
    Fito Paez na 26ª edição do Grammy, em Las Vegas - Michael Tran - 13.nov.25/AFP · Michael Tran - 13.nov.25/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Enquanto urina com a porta semiaberta do banheiro, Fito Páez —artista fundamental do rock argentino— diz que "falta malícia nos documentários" e que "o personagem central sempre é retratado como um modelo da bondade, isso cansa...".

    Estamos em seu camarim, no backstage de sua vida, enquanto ele nos olha nos olhos, através da câmera, e prossegue: "É preciso que aconteçam coisas mais reais... Claro que é necessário disfarçar um pouco a vida, senão não é possível viver, estaríamos em guerra. Mas malícia sim".

    Sob um solo de guitarra, o pontapé de "O Mundo Cabe em uma Canção", recém-estreado na Netflix, não "caretea", como afirma em castelhano o músico de 63 anos. Ou seja, não disfarça; mostra claramente que esse é um documentário sobre Fito nas palavras de Fito, com seu olhar sobre a vida, e onde há rock and roll, mas também açúcar, afeto, chuvas e trovoadas. Olhos nos olhos, mas sem entregar toda a verdade, porque, do contrário, estaríamos em guerra.

    O músico em show na praça Zocalo, na Cidade do México - Henry Romero - 18.jan.25/Reuters · Henry Romero - 18.jan.25/Reuters
    O músico em show na praça Zocalo, na Cidade do México - Henry Romero - 18.jan.25/Reuters · Henry Romero - 18.jan.25/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Autor de canções como "Yo vengo a ofrecer mi corazón", difundida mundo afora principalmente na voz de Mercedes Sosa (1935-2009), ou "Track Track", gravada pelos Paralamas do Sucesso, Fito Páez é um dos nomes centrais da música argentina nas últimas quatro décadas.

    Três anos depois de ter sua vida transformada na série "O Amor Depois do Amor", com um repasso ficcional de sua trajetória, desde a infância melancólica na Rosário natal até a explosão ao lado de Charly García (totem maiúsculo do rock argentino) e a posterior e meteórica carreira solo, agora Fito conta sua história com a própria voz e com todo o corpo.

    O que se vê é o artista da maturidade, que escolhe como fio condutor do documentário o "selvagem" acidente doméstico que sofreu em 2024, em que fraturou 11 costelas, segundo conta.

    Tela do documentário na Netflix sobre o músico argentino Fito Paez - Reprodução · Reprodução
    Tela do documentário na Netflix sobre o músico argentino Fito Paez - Reprodução · Reprodução — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Para além da sua condição de lenda, que permeia toda a narrativa, o foco repousa em um homem frente a um encontro-limite com a fragilidade, e que voltou ao piano com os dedos intumescidos e o medo de haver perdido a capacidade de tocar e compor, aquilo que —sempre em suas palavras— é o que dá sentido à sua vida.

    Imagens de arquivo das diversas etapas do artista complementam e comentam seu cotidiano atual, entre ensaios e feéricas turnês onde pode se mostrar emotivo, exasperado —porque um músico não segue à risca a partitura— ou divertido, porque um motorista em Londres parece confundido ante seu pedido para que o leve a gravar nos estúdios de Abbey Road. "Abbey Road, sim, onde gravaram os Beatles ", confirma.

    Também desfilam, nas gravações ou em fotos, companheiros de trajetória de alto quilate, como o espanhol Joaquín Sabina, o cubano Pablo Milanés (1943-2022) ou o essencial Luis Alberto Spinetta (1950-2012), indiscutível farol da canção contemporânea argentina.

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    Seu autorretrato tem por moldura recordações muito detalhadas da infância vivida com o pai melômano (que o apresentou a Gershwin e Tom Jobim) e com a avó e a tia —que fizeram as vezes de mãe (já que Fito perdeu a sua quando era bebê) e que foram brutalmente assassinadas nos anos 80.

    Fito oferece muitas arestas do seu coração também a partir de reflexões cruas sobre amor(es), música, envelhecimento, raiva, pressão (do sucesso, da criatividade), dor, luto, morte. E de um tocante "Manual para os jovens de hoje", elaborado para sua aula na escola norte-americana de música Berklee no ano passado: "Os mestres não são só músicos. Qualquer pessoa pode te ensinar alguma coisa sobre a vida".

    Mais do que malícia, o espelho público em que o artista se olha reflete o desejo de um pacto de honestidade. Em bata hospitalar ou no paletó brilhante com que voltou aos palcos, o que se estabelece é uma conversa franca, dura e redentora, sobre a beleza dilacerante da vida, a eternidade da arte e a perenidade da existência.

    Homem com cabelo grisalho e óculos vermelhos veste casaco vermelho com detalhes brancos e toca guitarra amarela em palco iluminado por luzes vermelhas e desenhos neon ao fundo.
    Homem com cabelo grisalho e óculos vermelhos veste casaco vermelho com detalhes brancos e toca guitarra amarela em palco iluminado por luzes vermelhas e desenhos neon ao fundo. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    Tela do documentário na Netflix sobre o músico argentino Fito Paez
    Tela do documentário na Netflix sobre o músico argentino Fito Paez — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/denise-mota/2026/09/fito-paez-oferece-suas-verdades-em-o-mundo-cabe-em-uma-cancao.shtml.

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    Fito Paez na 26ª edição do Grammy, em Las Vegas - Michael Tran - 13.nov.25/AFP · Michael Tran - 13.nov.25/AFP — Foto: Folha de S.Paulo

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