'Fino', dinheiro e coragem: como apps exploram 'provas de masculinidade' dos entregadores, segundo sociólogo
Vitor Serrano/BBC Na esquina de um shopping center em São Paulo, o som de notificações de aplicativos de entrega toca freneticamente a partir das 11h. É apenas quando os pedidos de almoço na região da avenida Paulista recuam, por volta das 15h, que Matheus da Silva Pérez finalmente se senta, enrola um cigarro e conversa com colegas. Ali eles se reúnem diariamente com suas bags e bikes, num improvisado escritório ao ar livre. Eles são, em sua maioria, jovens. Aos 22 anos, Matheus trabalha há seis e começou a fazer entregas para complementar renda — antes, trabalhava em um lava-rápido e fazia bi
Na esquina de um shopping center em São Paulo, o som de notificações de aplicativos de entrega toca freneticamente a partir das 11h. É apenas quando os pedidos de almoço na região da avenida Paulista recuam, por volta das 15h, que Matheus da Silva Pérez finalmente se senta, enrola um cigarro e conversa com colegas.
Ali eles se reúnem diariamente com suas bags e bikes , num improvisado escritório ao ar livre. Eles são, em sua maioria, jovens.
Aos 22 anos, Matheus trabalha há seis e começou a fazer entregas para complementar renda — antes, trabalhava em um lava-rápido e fazia bicos como barista e garçom.

Mas logo ele percebeu que poderia se dedicar apenas às entregas.
"Vi que eu não precisava mais trampar em lugar nenhum quando vi que conseguia fazer muito mais dinheiro com entrega."
O trabalho por aplicativos segue em expansão no Brasil. Em 2024, eram 1,7 milhão de pessoas nessa modalidade, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o equivalente a 1,9% dos ocupados no setor privado. Em dois anos, houve um crescimento de 25,4%, com a entrada de mais 335 mil trabalhadores.
A maioria atua no transporte de passageiros: são 58,3% (964 mil). Já os entregadores representam 29,3% — ou seja, 485 mil pessoas. O grupo não é homogêneo: os trabalhadores que atuam em entregas se dividem principalmente pela idade e pelo veículo utilizado.
A renda média dos trabalhadores plataformizados, na época, era de R$ 2.996 com jornadas acima de 40 horas semanais. O rendimento médio da população brasileira atinge R$ 3.367 em 2025.
Matheus, que começou nos apps para complementar a renda, hoje faz entregas como seu trabalho principal — Foto: Vitor Serrano/BBC
Matheus sai todos os dias da Brasilândia, na Zona Oeste de São Paulo, e vai de ônibus e metrô até a Paulista, uma zona "quente" para pedidos.
Ele deixa sua bicicleta num estacionamento na região para evitar começar o dia já com fadiga. Mesmo com uma elétrica, o esforço físico é grande.
"Você ainda tem que pedalar, senão a bateria vai muito rápido, você acaba fazendo duas entregas, e a bateria acaba", diz.
O jovem gosta de trabalhar na rua, ao ar livre, de não estar preso a um escritório, sem saber se o dia está ensolarado. Mas o que mais o atraiu foi a autonomia.
"Pode escolher o horário do almoço. Pode folgar quando quiser. Pode trabalhar mais num dia e menos no outro. Pode parar para estudar, voltar para casa, descansar."
Para ele, o desgaste mental supera o físico. "Você passa estresse no estabelecimento, com pedestres, com o cliente. Não é fácil. A maioria do cansaço é mental, porque fisicamente a gente não sente tanto, porque a gente é novo. Mas mentalmente é muito exaustivo."
O ponto de encontro dos entregadores é local onde eles fazem amigos, trocam dicas e experiências — Foto: Vitor Serrano/BBC
O ponto de encontro dos entregadores é mais do que um lugar para fumar ou descansar. Virou também o local onde eles fazem amigos, trocam dicas e experiências.
Essas amizades já ajudaram Matheus em diversos apuros. Desde que começou a trabalhar por aplicativos, ele sofreu ao menos dois acidentes.
Numa tarde, em uma rua sem ciclovia, decidiu passar pela calçada para chegar mais rápido à entrega. Um motorista saiu de uma garagem sem que ele tivesse tempo de reação: "Ele acelerou para sair rápido e pegou no meio da bicicleta."
Neste dia, Matheus não terminou a entrega. Foram colegas que prestaram os primeiros socorros. Machucou tornozelo, perna e cotovelo, e a sua única bicicleta ficou danificada, o que o impediu de trabalhar até a recuperação.
Ele conseguiu receber suporte do iFood com o pagamento correspondente aos dias em que ficou parado e também não teve nenhuma sequela ou fratura.
Hoje, ele, que mora com a mãe e irmãos, fala em dividir apartamento com o amigo Pedro Ivo, 18 anos — a quem ele conheceu trabalhando. "Virou meu irmão."
Pedro, assim como Matheus, já sofreu dois acidentes. No primeiro, um carro avançou o sinal vermelho e bateu na bicicleta. No segundo, ele próprio estava distraído quando outro carro apareceu ao lado.
Pedro Ivo concilia trabalho em app com estudos — Foto: Vitor Serrano/BBC
Sete meses atrás, ele saiu do emprego de jovem aprendiz, juntou dinheiro suficiente para comprar uma bicicleta e uma bag e passou a trabalhar fazendo entregas.
"Eu recebia um pouco menos de um salário mínimo e o dinheiro meio que não dava pra quase nada", conta.
"Valeu a pena. A renda acho que quadruplicou do que eu tinha para hoje."
Pedro ainda termina o ensino médio e estuda pela manhã. Depois de assistir às aulas, começa a trabalhar. Dependendo do movimento, encerra o expediente às 22h.
Ele admite que nem sempre respeita o sinal vermelho. "A gente anda na calçada, anda na ciclofaixa, anda na contramão", diz. Sempre com cuidado, faz questão de acrescentar. "Cada minuto conta."
Publicado originalmente por G1. Leia a matéria completa em https://g1.globo.com/trabalho-e-carreira/noticia/2026/08/10/fino-dinheiro-e-coragem-como-apps-exploram-provas-de-masculinidade-dos-entregadores-segundo-sociologo.ghtml.

Agora no g1 — Foto: G1
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