Brasil

    Filosofia do óbvio

    O futebol brasileiro precisa evoluir na maneira de jogar e na formação de jogadores

    UOL
    29 de setembro de 2026 às 21:00
    Filosofia do óbvio
    Jogador com camisa amarela e número 19 tenta dominar a bola enquanto adversário de camisa azul estica a perna para disputar a posse em campo de futebol. — Foto: UOL

    Cronista esportivo, participou como jogador das Copas de 1966 e 1970. É formado em medicina

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    Vinicius Junior e o zagueiro Souttar na partida Austrália 2 x 4 Brasil, em Brisbane - Rafael Ribeiro/Divulgação CBF · Rafael Ribeiro/Divulgação CBF
    Vinicius Junior e o zagueiro Souttar na partida Austrália 2 x 4 Brasil, em Brisbane - Rafael Ribeiro/Divulgação CBF · Rafael Ribeiro/Divulgação CBF — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Houve progressos na seleção brasileira na vitória por 4 x 2 contra a Austrália, nesta terça (29).

    Além de pressionar mais na marcação, Carlo Ancelotti mudou o desenho tático com a escalação de um trio no meio-campo , formado por Bruno Guimarães mais centralizado, Gabriel Bontempo pela direita e Danilo pela esquerda. Ficou ainda melhor no segundo tempo com a entrada de Andrey pelo centro, Bruno pela direita no lugar de Bontempo, além de Danilo.

    É preciso separar essa formação do meio-campo, que é o posicionamento de que mais gosto, da maneira habitual de jogar dos times brasileiros com uma dupla de volantes em linha e mais um meia ofensivo à frente dos dois, que não participa da marcação e que joga entre o meio-campo e a zaga adversária, a espera de receber uma bola livre para criar uma jogada ofensiva.

    Lukas Modric na semifinal da Copa do Mundo de Clubes entre Real Madrid e PSG, em Nova Jersey - Vincent Carchietta - 9.jul.25/IMAGN Images via Reuters · Vincent Carchietta - 9.jul.25/IMAGN Images via Reuters
    Lukas Modric na semifinal da Copa do Mundo de Clubes entre Real Madrid e PSG, em Nova Jersey - Vincent Carchietta - 9.jul.25/IMAGN Images via Reuters · Vincent Carchietta - 9.jul.25/IMAGN Images via Reuters — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Se não há um típico craque camisa 10, a maneira de jogar com um trio de meio-campistas é mais eficiente, porque o time marca com três em vez de dois no meio-campo e possui dois meias ofensivos em vez de um. Dessa maneira, Ancelotti teve seus melhores momentos no Real Madrid , que atuava com Casemiro pelo centro, Modric pela direita e Kross pela esquerda.

    O futebol brasileiro precisa evoluir na maneira de jogar e na formação de jogadores. Nos anos 70, Chico Buarque, que entende muito de música e de futebol, escreveu que os europeus eram os donos do campo, pela maneira organizada que ocupavam os espaços, e os brasileiros eram os donos da bola, por causa da improvisação, inventividade e fantasia dos craques.

    Isso mudou. Os europeus evoluíram na estratégia, na intensidade, no jogo coletivo e, ao mesmo tempo, passaram, progressivamente, a formar jogadores hábeis, rápidos, dribladores, talentosos, parecidos com os craques brasileiros. Já o Brasil não acompanhou tanto a evolução tática, além de ficar perdido, sem saber se valoriza mais o individual ou o coletivo, o craque ou a estratégia de jogo. Os dois são essenciais e um precisa do outro. É a filosofia do óbvio.

    Lamine Yamal na partida entre Inglaterra e Espanha, em Wembley, pela Liga das Nações - Ben Stansall - 26.set.26/AFP · Ben Stansall - 26.set.26/AFP
    Lamine Yamal na partida entre Inglaterra e Espanha, em Wembley, pela Liga das Nações - Ben Stansall - 26.set.26/AFP · Ben Stansall - 26.set.26/AFP — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Enquanto o Brasil enfrenta a fraca seleção da Austrália e, muito pior ainda, a da Índia, os europeus realizam ótimos e intensos jogos pela Liga das Nações, como a vitória da Espanha por 3 x 2 contra a Inglaterra. O time espanhol jogou ainda melhor do que atuou na Copa, com Lamine Yamal novamente em forma.

    Na vitória de Portugal por 2 x 1 sobre a Noruega, em um jogo equilibrado, os brasileiros viram novamente uma excepcional atuação de Odegaard, que brilhou contra o Brasil na Copa. Odegaard costuma receber a bola dos zagueiros para iniciar as jogadas, trocando passes até a área adversária. Ele é muito mais que um típico camisa 10. É um meio-campista que joga de uma intermediária à outra.

    Lembrei-me de Gerson, o da Copa de 70. Usava a camisa 8, mas, como Odegaard, gostava de receber a bola dos zagueiros e do goleiro. Com troca curta de passes e espetaculares e precisos passes longos, encantava a todos. Na primeira vez que joguei ao lado de Gerson e de Pelé , os três juntos, em um amistoso na Suécia, antes da Copa de 1966, Gerson, já experiente, sentou-se ao meu lado no intervalo e perguntou: "Dá pra você jogar com dois toques em vez de um para dar tempo de eu chegar próximo de você e de Pelé?".

    Veja lances de Brasil x Noruega na Copa de 2026
    Veja lances de Brasil x Noruega na Copa de 2026 — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Foi o que fiz. Foi bom pra mim, para ele e para o time.

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    Jogador do Real Madrid com camisa branca e faixa azul de capitão no braço direito, em campo durante partida. Fundo desfocado com outros jogadores e arquibancada.
    Jogador do Real Madrid com camisa branca e faixa azul de capitão no braço direito, em campo durante partida. Fundo desfocado com outros jogadores e arquibancada. — Foto: UOL · Fonte: UOL

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    Jogador da seleção espanhola com uniforme vermelho e azul chuta a bola no ar enquanto adversário com uniforme branco observa. Estádio com público ao fundo.
    Jogador da seleção espanhola com uniforme vermelho e azul chuta a bola no ar enquanto adversário com uniforme branco observa. Estádio com público ao fundo. — Foto: UOL · Fonte: UOL

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/tostao/2026/09/filosofia-do-obvio.shtml.

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    Vinicius Junior e o zagueiro Souttar na partida Austrália 2 x 4 Brasil, em Brisbane - Rafael Ribeiro/Divulgação CBF · Rafael Ribeiro/Divulgação CBF — Foto: UOL

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