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    Filmes no Festival de Brasília transitam entre a memória e a distopia no Brasil

    "Todo o Sentimento", exibido na noite desta terça-feira (15) no Festival de Brasília , imagina um Brasil no qual a tentativa de ruptura institucional após a eleição de 2022 foi bem-sucedida. "Tudo É Tempo", de segunda (14), prefere olhar para o país que de fato existiu, por meio de quatro personagens filmados durante o primeiro governo Lula e reencontrados muitos anos depois. Leia mais (09/16/2026 - 18h04)

    Folha de S.Paulo
    16 de setembro de 2026 às 21:04
    Filmes no Festival de Brasília transitam entre a memória e a distopia no Brasil
    Foto: Folha de S.Paulo

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    "Todo o Sentimento", exibido na noite desta terça-feira (15) no Festival de Brasília , imagina um Brasil no qual a tentativa de ruptura institucional após a eleição de 2022 foi bem-sucedida. "Tudo É Tempo", de segunda (14), prefere olhar para o país que de fato existiu, por meio de quatro personagens filmados durante o primeiro governo Lula e reencontrados muitos anos depois.

    Imagem de 'Todo o Sentimento', da dupla Ary Rosa e Glenda Nicácio - Divulgação · Divulgação
    Imagem de 'Todo o Sentimento', da dupla Ary Rosa e Glenda Nicácio - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    São duas maneiras bastante diferentes de tratar da política brasileira. O primeiro, de Ary Rosa e Glenda Nicácio, cria uma distopia em que uma ditadura vigia e controla os cidadãos. O segundo, documentário de Marcos Guttmann , observa como o tempo alterou a vida, as opiniões e até as contradições de quatro eleitores.

    Em "Todo o Sentimento", o cineasta Henrique, interpretado por Aldri Anunciação, vive isolado numa casa colonial no Recôncavo Baiano. O país é governado por um regime autoritário, e a vigilância faz parte da vida cotidiana. A chegada de Gustavo, vivido por Lucas Leto, obriga Henrique a sair, ao menos em parte, do isolamento.

    A distopia criada por Rosa e Nicácio não aposta num futuro cheio de invenções espetaculares. Pelo contrário. O país que aparece na tela continua reconhecível, inclusive em sua arquitetura a e em estruturas sociais muito antigas.

    Filmes exibidos no Festival de Brasília de 2026
    Filmes exibidos no Festival de Brasília de 2026 — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Henrique já havia aparecido em "Ilha", longa lançado pela dupla em 2018. A retomada do personagem permite aos diretores colocá-lo diante de outro momento do país e também verificar o que o tempo fez com ele. Aldri Anunciação ganhou melhor ator e Ary Rosa e Glenda Nicácio venceram roteiro no Festival de Brasília daquele ano .

    "Reencontrar um personagem como Henrique, que é um personagem caro, só faz sentido se for num outro contexto. Eu acho que o Brasil de 2016, daquele Henrique, é um Brasil muito diferente de 2026, desse Henrique", afirmou Rosa no debate realizado na manhã seguinte à sessão.

    Para o diretor, voltar a Henrique significa também retomar uma preocupação presente nos outros trabalhos realizados com Nicácio: procurar relações de afeto mesmo em situações adversas. Em "Todo o Sentimento", porém, isso acontece num país em que a repressão passou a fazer parte da rotina.

    "Tudo é Tempo", de Marcos Guttman - Divulgação · Divulgação
    "Tudo é Tempo", de Marcos Guttman - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O roteiro não é novo. Nicácio contou que o projeto passou anos engavetado e chegou a parecer ultrapassado quando a situação política brasileira mudou.

    "Por alguns segundos, o Brasil foi mudando de conjuntura e a gente pensou: ‘Não vai dar mais para fazer o ’Todo o Sentimento’, porque vai perder o tempo’. Ele era para aquele tempo que ele foi escrito, a gente não conseguiu fazer", disse ela.

    A situação, segundo a diretora, acabou se invertendo. "De repente, numa reviravolta, não mais que de repente, é o Brasil de novo."

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    Se "Todo o Sentimento" inventa o que poderia ter acontecido ao país, "Tudo é Tempo" encontra seu interesse justamente no que aconteceu.

    Guttmann começou o documentário durante a eleição presidencial de 2002. Entre dezenas de pessoas que votavam numa mesma seção eleitoral do Colégio Pedro 2º, no Rio de Janeiro, chegou aos quatro personagens que permaneceriam no filme: Carlos Ibrahim, Cristiane Rosa, Fernando Pereira e Heber Cunha.

    Eles formam um grupo particularmente bom para um documentário. Fernando, o Nando, passou por diferentes trabalhos, mora na Cidade de Deus e mantém uma relação constante com o samba. Cristiane é médica infectologista.

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    Heber é poeta e passa boa parte do filme revendo posições e confrontando as próprias contradições. Carlos Ibrahim, filho do histórico líder sindical José Ibrahim, é o mais diretamente ligado à militância e à atividade política.

    O resultado é curioso e frequentemente divertido. A política está presente o tempo inteiro, mas o filme interessa sobretudo quando mostra como ela se mistura às questões mais imediatas da vida: dinheiro, profissão, família, saúde, moradia e relações pessoais.

    As primeiras filmagens se concentram no período iniciado em 2002 e avançam pelo primeiro governo Lula. Depois, o projeto é interrompido. Anos mais tarde, quando o país já havia entrado em outro estágio de polarização política, o diretor volta a procurar os mesmos personagens.

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A interrupção não havia sido planejada. "Não foi uma estratégia deliberada. Eu tentei finalizar, captar recursos para o filme, para prosseguir ou para finalizar uma versão naquele momento, mas não consegui", afirmou Guttmann no debate do festival. "Então, o projeto foi para a prateleira durante muitos anos."

    O intervalo acaba produzindo uma das qualidades do documentário. Quando Guttmann volta a Fernando, Cristiane, Heber e Carlos, não encontra simplesmente versões mais velhas das pessoas que havia filmado.

    Algumas opiniões permaneceram, outras mudaram de maneira radical, e as diferenças entre aquilo que eles diziam no início do século e o que dizem anos depois são o melhor do filme.

    "O tempo é o eixo central do filme", disse Guttmann. "A memória não é linear; ela é multifatorial, e o filme optou por respeitar essa arbitrariedade da memória em vez de usar recursos tradicionais de flashback."

    Assim, os dois longas chegam à política brasileira por caminhos opostos. Ary Rosa e Glenda Nicácio recuperam um personagem conhecido e modificam radicalmente o país em torno dele. Marcos Guttmann retorna muitos anos depois às mesmas pessoas para descobrir quanto o país —e o próprio tempo— as modificou.

    O repórter viajou a convite do Festival de Brasília

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/09/filmes-no-festival-de-brasilia-transitam-entre-a-memoria-e-a-distopia-no-brasil.shtml.

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    Imagem de 'Todo o Sentimento', da dupla Ary Rosa e Glenda Nicácio - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo

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