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    Filme revê fraude da Theranos e magnetismo de Elizabeth Holmes

    Elizabeth Holmes é uma pessoa esquisita. Seu rosto, dominado por gigantescos olhos azuis, remete a um Picasso cubista sobreposto à figura enigmática da Gioconda de Leonardo da Vinci . Por trás dessa arquitetura habita uma mulher de magnetismo singular que, aos 19 anos, fez uma das promessas mais ambiciosas da medicina moderna -salvar vidas com uma gota de sangue. Leia mais (10/13/2026 - 13h00)

    Folha de S.Paulo
    13 de outubro de 2026 às 16:00
    Filme revê fraude da Theranos e magnetismo de Elizabeth Holmes
    Mulher de cabelos claros e longos sorri enquanto conversa com criança de costas, em ambiente interno iluminado por luz natural. Homem observa ao fundo próximo a uma geladeira. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Cena do documentário 'You Can See Everything', sobre Elizabeth Holmes e a fraude da empresa Theranos - Divulgação · Divulgação
    Cena do documentário 'You Can See Everything', sobre Elizabeth Holmes e a fraude da empresa Theranos - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Advogada, escritora e dramaturga, é autora de 'Caos e Amor'; colunista da Folha

    Elizabeth Holmes é uma pessoa esquisita. Seu rosto, dominado por gigantescos olhos azuis, remete a um Picasso cubista sobreposto à figura enigmática da Gioconda de Leonardo da Vinci . Por trás dessa arquitetura habita uma mulher de magnetismo singular que, aos 19 anos, fez uma das promessas mais ambiciosas da medicina moderna —salvar vidas com uma gota de sangue.

    A promessa era colocar a medicina preventiva literalmente na ponta dos dedos. Uma picada, um aparelho miniaturizado e centenas de exames capazes de diagnosticar até 200 doenças a tempo de serem tratadas.

    Elizabeth Holmes e Theranos
    Elizabeth Holmes e Theranos — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O Vale do Silício comprou esse sonho —e pagou caro. Entre 2013 e 2015, a Inc. e a Fortune estampavam suas capas com Holmes chamando-a de "o próximo Steve Jobs" . Ela levou a comparação tão a sério que adotou as blusas pretas de gola alta, marca registrada do fundador da Apple , e uma voz artificialmente grave em palestras e reuniões com investidores.

    Ao lado de Sunny Balwani, seu parceiro de negócios e ex-namorado, Holmes convenceu investidores a financiar uma companhia avaliada em bilhões. Só Murdoch colocou cerca de US$ 125 milhões. Ela se tornou a mais jovem mulher bilionária self-made do Vale do Silício, apresentada como uma supercientista que teria revolucionado o sistema de saúde. Os investidores acreditavam também em si mesmos, convencidos de que eram capazes de reconhecer um gênio — o golpe como colaboração, fenômeno dissecado por Maria Konnikova no livro "The Confidence Game".

    Mas a revolução era uma fraude extraordinária . A caixa simplesmente não funcionava, e os resultados frequentemente eram enganosos. Em 2015, o repórter John Carreyrou, do The Wall Street Journal, alertado por um patologista, investigou o caso e revelou que a Theranos usava aparelhos convencionais de outras empresas. Como essas máquinas exigiam volumes maiores de sangue do que a picada no dedo rendia, funcionários eram instruídos a diluir as amostras, o que comprometia os resultados. A empresa, que chegou a valer US$ 9 bilhões, passou a valer praticamente zero e terminou na falência e na condenação de Holmes por fraude.

    Liz Holmes quer que você esqueça a Elizabeth que fundou a Theranos
    Liz Holmes quer que você esqueça a Elizabeth que fundou a Theranos — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Toda essa história é contada em "You Can See Everything", documentário que estreia nos cinemas americanos em 16 de outubro e mergulha na mente da ex-empresária. Exibido no Festival de Cinema de Telluride, no Colorado, foi elogiado por críticos e espectadores. O filme não tem data confirmada no Brasil.

    O documentário começa um mês antes de Holmes se apresentar à prisão federal para cumprir pena de 11 anos. Ela própria fez um convite inusitado a um dos diretores, Nathan Fielder, de "O Ensaio" —morar em sua casa com a família, na esperança de convencer os cineastas, e quem sabe o mundo, de que ela foi injustiçada.

    Fielder, que dirige o filme ao lado de Lance Oppenheim —a dupla surpreendeu o mundo do cinema com o longa filmado em segredo—, acaba arrastado para dentro da história, tentando, o tempo todo, decifrar se Holmes está sendo sincera ou tenta manipulá-lo. A partir daí, a obra toma rumos cada vez mais surreais. Para Owen Gleiberman, da revista Variety, é um "circo psicodramático único".

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Sentado diante de Holmes, Fielder disse tê-la achado "de certa forma honesta e encantadora", mesmo com o seu cérebro avisando —"Não, não confie". Essa desconexão entre o que ele sabia sobre Holmes e o que sentia em sua presença é o centro do filme.

    Phyllis Gardner, professora de medicina de Stanford e uma das primeiras a ouvir os planos de Holmes, resumiu. "Ela não entendia de medicina e tinha conhecimentos rudimentares de engenharia. E tinha 19 anos. Mas não queria ouvir especialistas. Achava que sabia tudo."

    O que Holmes dominava era o poder das relações públicas. Formou um conselho de administração poderoso com ex-secretários de governo, ex-senadores e nomes como George Shultz, Jim Mattis e Henry Kissinger, e buscou investidores ricos que pouco entendiam de biotecnologia.

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Quando o então vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, visitou a Theranos, ela montou um laboratório especialmente preparado para a ocasião. "Este é, de certa forma, o laboratório do futuro", Biden comentou.

    Grande parte do caso só chegou aos tribunais graças aos denunciantes. Adam Rosendorff, ex-diretor do laboratório e testemunha-chave do julgamento, conta que até o terapeuta teve dificuldade para acreditar no que ele dizia. "Quem não teria? Imagine um médico relativamente jovem dizendo que uma das maiores histórias de sucesso do mundo era uma fraude."

    Erika Cheung, ex-funcionária, afirma que, enquanto o dinheiro entrava, os resultados do laboratório pioravam. Os exames apresentavam imprecisões recorrentes, colocando a saúde das pessoas em risco. Isso incluía testes para hepatite C, tireoide e até exames relacionados ao câncer. Mas Elizabeth Holmes não parava, mesmo sabendo que o aparelho não funcionava. O que mais chocou foi o uso da " tecnologia " em pacientes reais, com doenças reais.

    Cheung e Tyler Shultz, outro ex-funcionário, tentaram alertar internamente sobre os problemas, mas Holmes e o sócio reagiram de forma agressiva e chegaram a ameaçá-los com processo caso denunciassem as irregularidades.

    Em 2015, eles decidiram denunciar e procuraram o jornalista do Wall Street Journal. Tyler, neto de George Shultz, que fazia parte do conselho da Theranos, chegou a comprar um celular descartável para falar secretamente com ele. Um dia, ao visitar o avô, encontrou dois advogados da empresa à sua espera. "Eles basicamente fizeram uma emboscada."

    O cientista Darrem Saunders, que acompanhou de perto a ascensão de Holmes, diz que "tinha vontade de gritar: ‘O rei está nu’", e queria puxar aquelas pessoas de lado e perguntar: "Não há nada aqui. Por que vocês estão gastando tanto dinheiro em algo cuja existência sequer foi provada?".

    Ao ouvir a sentença, Holmes disse estar devastada por seus "fracassos" e assumiu responsabilidade pela Theranos, mas sem admitir qualquer crime. Para o promotor, o problema nunca foi o fracasso, foi a mentira. Fracasso é a palavra do empreendedor; mentira é a palavra do tribunal. Escolher o vocabulário é uma forma refinada de negação.

    Gógol já tinha escrito essa cena em 1836, em "O Inspetor Geral". Numa cidadezinha russa, autoridades entram em pânico com a notícia de que um fiscal do governo viaja incógnito. Quando um homem simples se hospeda na estalagem, todos decidem que ele é o fiscal e passam a bajulá-lo. Emprestam-lhe dinheiro, oferecem-lhe a filha e confessam seus pecados.

    O rapaz nem precisa se dar ao trabalho de mentir, a cidade já trabalha por ele. No fim da peça, o verdadeiro fiscal chega, e aqueles que bajularam não se perdoam por ter ficado de joelhos diante de um zé-ninguém.

    Holmes só inventou uma grande mentira. O resto, o Vale do Silício fez sozinho.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/10/filme-reve-fraude-da-theranos-e-magnetismo-de-elizabeth-holmes.shtml.

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