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    Filme 'O Convite' propõe repensar sexo e desejo em relacionamentos longos

    Um dos grandes perigos de um relacionamento longo é deixar de ter curiosidade sobre o outro. Quando acreditamos que já sabemos quem é aquela pessoa, os papéis se cristalizam e a convivência pode virar uma rotina funcional. Leia mais (08/11/2026 - 23h00)

    Folha de S.Paulo
    12 de agosto de 2026 às 02:00
    Filme 'O Convite' propõe repensar sexo e desejo em relacionamentos longos
    Homem de barba e óculos usa jaqueta jeans azul clara sobre camiseta branca, ao lado de mulher com cabelo preso e blusa verde-oliva, ambos encostados em parede cinza em sala com quadros ao fundo. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Um dos grandes perigos de um relacionamento longo é deixar de ter curiosidade sobre o outro. Quando acreditamos que já sabemos quem é aquela pessoa, os papéis se cristalizam e a convivência pode virar uma rotina funcional.

    Os atores Seth Rogen e Olivia Wilde em cena do filme 'O Convite' - Divulgação · Divulgação
    Os atores Seth Rogen e Olivia Wilde em cena do filme 'O Convite' - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em "O Convite" , filme dirigido e estrelado por Olivia Wilde , uma troca de parceiros que parece prometer novidade acaba revelando que o problema do casal protagonista é anterior ao sexo : eles já não conseguem se olhar.

    Refilmagem do espanhol "Sentimental" (2020), de Cesc Gay, o longa acompanha Joe (Seth Rogen) e Angela (Wilde), juntos há mais de uma década e pais de uma menina. Eles recebem os vizinhos Piña (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton), juntos há apenas um ano, e desde o início fica evidente a desconexão do casal anfitrião.

    Atenção: este texto contém alguns spoilers nos parágrafos a seguir.

    Veja cenas do filme 'O Convite' de Olivia Wilde
    Veja cenas do filme 'O Convite' de Olivia Wilde — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Angela e Joe conversam para cobrar e acusar um ao outro e têm uma tendência a responsabilizar o parceiro pelas próprias frustrações. Piña e Hawk também têm conflitos, mas parecem mais disponíveis para reconhecer o incômodo, pedir desculpas e negociar.

    Quando surge a proposta de uma troca de casais , os anfitriões topam como se a novidade pudesse recuperar alguma coisa que se perdeu. Mas a experiência deixa clara a falta de intimidade entre eles.

    Para a psicanalista Maria Homem, a casa dos protagonistas é também uma espécie de personagem do filme e representa a própria relação. Joe e Angela investiram numa reforma cara, mas trata-se na verdade de uma "pseudo-reforma", avalia Maria, em que as estruturas são mantidas.

    É possível se desapaixonar?
    É possível se desapaixonar? — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A decoração do apartamento expressa esse movimento, acrescenta a psicanalista. "Há uma indecisão sobre novos tons de azul para pintar, que você nem consegue escolher ou diferenciar de tão parecidos. Tudo permanece no mesmo lugar."

    A ideia de mudar sem sair do lugar também aparece na análise da filósofa e professora Lúcia Helena Galvão. Para ela, não se trata apenas de ficar parado, mas de seguir continuamente, sem aceleração ou pausa.

    "O maior risco que corremos é o de deixar de agir por medo e resistência. Se algo não está bem, a mudança é bem-vinda, interna ou externamente", diz Galvão.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Consultora do filme "O Convite", a psicoterapeuta Esther Perel, autora do best-seller "Sexo no Cativeiro: Como Manter a Paixão nos Relacionamentos" (Objetiva), usou a expressão "guerra crônica de baixa intensidade" para descrever o casamento de Angela e Joe.

    "[O filme fala sobre os] desafios de casais que ficam estagnados, que não conseguem mais se reconhecer, que perderam o desejo, a ânsia, que foram aprisionados em uma guerra crônica de baixa intensidade", disse Perel em entrevista recente ao jornal The New York Times.

    É nesse terreno que pode surgir o ressentimento. Para a psicanalista e pesquisadora de relacionamentos Carol Tilkian, colunista da Folha , isso acontece quando os parceiros passam a "olhar para o outro muito mais como um oponente do que como um parceiro de aventura".

    "A gente está num mundo cada vez mais verbal, mental. Quando foi a última vez que o casal intencionalmente se fez um carinho, deu um beijo demorado de língua, se tocou?", questiona. "No momento em que a gente acha que é íntimo porque já conhece, a gente acaba esvaziando a relação de intencionalidade, de curiosidade. Isso vai desgastando e esgarçando o amor."

    Maria Homem sugere que os indivíduos façam uma reflexão para continuar se reinventando. "Como é que a gente se renova? Como é que a gente se deixa ser interessante, criativo?"

    É nesse contexto que a psicanalista lê o comportamento de Angela. Para Maria, a personagem canaliza seu "eu erótico e desejante" ao caminhar nua pela casa com a janela aberta sabendo que Hawk pode observá-la.

    A questão, portanto, não se limita ao sexo. Diz respeito também à possibilidade de voltar a ser desejada e desejante. Maria Homem observa que muitos casais colocam suas fantasias em jogo no início da relação, mas podem chegar, depois de alguns anos, a uma "parede" formada por medos, repressões ou pela própria chegada dos filhos. A partir daí, recuam da pesquisa erótica, e o sexo pode travar.

    No contexto da troca de casais, Maria afirma que a renovação não se resume à troca do objeto, "uma mudança via magia, pirlimpimpim". Ela precisaria atingir "o vínculo, o elo, o jogo desejante" na dinâmica do casal.

    Galvão também alerta para o risco de procurar o novo apenas fora da relação. Ao fazer isso, afirma, "estaremos sempre condicionados a uma mudança externa que nunca nos trará a verdadeira realização".

    Para ela, uma possibilidade é cultivar deliberadamente a curiosidade. "Se aprendêssemos a olhar para o mundo sempre com esse olhar do novo, com a curiosidade de uma criança, e nos dispuséssemos a conhecer um novo aspecto do outro todos os dias, a convivência só aprofundaria cada vez mais as relações."

    Carol sugere que uma forma de levar isso para o dia a dia é fazer coisas novas juntos. "Por isso que casais em crise muitas vezes vão viajar, porque na viagem você tem que aprender a abrir um chuveiro diferente, a pedir um prato numa língua que você não sabe. Vencer esses pequenos desafios juntos traz para o casal um senso de que é possível mudar dinâmicas, ainda que eles estejam há muito tempo juntos."

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    A pesquisadora também defende recuperar prazeres que existam para além do casal. Ver o parceiro envolvido com algo que desperta seu entusiasmo pode renovar o olhar. "É poder falar sobre os novos tesões da vida e criar novos tesões juntos."

    Outra sugestão é reservar momentos para o lúdico, a curiosidade e a reconexão, em vez de esperar que sobre energia depois de um dia exaustivo. A mesma lógica vale para novas experiências sexuais. Abrir o relacionamento ou experimentar aventuras pode conectar o casal com o novo, pode ser "a cereja do bolo e o frio na barriga", diz Carol.

    Há, contudo, uma questão fundamental que deve sempre ser respondida: existe a vontade de renovar essa parceria?

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2026/08/filme-o-convite-propoe-repensar-sexo-e-desejo-em-relacionamentos-longos.shtml.

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